Parlamento sueco abre CPI pela responsabilidade do governo na pandemia

Governo da Suécia enfrenta protestos por não ter adotado medidas de isolamento e conquistar os piores índices de mortalidade do mundo, sem qualquer efeito econômico positivo.

As pessoas se sentam no parque Tantolunden, em Estocolmo, em 30 de maio de 2020, durante a pandemia de coronavírus

O governo do país europeu optou por não determinar medidas de isolamento horizontal, desafiando a recomendação seguida na maioria dos vizinhos. A opção pela quarentena vertical, visava manter apenas grupos de risco isolados, enquanto a maioria da população continua nas ruas. Acreditava-se que a estratégia poderia imunizar parte importante da população, enquanto os mais vulneráveis continuariam protegidos, a chamada imunização de rebanho. A estratégia ruiu vergonhosamente e, agora, pergunta-se quantas vidas custou a abordagem do governo.

O problema é que pouco se conhecia sobre o Sars-Cov2, o novo coronavirus, que tem sido muito mais agressivo e misterioso do que se imaginava.  A distinção clara entre grupos de risco não existe, com crianças e jovens morrendo da doença. Nem mesmo as máscaras, que se tornaram item básico pelo mundo todo, foram recomendadas apenas para quem tivesse que lidar com doentes ou grupos de risco (idosos). A imunidade de rebanho não foi alcançada com apenas 7,3% da população portando anticorpos da covid-19, quando são necessários 60%, além das dúvidas sobre a efetividade desses anticorpos, conforme se observa a reinfecção de pessoas já recuperadas.

No final e fevereiro, os suecos foram esquiar nos Alpes, tiveram contato com moradores do norte da Itália que estava mergulhado na pandemia, e voltaram sem qualquer preparo de quarentena ou testes para seu país. Casas de repouso para idosos foram brutalmente atingidas pela doença, assim como outras populações vulneráveis. Metade das mortes no país se deram dentro desses estabelecimentos.

Os resultados foram desastrosos, porque a Suécia enfrentou mais sobrecarga de hospitais e mais mortes prematuras que seus vizinhos. Por outro lado, a economia, que era a grande justificativa para a estratégia temerária, foi tão ou mais afetada que outros países europeus. Assim, o país que era observado com curiosidade por outros governos pela coragem da estratégia, logo foi abandonado como paradigma sanitário. Mesmo que a economia estivesse melhor, como medir o sucesso econômico, quando tanta gente querida morreu no processo? Olle Kampe, professor e consultor sênior de endocrinologia do Instituto Karolinska em Estocolmo, disse: “Estamos sacrificando idosos e pessoas com doenças. Não acredito que seja uma estratégia que alguém deva copiar”.

No final das contas, o país nórdico serviu para derrubar o argumento de governos contrários ao isolamento horizontal, ao mostrar que este não é o real motivo da depressão econômica, mas, sim, a epidemia. Com o avanço do medo de morrer que assolou toda a população, conforme ficavam doentes, percebiam a violência do vírus, e o alto e cruel número de mortes, mesmo com todo o comércio aberto, ninguém mais saía para restaurantes e salas de espetáculo, como também passaram a consumir menos diante das incertezas que passaram a cercar o futuro do país.

Com pouco mais de 10 milhões de habitantes, a Suécia tem 38.589 casos da doença, e 4.468 mortes por covid-19. Ela figura em 25o lugar no ranking de países com mais casos da doença, 18o. lugar dos países com mais mortes e 7o. em mortes por cada milhão de habitantes. Para efeito de comparação, a Holanda ficou em 10o. neste último item, a Dinamarca em 26o., a Finlândia em 37o. e a Noruega em 47o. Este último efeito da pandemia é o mais simbólico, por representar a proximidade da morte de cada cidadão. Até os EUA, com seu número absoluto imenso de vítimas da covid-19, está cinco casas abaixo da Suécia (12o.).

Enquanto a taxa de mortalidade por milhão de pessoas na Dinamarca, Finlândia, Noruega e Islândia é de 99,4, 57,8, 43,5 e 29,3, respectivamente. Na Suécia, era 435,9, na terça-feira, 2 de junho. Com todos esses números, os suecos se tornaram os brasileiros da Europa. Todas as fronteiras fechadas para eles, que não podem visitar suas casas de veraneio em países mais quentes, como Espanha, enquanto outros países já estão com fronteiras livres. Devido ao fluxo interno de férias em casas de campo, os alugueis aumentaram substancialmente com a pandemia.

O primeiro ministro Stefan Löfven

Por causa da pressão popular, o parlamento vai abrir uma CPI para apurar possível responsabilidade do governo nas mortes. Os partidos de oposição da Suécia pediram uma comissão independente para investigar a resposta do governo à crise da saúde. O primeiro-ministro Stefan Löfven disse anteriormente que a Suécia realizaria um inquérito após o surto, mas disse ao jornal Aftonbladet na segunda-feira (1) que uma comissão seria nomeada antes do verão. A Suécia está enfrentando críticas à medida que seu número de mortos sobe para um dos mais altos do mundo, significativamente mais alta que seus vizinhos nórdicos, que fecharam cedo e têm assistência médica, sistemas políticos e densidade populacional semelhantes.

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