Dona Zefinha, de Itapipoca a Berlim 

A banda cearense Dona Zefinha embarca hoje para a Alemanha, como um dos grupos brasileiros convidados este ano para a Popkomm, uma das maiores feiras do setor musical em todo o mundo

Já disseram que o frio tá grande, mas vamos levando uns ''gibão de couro''. A brincadeira é de Orlângelo Leal, cantor, compositor, multi- instrumentista, brincante e, ufa!, integrante da banda cearense Dona Zefinha, para quem já não é exatamente novidade trocar a Itapipoca de origem por temporadas fora do Brasil. Em 2004, o grupo já teve a oportunidade de se apresentar na Coréia do Sul, fruto de um contato em um evento musical. Aproveitaram a conexão do vôo de volta em Frankfurt para passar uns dias na Alemanha, se apresentando no festival Samba Sindrom, em Berlim, ciceroneados por integrantes da banda alemã Shank, com quem já haviam trocado figurinhas na Feira da Música em Fortaleza. A julgar pelo entusiasmo de seus integrantes, a mistura de som popular e experimentação cênica promovida pela Dona Zefinha foi recebida com agrado. Lá como cá.


 


 


Agora, o grupo se prepara para retornar à Alemanha. Os sete músicos, mais o ´roadie´ Douglas Salvador e os produtores Thais Andrade e Alexandre Hermes, do Caldeirão das Artes, embarcam hoje rumo a Berlim, onde entre os dias 19 e 22 acontece mais uma edição da Popkomm, uma das maiores feiras mundiais do setor musical. Um evento interfaces de um festival de shows espalhados por 30 clubes da capital alemã (oito deles no Kulturbrauerei, no agitado bairro de Prenzlauer Berg), uma conferência internacional de debates, apresentação de 800 estandes de 55 países e fechamento de negócios, foco dos produtores do evento. Preocupados, assim como os promotores de outras feiras do tipo, em entender as constantes transformações no setor nos últimos anos, que vêm modificando a própria forma de convivência com a música.


 


 


Em setembro do ano passado, o Brasil esteve presente de modo mais intenso na Popkomm, como país parceiro do evento. Todo ano, a feira homenageia um país, destacando sua música com mais produtores e artistas presentes. O Ministério da Cultura, com a presença do ministro Gilberto Gil, aproveitou a oportunidade para apresentar aos participantes da Popkomm o projeto da Feira Música Brasil, que aconteceu em fevereiro último em Recife, também sob o mote da exportação da música brasileira.


 


 


Este ano, curiosamente, a própria Alemanha é o país em destaque na Popkomm – fato compreensível ao se levar em conta a dificuldade em definir o que seria a música alemã contemporânea. Além da grande abertura do país a conhecer mais sobre outras culturas, entre as quais a brasileira, com destaque para a música.


 


 


Enquanto em 2006 a Popkomm abrigou 24 shows de artistas brasileiros, em parceria com o Ministério da Cultura e o Projeto Música do Brasil, das entidades Brasil Música e Artes (BM&A) e pela Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), este ano serão apenas quatro as atrações convidadas. Se no ano passado o Cidadão Instigado, na programação oficial, e a Banda de Jazz dos Meninos da Casa Grande, em shows paralelos, representaram o Ceará no evento, agora é a vez de a Dona Zefinha levar seu som à feira, como a única banda nordestina entre as quatro convidadas pelo Música do Brasil.


 


 


A apresentação da banda de Itapipoca acontece no próximo sábado, 20/9, no Palais, um dos oito espaços do Kulturbrauerei. Antes deles, descritos na programação oficial da Popkomm como uma banda de samba-rock, se apresenta a cantora Beatriz Azevedo. Depois dos cearenses, sobem ao palco o veterano guitarrista Lanny Gordin, as bandas Mahnimal e Stereo Maracanã. A feira oferece aos artistas participantes hospedagem e alimentação. A BM&A disponibilizou uma carta-convite com a qual a produção da Dona Zefinha caiu em campo para viabilizar o deslocamento do grupo até a Alemanha, com apoio do Ministério da Cultura, da Secretaria de Cultura do Governo do Estado, do Banco do Nordeste e do Sebrae-CE. E ainda dos produtores da Feira da Música cearense e da Associação dos Produtores de Discos do Estado do Ceará.


