Trabalhadores de aplicativo querem abalar as estruturas neoliberais

Os entregadores antifascistas se articularam em defesa de direitos trabalhistas.

Os entregadores de aplicativos organizaram uma paralisação nacional (Foto: Reprodução)

Os aplicativos de entrega são a principal fonte de renda de mais de 3,8 milhões de brasileiros. Quem anda pelas ruas das grandes cidades já se acostumou ao balé de bicicletas e motos no trânsito, o problema é que esses trabalhadores – normalmente muito jovens e da periferia – carregam na mochila uma rotina exaustiva de mais de 12 horas de trabalho, salários cada vez menores e nenhum vínculo empregatício com as multinacionais contratantes.

De uns tempos pra cá eles pararam de se destacar só na rua e começaram a aparecer também nas timelines de qualquer usuário atento às redes sociais. São os Entregadores Antifascistas, o Treta no Trampo, ou as inúmeras páginas que anunciam a greve dos entregadores no próximo dia 1 de julho.

Conversamos com um dos líderes dos Entregadores Antifascistas e quando perguntamos a origem dessa consciência de classe, Paulo Lima, o Galo, não titubeou na resposta: “o rap”. Quem cresceu na periferia sob o som de “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MCs, e agora encara a fase mais cruel do neoliberalismo, a uberização do trabalho, está pronto para cobrar uma dívida que são os ricos quem devem pagar.

Galo está longe de ser uma exceção. O IBGE estima que os entregadores cadastrados em aplicativos como Rappi, iFood e UberEats representam 17% dos 23,8 milhões de trabalhadores dessa categoria. E agora, durante a pandemia esse número cresce de forma acelerada. Na Grande São Paulo, só nesses meses de crise econômica impulsionada pela Covid-19, 280 mil novos trabalhadores se cadastraram nessas plataformas.

Esse fluxo intenso de capital improdutivo criou empresas gigantes que nada produzem, mas lucram milhões com o trabalho de autônomos. A reforma trabalhista, proposta e aprovada pelo governo de Michel Temer em 2017, acentuou a precarização do trabalho. Uma das principais alterações, vale lembrar, foi a permissão da terceirização em todos os níveis da atividade empresarial – em poucas palavras, permite tratar qualquer trabalhador assalariado como autônomo. As portas para a entrada triunfal dos aplicativos de delivery, que dizem ser responsáveis por possibilitar o complemento de renda, foram cordialmente abertas. Empresas como Rappi, IFood, Loggi, James e Uber Eats contratam trabalhadores sem a necessidade de garantir nenhum direito; tampouco necessitam se preocupar com a segurança do trabalhador.

Galo aponta, em seus vídeos, o oportunismo dos aplicativos de delivery. “Eles chegam em países de terceiro mundo, onde a taxa de desemprego é absurda e lançam seu serviço como uma oportunidade de renda extra sabendo que as pessoas precisam disso como renda principal”, diz.

Com o aumento da oferta de mão de obra, cai a remuneração. Se antes 48,7% dos entregadores recebiam – no máximo – R$520,00 semanais, agora esse número passou para 72,8%. Com salários baixos e sem direitos trabalhistas, eles lidam também o risco de se contaminar com o novo coronavírus que alastra pelas metrópoles como pólvora.

Uma vez que com a rápida – e grave – expansão da pandemia no Brasil, o governo Bolsonaro deu duas opções ao trabalhador: morrer de Covid ou morrer de fome. Nos meses de março e abril de 2020, o número de downloads de aplicativos para quem quer trabalhar como entregador cresceu 200%, segundo a empresa de marketing e aquisição para apps RankMyAPP; em abril, aplicativos de delivery foram instalados em mais de 22 milhões de celulares. Segundo o IBGE, o desemprego afetou todas as regiões do Brasil, chegando a chegando a 1,2 milhões de pessoas no primeiro trimestre de 2020.

Os entregadores antifascistas nascem nesse contexto com o objetivo principal de empoderar o trabalhador, explica Galo. O trabalhador que é obrigado a trabalhar 12 horas por dia, carregando comida com fome, fazendo propaganda do logo dos aplicativos pela cidade. São diversos os relatos de motoboys que sofreram acidentes e não receberam nenhum auxílio das empresas de delivery. Pagaram o conserto da moto do próprio bolso e, machucados, precisaram ficar em casa até se recuperarem; não receberam um centavo nesse período. A necessidade chama e por vezes voltam a fazer as entregas sem estarem totalmente recuperados.

