Ano letivo pode ser recuperado, vidas não!

Retomada das aulas deve ocorrer somente quando houver segurança sanitária comprovada

O sistema educacional ganhou visibilidade inédita durante a pandemia. As pessoas perceberam a importância da escola no cotidiano de milhões de crianças e jovens, seja porque veio à baila a pobreza em que vive boa parte dos estudantes brasileiros – sem moradia digna, sem internet, computador ou celular apropriado –, seja porque percebeu-se que uma parcela enorme dos alunos precisa da escola para se alimentar, sendo que para uma parte deles a merenda é a principal, e às vezes única, refeição do dia, seja também porque desnudou-se a dificuldade dos estabelecimentos, sobretudo os da rede pública, para oferecer ensino a distância, ou ainda porque constatou-se que os pais não podem substituir os educadores.

A pandemia pegou o planeta desprevenido e desestruturou a vida de bilhões de pessoas. Nenhum país, nenhum governo, estava preparado para essa tragédia. Evidentemente, nem as escolas, nem os professores, muito menos as famílias e os alunos, estavam preparados para alteração tão brusca na rotina educacional. Era mesmo praticamente impossível manter o ritmo de ensino, sem a estrutura tecnológica, as ferramentas pedagógicas e a vivência da sala de aula, com tudo que ela representa para o ensino-aprendizagem. Essa situação foi nova para todos e, como tal, trouxe novos desafios coletivos e individuais.

Some-se isso à crescente depauperação do Estado em todas as esferas – resultado do desmonte da máquina pública e de contínua redução orçamentária para os serviços essenciais –, e o país inevitavelmente teria dificuldade para lidar com a covid-19, na saúde, na educação e outros tantos setores.

A maioria dos docentes jamais havia tido experiência com ensino a distância. E a maioria não recebeu treinamento ou suporte para as aulas não presenciais. Sem orientações claras e sem o esteio da escola, os professores – inclusive da rede privada – desde o início improvisaram e se esforçaram o máximo para cumprir o básico da grade curricular prevista, à custa de muita angústia, sobrecarga e incerteza quanto à efetividade das aulas online nestes meses de isolamento social.

Eis que, com a flexibilização gradual do isolamento nas cidades, entra em pauta a discussão sobre a volta às aulas nas escolas. Da mesma maneira que boa parte da rede de ensino não estava organizada para migrar as aulas presenciais para as virtuais, ela não está preparada para retomar as aulas presenciais. E não por culpa do sistema educacional, cuja natureza é a convivência coletiva no mesmo ambiente físico e, por isso mesmo, suscetível a tornar-se polo de propagação do coronavírus. É que a epidemia ainda não está sob controle nem no Brasil nem em São Paulo, não existe vacina, e a população não está imunizada.

No domingo 19 de julho, o país registrava mais de 2 milhões de contaminados e quase 80 mil mortes. No estado de São Paulo, eram 415 mil infectados e quase 20 mil óbitos, sendo que, na capital, 181 mil infectados e quase 9 mil vidas perdidas. O número de mortes por dia gira em torno de mil, com variações para centenas. Diante desses números assombrosos, a volta às aulas significa riscos – fatais, inclusive – para alunos, famílias, professoras, professores e demais profissionais da educação. Significa acrescentar milhões de indivíduos em viagens diárias no transporte coletivo e em outras situações potencialmente propícias à transmissão do vírus.

É precoce programar o retorno às aulas para setembro sem a certeza da contenção da doença. É um plano irreal e irresponsável por parte do governo do Estado e da prefeitura paulistana. Como assegurar que bebês, crianças e adolescentes usem máscaras e álcool em gel? Como manter o distanciamento no ensino infantil, no qual os educadores precisam ter contato físico com as crianças e as próprias crianças instintivamente se tocam? Como garantir segurança para os educadores que, já não bastasse terem ficado estressados com o ensino remoto, agora serão expostos a uma situação sanitária precária? O que farão os pais dos 65% de alunos que não irão à escola no dia do rodízio de turmas previsto?

De que forma ocorrerá a compensação da aprendizagem para os alunos que não tiveram condições tecnológicas para as aulas à distância durante a quarentena? Aliás, como ter certeza de que a totalidade dos alunos que tiveram aulas remotas de fato aprenderam as matérias? Qual será a estrutura para oferecer apoio psicológico aos estudantes, às famílias e aos profissionais que eventualmente sofram impactos da crise na sua saúde mental? Essas questões basilares deveriam estar em debate com a comunidade escolar, antes de se definir cronograma de regresso à sala de aula. Debate sério, amplo, construtivo, que não está sendo propiciado pelas autoridades. Ao contrário, as decisões vêm de cima.

Entendemos que a data de retorno proposta deva ser revogada e queremos que a retomada das aulas ocorra somente quando houver segurança sanitária comprovada e que a decisão de retorno seja tomada democraticamente, com a participação de pais, estudantes, profissionais da educação e da saúde e cidadãs e cidadãos em cada localidade. O ano letivo se recupera quando o vírus for controlado. A perda de vidas é irremediável.

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Publicado originalmente no Viomundo

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