Exército fracassa e o fogo continua destruindo a Amazônia

O Observatório do Clima diz que o vice-presidente Hamilton Mourão montou um teatro militar para iludir investidores, mas não conseguiu enganar os satélites

Queimadas em Rio Branco, no Acre (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real/2020)

Com base nos dados de agosto do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre queimadas na Amazônia, o Observatório do Clima afirmou que as operações realizadas pelo Exército na região falharam. De acordo com a entidade, que reúne diversas organizações ambientais no país, o mês foi o segundo agosto com mais focos de calor dos últimos dez anos: 29.307.

O número é 5% abaixo dos 30.900 do mesmo período do ano passado, ambos acima da média histórica de 26 mil focos. “Mesmo essa queda precisa ser relativizada, já que uma pane no satélite de referência usado pelo Inpe, o Aqua, fez com que parte da Amazônia não fosse observada no dia 16, produzindo um número anormalmente baixo de detecções”, revelou o Observatório.

Os dados contradizem as declarações do vice-presidente Hamilton Mourão para quem a floresta não está queimando. Também fica evidente que a Operação Verde Brasil 2, comandada pelo Exército, e a moratória de 120 dias do fogo na região, não foram capazes de combater queimadas.

Segundo levantamento do site Amazônia Real, o Pará liderou no mês em número de focos de queimadas (10.865), seguido do Amazonas (8.030), Acre (3.578), Mato Grosso (3.336) e Rondônia (3.086).

“O teatro militar montado pelo general Hamilton Mourão na Amazônia para iludir os investidores não conseguiu enganar os satélites. Gastamos tempo e dinheiro do contribuinte, emitimos carbono, transformamos nossa credibilidade em fumaça e perdemos biodiversidade que não volta mais”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

E prosseguiu: “Tudo isso porque as pessoas que estão no poder se recusam a implementar políticas públicas de combate ao desmatamento e ao fogo que não apenas já existiam como deram certo no passado”.

Queimadas em floresta do Mato Grosso (Foto: Christian Braga/Greenpeace/2020)

Dados

O Observatório aponta que a área de alertas de desmatamento na Amazônia em 2020 foi 34% maior do que em 2019, mesmo com três meses de ação do Exército na região em substituição ao Ibama, que foi subordinado à tropa.

O dado oficial, a ser divulgado nos próximos meses, deverá indicar um desmatamento maior que 12 mil quilômetros quadrados – três vezes mais do que a meta da Política Nacional de Mudança do Clima para 2020. O Brasil deverá ser o único dos grandes emissores de gases de efeito estufa a aumentar suas emissões na pandemia, afastando-se também da meta do Acordo de Paris.

O coordenador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), o geólogo e ambientalista Carlos Souza Jr., diz que decreto de Garantia da Lei e da Ordem para o controle do desmatamento, que possibilitou a ação do Exército na região, não tem sido efetivo por que as ações não estão focadas nas áreas mais críticas.

“A hipótese principal é de que as ações de comando e controle da GLO não estão focadas em áreas críticas, ou seja, onde o problema está acontecendo”, apontou o ambientalista em entrevista à Sputnik Brasil.

Para ele, as queimadas são comuns também em outras regiões para limpeza de pastagens e restos de floresta desmatada. Mas aponta que o mais comum tem sido justamente o desmatamento.

Parlamento

O presidente da Comissão do Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Agostinho (PSB-SP), também comentou o assunto. “A floresta que é derrubada é sempre queimada no ano seguinte. Há sempre um ciclo e esse fogo acaba se alastrando para áreas vizinhas e ficam sem controle.

Rodrigo Agostinho, que coordena também a Frente Parlamentar Ambientalista, diz que o descontrole dos focos de queimadas prejudica ainda mais a imagem do país no exterior. “O mundo inteiro não aceita mais isso. O Brasil é o país que mais derruba floresta tropical no mundo. A gente derruba de três ou quatro vezes mais do que o segundo colocado que é o Congo. E nós derrubamos oito vezes mais do que o terceiro colocado que é a Indonésia”, lamentou.

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