“A gente não se alimenta, ou se alimenta mal, parando para comer um cachorro quente cheio de química, que não alimenta e deixa você tonto. Ai já viu né, tontura e motocicleta tem que chamar os cara da saúde para trocar uma ideia”, alerta Galo. Nessa conta, que sempre recai sobre o entregador, somam-se dívidas injustas: “Se você pedir um remédio, eu vou lá e compro o remédio na farmácia e você cancela, eu fico com uma dívida. Se o remédio for 300, eu fico com essa dívida, sendo que não fiz nem 50 reais no dia. A gente é um monte de homem-bomba andando por aí, por São Paulo, prestes a explodir”. Todo o estresse de indivíduos com medo de adoecer recai sobre o entregador, que precisa sair por todos e não carrega apenas comida com fome, mas o peso de uma sociedade doente já antes da pandemia. “A gente tá carregando a carga de estresse de São Paulo inteira nas costas; do Brasil e do mundo também”.

Diante deste cenário, os entregadores antifascistas se articularam em defesa de direitos trabalhistas. Eles pressionam o Legislativo pela aprovação de uma Lei que obrigue as empresas a pagarem – pelo menos – um vale-alimentação. Esse abaixo-assinado é uma forma de exigir das empresas de delivery a garantia de álcool em gel e refeição. “O álcool em gel é pra pandemia e a comida pro pandemônio”, fala Galo. “Antes da pandemia nós já vivíamos o pandemônio, a pandemia só intensificou o pandemônio”. Ele constata algo inegável: “todos são pelo fim da pandemia, mas nem todos querem o fim do pandemônio. Nem todos são contra a morte de Miguel ou de Ágatha. Nem todos são contra o assassinato de Marielle. Agora a gente tem que se unir só porque o vírus não é racista e classista e pega branco rico também? Tá bom, vamos se unir. Só que a gente já sofria antes, sofre e quando acabar vai continuar sofrendo”.

A consciência de classe se espalhou pelo Brasil e eles estão articulando uma manifestação em Brasília para quando o projeto for votado. Mas agora essa movimentação está em segundo plano porque a prioridade é apoiar a greve do dia 1 de julho.

A Greve

No dia 1º de Julho, os entregadores organizam uma paralisação nacional. Eles pedem por mais transparência sobre a forma de pagamento das plataformas, aumento dos valores mínimos para cada entrega (alguns relatam ganhar menos de três reais por corrida), garantia de segurança dos trabalhadores por parte das empresas (já que, caso sofram algum acidente, não recebem nenhum tipo de assistência) e pelo fim do sistema de pontuação utilizado pela empresa Rappi. Esse sistema define que para o entregador conseguir acesso a mais corridas em determinadas áreas com restaurantes, ele precisa atingir uma pontuação mínima por semana – quanto mais corridas ele fizer, mais pontos acumula para o período seguinte. O sistema obriga os motoboys a jornadas mais longas, principalmente aos finais de semana, já que, caso ele não alcance a pontuação, tem sua área de trabalho e número de pedidos restringidos pelo aplicativo durante a semana.

Galo explica que a greve surgiu de forma orgânica e sem uma coordenação. Assim, os entregadores antifascistas vão aderir à paralisação e se somam às reivindicações, mas não são a linha de frente, tampouco dirigem o movimento. Ele destaca, porém, o quanto o apoio de outros setores da sociedade serviu para impulsionar essa onda. “No Largo da Batata [em uma das manifestações em defesa da democracia realizadas nas últimas semanas] abriu uma espécie de Mar Vermelho pros entregadores passar e o pessoal bateu palma pros entregadores, tá ligado? Aquilo ali mano, nunca vou ter como agradecer às pessoas que fizeram aquilo ali. Elas não sabem como elas deram autoestima pro trabalhador ali. Os caras pegavam em mim e falavam: ‘Caramba, Galo, esse negócio de antifascismo funciona mesmo!’’ E eu não falei que funcionava, irmão?!””, comemora.

Galo não dispensa o apoio de ninguém, está aberto ao diálogo e quer ampliar a luta dos trabalhadores, mas garante: quem quiser colar junto tem que ouvir primeiro e falar depois. “O caminho é o Paulo Freire. O Paulo Freire quando ele foi criar o plano de alfabetização dele, ele não foi lá ensinar, ele foi primeiro ouvir as pessoas. Então você chega com a sua arrogância dentro da favela querendo ensinar as pessoas ninguém vai te ouvir não. O lance é ouvir primeiro””, aponta.

“Eu acho que o Paulo Freire ficou um dia inteiro lá batendo enxada, comendo marmita gelada, tomando água quente, batendo foice na cana e aí no final do dia ele só escreveu um “A” na terra e falou assim ‘aí rapaziada, sabe o que quê é isso aqui? É um ‘a’. Se vocês quiserem aprender a ler vem comigo que eu ensino”. Mas primeiro ele foi lá ouvir. Acho que o segredo está no Paulo Freire, morô?”

“Apenas um rapaz latino-americano apoiado por mais de 50 mil manos”

O entregador “se formou no rap”, assim como milhares de jovens brasileiros que adquiriram consciência de classe nos anos 90 com os discos dos Racionais, Sabotage, RZO. Mas as referências dele vão muito além da música. “Eu não sou comunista por que eu nunca li “O Capital”. E agora que eu não vou ler, que descobri que são três! Com todo respeito a “O Capital”, por que eu sei que deve ter umas coisas muito cabulosas lá”, brinca. Apesar de não ter lido o clássico do filósofo alemão, ele leu outras coisas, como Paulo Freire, Lenin e George Orwell. O cinema também é fonte de conhecimento e base para análise política. Seja em o Jocker, O Poço ou no Batman, Galo encontra por onde debater a luta de classes. “Eles [a classe média alta] acham que são o Batman, mas são só a capa do Batman. O dinheiro do Bruce Wayne não acaba, o dinheiro do rico acaba. Ele não é rico, ele é endividado”, escancara.

Dessa junção de referências de cultura e política, Galo forjou um discurso que aponta para a esquerda, para a luta coletiva e para necessidade de ampliar o diálogo entre os trabalhadores e a classe média a fim de barrar os retrocessos do sistema capitalista. “A uberização é uma coisa que vai avançar por toda a classe trabalhadora. Da mesma forma que a Revolução Industrial foi irresponsável, a uberização que é um desdobramento disso, também está vindo de forma irresponsável e vai pegar todo mundo: jornalista, professor, advogado, médico… O capitalismo é uma coisa que deu bem errado mesmo. […] E o Galo? O Galo não é um entregador, o Galo é classe trabalhadora e quer estar ombro a ombro com os companheiros metroviários, ombro a ombro com a enfermeira, as empregadas, com a classe trabalhadora, morô, meu?”.

Essa vontade de mudar o mundo é que norteia a articulação do entregador com seus companheiros de asfalto, mas ele alerta: para ser entregador antifascista, é necessário abdicar de querer ficar rico. Não é um voto de pobreza, os entregadores querem uma vida confortável; mas é saber que ser anticapitalista é um requisito. “A raiz é egoísta, o tronco é capitalista, os galhos são racistas e machistas e os frutos são esses Bolsonaros da vida. Eu não fico perdendo tempo batendo no fruto e no galho, pra mim é machado no tronco e depois a gente vê como dar um jeito pra arrancar a raiz”, analisa.

Ele e seus colegas sofrem mais agora, mas já sofriam antes e sabem que sem luta, irão continuar sofrendo mesmo quando a pandemia acabar. Sem união, ninguém olhará por eles. “Eu fico olhando o céu de São Paulo, e ele tá tão bonito. Eu acho que as pessoas tão no ritmo do céu. As pessoas tinham que olhar pro céu de São Paulo e perceber que esse é o céu que o capitalismo mata todo dia. Só que eu acho que quando o céu voltar a se acinzentar, as pessoas vão voltar a se acinzentar também”, pondera.

Sem pretensão de ingressar na política institucional, Galo também não se coloca como um líder acima dos demais, mas tem ambição de mudar o mundo através da luta política. Como canta o Mano Brown na música “Capítulo 4, versículo 3”, é “um rapaz latino-americano apoiado por mais de 50 mil manos”.

De entregador desconhecido a antifascista que estampa reportagens em dezenas de jornais, Galo não se deslumbra, tampouco perde de vista o ideal de um mundo mais justo que, para ele, teria “Paulo Freire e Mujica empinando pipa”. Por ora, ele defende que o caminho é seguir os passos do maior educador e brasileiro, mas “na verdade mesmo quero ser como o Mano Brown””, encerra sorrindo, antes de partir para a próxima entrega em Guarulhos.

A conversa foi registrada também em vídeo:

Publicada originalmente na Carta Maior

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