Simpatia por Bolsonaro leva seu eleitor a se identificar com a direita

Para o pesquisador Jairo Pimentel, da FGV, opiniões do presidente influenciam como pensam seus eleitores, que nem sempre estão automaticamente alinhados às posições liberais e conservadoras

É a simpatia por Jair Bolsonaro que faz o eleitor se identificar com a direita – e não o contrário. As opiniões do presidente influenciam como pensam seus eleitores, diz o cientista político Jairo Pimentel, em entrevista à revista CartaCapital. Pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da FGV, Jairo é coautor de um estudo sobre a relação entre o governo bolsonarista e a polarização política.

Em junho, o grupo fez um experimento sobre a privatização da Petrobras. Dividiram os participantes em dois grupos: um soube que o ex-capitão apoia a venda da empresa; o outro, não. Entre aqueles que aprovam o governo e não souberam da opinião de Bolsonaro, 45% disseram “sim” à privatização. Na turma informada sobre o posicionamento do presidente, subiu para 57%. Os impactos desse fenômeno na atualidade na política brasileira dominaram a entrevista de Jairo. Confira:

CartaCapital: O que esse estudo revela sobre o atual momento da democracia brasileira?

Jairo Pimentel: Basicamente, um quadro de polarização afetivo-ideológica. Identificar-se como “de esquerda” ou “de direita” varia conforme a opinião do eleitor sobre lideranças políticas, sobretudo Bolsonaro. Mostra também que a posição de esquerda ou direita está mais correlacionado com o voto em candidatos desses espectros do que no passado, indicando que direita/esquerda voltou a ser uma variável importante. Entretanto, essa auto-declaração não é uma afinidade ideológica. Ele [eleitor] possui uma simpatia a essas figuras. Não é porque o eleitor se diz “de direita” que ele vota em um candidato de direita, mas, sim, porque, se gosta de um candidato que se diz de direita, ele assume para si essa referência política. Esse fenômeno é coordenado pelas lideranças políticas, o que leva a esse quadro de polarização. E o principal pivô de tudo isso é o fato de Bolsonaro se dizer “de direita” e, como liderança carismática, conseguir cativar seus eleitores a assumir também essa posição. O Estudo Eleitoral Brasileiro mais recente mostrou que 43% dos eleitores se declaravam de direita em 2018. Em 2014, eram apenas 27%.

CC: O antipetismo vai definir 2020 e 2022 como definiu a eleição passada?

JP: Não foi apenas o antipetismo. Vimos emergir também um movimento antiestablishment, e ambos foram amplificados pela Lava Jato. Os danos ao PT em face do impeachment de Dilma e os noticiário diuturno da Lava Jato em 2016 foram severos. Mas, depois do impeachment, o PSDB também acabou penalizado pelas investigações, sobretudo aquelas que envolviam a Aécio Neves. Em 2018, os eleitores puniram mais ao PSDB do que ao PT. E isso deslocou o antipetismo para o bolsonarismo. O antipetismo é um movimento de negação. O bolsonarismo é um passo adiante, um movimento de afirmação em torno de valores que se aglutinam em torno da figura do Bolsonaro. Obviamente, existem antipetistas que não são bolsonaristas, mas hoje o núcleo duro do antipetismo é o bolsonarismo. Mais do que o antipetismo, a polarização entre bolsonarismo e o petismo continuará sendo importante para definir as escolhas nas próximas eleições.

CC: A atmosfera de polarização deve arrefecer até lá?

JP: É difícil fazer previsões. Fatores externos – como a economia, denúncias de corrupção, etc. – podem afetar essa dinâmica e arrefecer os ânimos. Mas, olhando a dinâmica interna, não creio que haja essa tendência no curto prazo. Ao contrário, os discursos indicam uma tendência de aumento da polarização. Hoje, a lógica eleitoral, muito alimentada pelas bolhas nas redes sociais, cria uma lógica centrífuga de disputa, com pouca convergência para o centro.

CC: Há espaço para uma via moderada?

JP: Uma via moderada tem poucas chances em um cenário como esse, sobretudo se a disputa se fragmentar em várias candidaturas centristas. A fragmentação do centro favorece os extremos, que contam hoje parcelas significativas de adeptos mais fidelizados para levá-los ao segundo turno.

CC: Bolsonaro criou uma referência afetiva para a direita. Que “antídoto” a oposição poderia apresentar?

JP: O antídoto é mudar a agenda que pauta a discussão política. Em comunicação política, não se muda massivamente a forma como as pessoas pensam e falam, mas, sim, sobre o que elas pensam e falam. Bolsonaro se tornou referência para a direita porque conseguiu, em meio ao caos da política brasileira, emplacar uma agenda conservadora moral. Essa agenda favorece a direita, pois a maioria dos eleitores brasileiros são conservadores nos costumes. Essa agenda estabeleceu uma narrativa de batalha entre o que a direita chama de marxismo cultural e a religião cristã/evangélica. Uma batalha do mal, representado pela esquerda, contra o bem, representado pela direita. A esquerda caiu na armadilha de Bolsonaro ao tentar enfrentá-lo nesse campo. É uma batalha perdida. Exemplo disso foi a queda dos votos no PT entre os evangélicos na última eleição. Bolsonaro também ganhou relevância por seu discurso antiestablishment e anticorrupção – campos em que a oposição tem dificuldades de discurso, por conta dos desdobramentos do mensalão e da Lava Jato.

CC: Como conter então esse avanço da direita?

JP: O campo de maior destaque para a esquerda é o material: a melhora da economia e da vida dos mais pobres. Mesmo nessa agenda haverá dificuldades se, conforme se prevê, houver melhoras nos indicadores econômicos, sobretudo no desemprego. Há ainda a dificuldade de defender o governo Dilma no campo econômico, por conta da crise emergente em seu segundo mandato. Se denúncias de corrupção, notadamente as que envolvem Fabrício Queiroz, atingirem Bolsonaro, essa fragilidade para desconstruir a imagem do presidente é algo a ser posto na agenda da oposição.

CC: Porque, apesar da pouca popularidade para um presidente estreante, não há mobilização contra Bolsonaro nas ruas?

JP: Há equilíbrio entre os grupos contrários e favoráveis ao presidente, e isso já seria suficiente para explicar. Mas há também um outro fator: ele é mais bem quisto na classe média, entre os que ganham mais de 5 salários mínimos, do que entre quem ganha menos. Pesquisas sobre as manifestações desta década mostram que o perfil de quem foi para a rua foi mais predominantemente de classe média. Mesmo o #EleNão era mais elitizado quando comparado com ao perfil do brasileiro médio. Assim, fica evidente que manifestação é algo mais da classe média. Se ela está mais satisfeita com o governo Bolsonaro, não há razão para ir para rua contra o seu governo.

Com informações da CartaCapital

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