 


 


Na experiência anterior na Alemanha, a Dona Zefinha realizou três shows. Desta vez, a expectativa é também ir além da apresentação ´oficial´ na Popkomm. ´Vamos tocar também em casas de show lá, que estamos fechando. A banda fica na Alemanha do dia 18 ao 24, e eu fico lá mais um tempo, porque vou trabalhar no festival Samba Sindrom deste ano, de 27 a 30 de setembro, dando aula de música brasileira e danças tradicionais, um convite que havia recebido em 2005, e que agora deu certo atender´, detalha Orlângelo Leal. ´Vamos encarar o frio levando uma cachaça e dançando até dar uma dor´, brinca, falando sobre os preparativos para a viagem, que incluíram a produção de um material de divulgação em inglês para o CD ´Zefinha vai à Feira´, lançado em meados do ano passado. ´O objetivo é apresentar nosso trabalho pra todos os produtores que participam de uma feira como essa. Estamos levando também o material do Esquina Brasil´, diz o músico, citando o projeto que reúne faixas de artistas do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte.


 


 


Além de Orlângelo, que toca da rabeca ao banjo, a formação clássica da Dona Zefinha conta com Maninho (bateria), Vanildo Franco (percussão, pífanos e flauta), Joélia Braga (percussão, voz e figurino), Ângelo Márcio (percussão e sax) e Paulo Orlando (performance e percussão). O baixista Danilo Sampaio, hoje residindo em Salvador, será substituído por Nélio Costa, um dos grandes nomes da cena instrumental de Fortaleza, que também já acumula a experiência de ter morado na Alemanha e trazido ao Ceará músicos alemães como o guitarrista Werner Neumann.


 


 


As apresentações na Alemanha também terão outras diferenças em relação ao show que vinha sendo trabalhado pelo grupo mais recentemente. Se a Dona Zefinha já chama atenção no palco por trabalhar elementos cênicos, do mamulengo aos títeres nordestinos, dos folguedos aos ritmos regionais, a performance deverá ser ainda mais enfatizada pelo grupo.


 


 


´Estamos juntando elementos do novo show da gente, com outros do show passado. Como é uma apresentação internacional, estamos tirando mais a parte da literatura oral. Costumamos trabalhar muito com textos, poesia, que aqui é bacana, mas lá fora talvez não funcione tanto´, pondera Orlângelo, ansioso por retornar a espaços como a Rádio Multikulti, emissora alternativa de Berlim, onde o grupo foi entrevistado e cantou ao vivo em 2004. ´Lá tem um programa da DJ brasileira Grace Kelly, que toca num grupo de maracatu parceiro nosso, o Rainhas do Norte. Virou uma amizade e uma parceria muito legal´, diz Orlângelo.


 


 


Ele, que em 2002 e 2003 já havia se apresentado em Nova York e diz se virar bem com um inglês ´embromation´, festeja a ajuda que terá do alemão Andreas Weiser, integrante da banda Shank, nas oficinas a serem ministradas no Samba Sindrom. ´No fundo, no fundo, como é arte, a galera se entende. Gostei muito da diversidade de Berlim, que é uma cidade muito cosmopolita, além de ter um centro de música muito forte. O que mais achei bacana é que eles vão buscar outras culturas, são mais abertos a coisas novas, e admiram bastante a música brasileira. Nosso som se enquadra no perfil deles´, entende Orlângelo.


 


 


Ângelo Márcio, irmão de Orlângelo, concorda. ´Tá todo mundo muito ansioso por voltar a Berlim nesse evento, que é bem maior que o que a gente participou, em termos de quantidade de grupos, diversidade cultural. Em 2004 a banda foi muito bem vista, tanto pelos brasileiros que moram lá, quanto pelas pessoas que têm afinidade com a música brasileira. Agora estamos voltando mais experientes´, compara, reiterando: ´Vi em Berlim uma cidade muito bonita e muito bem cuidada, de arquitetura antiga. E os alemães têm uma receptividade muito grande com outras culturas´.


 


 


A participação brasileira na Popkomm 2006 foi marcada por um grande número de shows, mas também por reclamações de artistas quanto a atraso de cachês e diárias, além de dificuldades com transporte e hospedagem. Fruto, segundo os produtores, de atraso no repasse da verba de R$1,4 milhão do MinC. Pesares à parte, a iniciativa comprovou sua importância, com os shows atraindo um grande público e a divulgação da ´nova música brasileira´ em um CD encartado na revista Tip, de Berlim.


 


 


O show do Cidadão Instigado, por exemplo, começou com uma platéia pouco numerosa, mas terminou atraindo o público ao longo da apresentação e ganhando elogios. Agora, os rapazes da Dona Zefinha querem aproveitar a oportunidade. ´A banda está em um momento maduro, e é realmente o nosso início no mercado exterior. É uma feira de negócios, então a gente espera fechar com alguma gravadora ou selo, pra fazer um disco ou distribuição lá fora. É um passo grande e muito importante pra banda´, diz a produtora Thais Andrade. Sorte, então, à Dona Zefinha.


 


 


De Fortaleza, Dalwton Moura