Diplomacia da vacina: os impactos da solidariedade chinesa na pandemia

Capacidade anual da China para produzir vacinas contra a Covid-19 poderá alcançar 1 bilhão de doses

(Foto:

A pandemia de Covid-19 atingiu dramaticamente todos os continentes do Planeta. Mas o presidente da maior potência global, Donald Trump, às voltas com sua campanha pela reeleição à Casa Branca, não temeu esnobar e até atropelar nações amigas ao enfrentar a crise sanitária e seus desdobramentos. Não por acaso, em meio à luta pela imunização, a solidariedade da China fortaleceu seus laços diplomáticos, especialmente com países negligenciados pelos Estados Unidos.

Uma medida de Trump foi particularmente simbólica. Em 22 de julho passado, o presidente estadunidense anunciou um acordo de US$ 1,95 bilhão (cerca de R$ 10 bilhões) dos EUA com as farmacêuticas Pfizer e BioNTech. O objetivo: comprar 100 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 – o que equivalia a toda produção das duas empresas até o final do ano. Dois meses depois, Trump foi além e declarou que, até abril, todos os norte-americanos teriam acesso à vacina.

Enquanto isso, a China está prometendo acesso preferencial a suas ações anti-Covid-19 a países da Ásia, África e América Latina. Sob a liderança do Partido Comunista, os chineses tendem a ser fornecedores mundiais de vacinas. Seu ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, está liderando o esforço, ao garantir que Malásia, Tailândia, Laos e Camboja estão entre os países que receberão com “prioridade” as vacinas chinesas. Quatro produtos estão atualmente na fase 3 dos testes, o estágio final que visa garantir a segurança e a eficácia antes da aprovação para uso público.

Embora grupos farmacêuticos americanos, como a Johnson & Johnson e a Moderna, também tenham vacinas em estágio avançado de desenvolvimento, Trump não demonstra interesse em ajudar a distribuí-las no exterior. “Os EUA cederam terreno para a China em termos de acordos bilaterais em torno da vacina no Sudeste Asiático”, analisa Aaron Connelly, do centro de análise e pesquisa Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

Como parte do esforço da China de se contrapor ao governo Donald Trump e sua agenda “first America”, Wang disse durante viagem ao Sudeste Asiático, na semana passada, que Pequim está pronta para vacinar a região. O chanceler se reuniu com autoridades indonésias para reafirmar um acordo assinado em agosto entre a empresa chinesa Sinovac e a Bio Farma, farmacêutica estatal do país.

A Indonésia, com cerca de 350 mil casos, tem o maior número de infecções do Sudeste Asiático. Pelo acordo, a Sinovac vai fornecer ao menos 40 milhões de doses da vacina CoronaVac, que está na fase 3 dos testes clínicos, até março de 2021. O início da entrega está previsto para novembro.

“Isso poderá dar a Pequim uma alavancagem sobre a Indonésia, se o país ficar dependente demais das vacinas chinesas. Ou poderá deixar a Indonésia esperando por mais tempo caso as vacinas chinesas revelem uma baixa imunogenicidade [capacidade de provocar resposta imune]”, disse Connelly.

A China está convencida de que a “diplomacia da vacina” terá sucesso, diz Huang Yanzhong, do centro de pesquisa Conselho sobre Relações Exteriores. Segundo ele, uma ação anterior da China foi frustrada após países europeus terem recusado máscaras e outros equipamentos de proteção de fabricação chinesa por causa da baixa qualidade. Mas a China “tende a sair a vencedora, em última instância, em termos de aumento de influência durante a corrida mundial pela vacina”, disse Huang.

Na terça-feira (20), Zhao Xing, do Ministério das Relações Exteriores, disse que a meta chinesa é “colaborar” para acelerar a entrega a países em desenvolvimento. “É a China sendo uma potência responsável”, disse.

As promessas da China de acesso preferencial foram além da Ásia. Pequim prometeu ajudar a maioria dos países em desenvolvimento, inclusive todo o continente africano. Também ofereceu crédito de US$ 1 bilhão para países latino-americanos e caribenhos, para financiar compras governamentais.

No Brasil, o estado de São Paulo assinou um acordo que prevê recebimento e produção local de 46 milhões de doses da vacina da Sinovac, na fase 3 dos testes no país. Pequim, além disso, aderiu ao programa Covax, da Organização Mundial de Saúde (OMS), que tem como objetivo fornecer 2 bilhões de doses até o fim do ano que vem. O governo Trump se recusou a participar do programa.

A China não está sozinha como ofertante de vacinas ao mundo em desenvolvimento. A Indonésia também assegurou 100 milhões de doses de vacinas da farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, a serem entregues em 2021. Mas o forte apoio governamental e a falta de demanda premente no território da China – onde a disseminação do vírus foi quase totalmente contida – dá uma vantagem às fabricantes de vacinas chinesas.

Conquistar um lugar de destaque na corrida mundial pela vacina representará um grande trunfo para o modelo de desenvolvimento científico da China, cuidadosamente baseado na colaboração entre o setor público e a iniciativa privada. Pequim vê um “momento histórico” para “capitalizar seu know-how econômico e tecnológico contribuindo para um bem público”, afirma Karen Eggleston, da Universidade Stanford.

Autoridades chinesas estimam que a capacidade anual do país para produzir vacinas contra a Covid-19 poderá alcançar 1 bilhão de doses no ano que vem. Três das vacinas que estão na fase 3 de testes – duas desenvolvidas pela estatal Sinopharm e uma pela Sinovac – usam uma forma desativada do vírus para provocar uma reação imune. A quarta candidata, desenvolvida pela CanSino, sediada em Tianjin, juntamente com uma equipe de pesquisa da Academia de Ciências Médicas Militares, usa um vírus atenuado de resfriado comum como mensageiro.

A busca dos chineses por parceiros estrangeiros foi impulsionada, em parte, pela necessidade, uma vez que a falta de casos na China inviabilizou a realização dos testes da fase 3 no país. Para Jannifer Huang Bouey, do centro de estudos Rand Corporation, a China poderá enfrentar uma reação adversa se houver dúvidas sobre a qualidade de suas vacinas. “Trata-se de um risco que a China está disposta a correr em vista das enormes vantagens – não apenas um discurso mais favorável sobre liderança mundial em saúde como também para abrir novos mercados para a China.”

As empresas chinesas começaram a aumentar a produção e a distribuição de vacinas para centenas de milhares de pessoas, como parte de um programa de uso emergencial que possibilita sua utilização antes mesmo da conclusão da fase 3 dos testes. Isso deu às empresas chinesas uma vantagem competitiva na ocupação do mercado interno e no desenvolvimento da capacidade de produção.

Com informações do Valor Econômico

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *