Demanda chinesa leva a recorde de exportações agropecuárias

Andréia Adami diz que a forte demanda chinesa levou ao crescimento de 6% da exportação no primeiro quadrimestre e que a produção deste ano apresentará recorde.

Apesar da pandemia, agronegócio tem vendas recordes para a China.

A restrição à circulação de pessoas e mercadorias, principal medida preventiva contra a covid-19, tem dificultado as atividades econômicas e as trocas comerciais. O setor agropecuário no Brasil, no entanto, tem apresentado um bom desempenho, como explica Andréia Adami, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada.  

O principal fator para esse desempenho é a produção. Segundo relatórios do Ministério da Agricultura, este ano apresentará um recorde de produção. “Apesar de alguns problemas pontuais com o clima, em geral, a perspectiva é de que se tenha uma boa safra de vários produtos para atender ao mercado doméstico e também à exportação. A produção de soja, por exemplo, será de mais de 120 milhões de toneladas”, completa Andréia.

Com o agravamento da pandemia na China, principal parceiro comercial do Brasil, entre janeiro e fevereiro, os volumes ficaram um pouco abaixo do normal, devido a problemas logísticos como descarga de produtos que ficou prejudicada. Porém, a partir de março, a situação teve uma melhora e, em abril, o volume foi maior que no mesmo período do ano passado. “Comparando com 2019”, aponta a professora, “houve um crescimento de 6% nas exportações do quadrimestre.”

As exportações para a Ásia representam quase metade de toda a produção brasileira. Os números do primeiro quadrimestre mostram que, em dólares, a China comprou do Brasil o triplo do importado pelos Estados Unidos e o dobro demandado pela União Europeia.

A participação do agro no total das exportações passou de 18,7% em 2019 para 22,9% em 2020. Diferentemente do quadro mundial, o Brasil manteve sua balança praticamente estável. Os aumentos envolveram soja, algodão, madeira, mel e especiarias. Os recordes históricos envolveram ainda carne bovina e suína. Por outro lado, tiveram queda: trigo, centeio e milho não moído, exceto milho doce, café não torrado, animais vivos, frutas e nozes.

Se com apenas a China se recuperando da pandemia, já foi possível essa balança recorde de exportações, com outros parceiros fortes começando a se recuperar, as perspectivas são excelentes para o agronegócio em 2020. Em maio, as exportações devem ser ainda melhores com a possibilidade de recomposição de estoques na China que é o parceiro preferencial do Brasil. Com a flexibilização da quarentena na Europa, outro parceiro forte do Brasil, devem voltar a comprar com mais normalidade, também recompondo seus estoques .

Ela ainda explica que, com a desvalorização do real, especialmente entre março e abril, os produtores que exportam e têm produto disponível tiveram um crescimento nas receitas, justamente porque recebem em dólar, que convertidos equivalem a muito mais reais. La fora, o preço em dólar cai, mas no Brasil, pela mesma variação cambial, os preços sobem um pouco. Assim, a rentabilidade do produtor aumenta, e deve ficar entre as mais altas dos últimos 31 anos, segundo o Ministério da Agricultura.

“O Brasil recebeu US$ 10 bi, outro valor recorde, pelas vendas externas, neste quadrimestre. O Brasil ganha em competitividade, conforme a moeda se desvaloriza e nossos produtos ficam mais baratos no exterior.”

O quadro positivo, no entanto, se restringe ao agronegócio: com a crise, há uma redução de consumo, de produção e, consequentemente, do PIB geral. “A indústria e a logística têm de estar funcionando, além do campo. Há um esforço, apesar da possibilidade de redução de funcionários, para que esses setores se mantenham em atividade também”, ressalta ela, referindo-se aos trabalhadores que ficam doentes, cada vez em número maior, reduzindo a atividade industrial.

Este cenário ficou evidente na indústria dos EUA, que teve os piores números de contágio e óbitos pela pandemia, assim como em frigoríficos no Sul e Centro-oeste do país, que reduziram atividade e até fecharam por alguns dias, devido à taxa de contágio entre funcionários. Os frigoríficos brasileiros estão entre os maiores do mundo, exportando carne para todo o planeta. “Apesar disso, não houve queda no abastecimento, e se a produção continuar e os portos se mantiverem funcionando, não vai faltar produto no campo para manter a demanda firme que se apresenta”, completou.

A pandemia afeta o consumo interno, na medida em que a população perde renda e perspectiva de emprego, reduzindo em 30% a capacidade de consumo das famílias. A professora falou da importância da indústria e da logística continuarem funcionando, assim como tem sido na agropecuária, para que os impactos da pandemia sejam menores na economia. Para isso, é preciso manter os trabalhadores saudáveis ou garantir o funcionamento, mesmo diante do agravamento da doença.

Com informações da Rádio USP

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