Guedes blefa ao dizer que privatizará em 2020, afirmam especialista

Em entrevista à CNN, ministro da Economia falou em “fazer três ou quatro privatizações” em até 90 dias.

O ministro da Economia, Paulo Guedes - Foto: Adriano Machado

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse em entrevista à CNN que o governo fará “três ou quatro grandes privatizações nos próximos 60 ou 90 dias”, ou seja, ainda com os efeitos da pandemia castigando a população. O ministro não adiantou quais seriam as estatais, mas mencionou que seria “um excelente ano” para as subsidiárias da Caixa fazerem uma “grande” oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), no valor de R$ 20 a R$ 50 bilhões.

Especialistas consideram que a intenção de Guedes privatizar empresas ainda este ano não é realista. Se fosse possível, ressaltam, o país sairia prejudicado, uma vez que a recessão econômica não é um bom momento para venda de ativos. Por fim, destacam a rentabilidade e a importância estratégica de algumas estatais, especialmente no momento atual de crise social e econômica.

“O Paulo Guedes está brigando com a realidade. O STF [Supremo Tribunal Federal] deu uma mãozinha para o governo ao decidir que só precisa de autorização do Congresso para vender as empresas-mães. Ou seja, pode vender as subsidiárias sem precisar de projeto de lei. Mas, além de precisar de apoio do Congresso dependendo da empresa, qualquer pessoa que conhece minimamente o sistema financeiro sabe que é o pior momento para vender. Se ele conseguir, será uma perda irreparável, com prejuízo para o próprio Tesouro [Nacional]”, afirma Paulo Kliass, doutor em Economia e membro da carreira em gestão governamental do governo federal.

Para Kliass, será difícil conseguir apoio do Congresso Nacional para esse tipo de medida em 2020. “É uma medida muito impopular, politicamente difícil e legalmente impossível se precisar de apoio dos parlamentares. Por mais conservador que seja o perfil desse Congresso, vão pensar duas vezes antes de aprovar”, acredita o economista.

Na avaliação de Paulo Kliass, Guedes está blefando na tentativa de demonstrar que sua agenda econômica, cara ao mercado financeiro e ao grande empresariado, continuaria intacta mesmo com a pandemia. “Para ele, o problema não é econômico-financeiro, quanto vai entrar no caixa do Tesouro. Ele está buscando atender a interesses, pois está todo mundo de olho gordo para comprar na bacia das almas empresas essenciais do ponto de vista financeiro e estratégico”, diz.

O presidente licenciado do Sindicato dos Bancários da Bahia, Augusto Vasconcelos, afirma que não faz sentido o governo se livrar de ações de subsidiárias da Caixa, exemplo citado por Guedes à CNN. “Não tem qualquer justificativa. São áreas rentáveis, com um grau de eficiência bom e cujo lucro retorna para o Tesouro Nacional em forma de dividendos. Só em setembro do ano passado, a Caixa repassou R$ 1,5 bilhão para o Tesouro. A Caixa cumpre uma missão social importante, especialmente nesse momento de pandemia, e quem financia a missão é a área rentável do banco”.

Ainda de acordo com Augusto Vasconcelos, nos últimos 19 anos a Caixa Econômica Federal repassou R$ 66,5 bilhões em dividendos ao Tesouro Nacional. “Esse enfraquecimento não se justifica. Sem contar que, por causa da crise, vão vender ativos por valores mais baratos que o valor real. Certamente, não vão encontrar compradores que paguem o que as empresas valem”, diz.

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