Kamala Harris tem apoio de Angela Davis na vice-presidência dos EUA

Filha de imigrantes, a primeira mulher eleita vice-presidente, Kamala Harris, pode representar uma mudança na postura americana em relação aos movimentos de direitos humanos. Angela Davis, a primeira candidata mulher à Casa Branca, aprova Harris apesar de decisões contraditórias como procuradora

Foto: Sean Rayford / Getty Images

Kamala Harris é a primeira mulher eleita para governar o país na Casa Branca, ao lado de Joe Biden. A primeira a concorrer à vice-presidência foi a ativista e filósofa norte americana Angela Davis em 1980 e 1984, na chapa do Partido Comunista com Gus Hall. As afinidades entre as duas mulheres vão além da candidatura, o que inclui críticas contundentes à condução da pandemia, ao racismo e à política de imigração.

O ativismo de Davis tem origem na infância em que tomou consciência do de ataques de seguidores da Ku Klux Klan a moradores de seu bairro no Alabama. A militante norte-americana teve muitos papéis que lhe renderam admiração e também contestações. Ativista dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, ela foi considerada uma “terrorista” extremamente perigosa pelo FBI e virou, ao mesmo tempo, ícone mundial da resistência anti-imperialista.

Desde então, a militância de Davis ganhou espaço na literatura e na academia, mas sem perder a atuação nas ruas. Opositora do governo de Donald Trump, Davis promoveu e participou da Marcha das Mulheres que reuniu 3 milhões de pessoas um dia após a posse do candidato republicano ainda em 2016. Em um momento de polarização e violência racial, Angela Davis acredita que Kamala Harris representa uma mudança importante em relação aos últimos anos de conservadorismo e intolerância.

Kamila Harris está acostumada a quebrar barreiras. Filha de pai jamaicano e mãe indiana, Harris foi a primeira mulher com esse perfil a ser eleita para o Senado. Antes disso, havia sido a primeira mulher negra a se tornar Procuradora Geral do estado da Califórnia.

A advogada e política se define como progressista, assim como Davis. Entretanto, o trabalho de Harris como Procuradora Geral na Califórnia apresenta algumas inconsistências. Em momentos cruciais, nos quais a então procuradora deveria defender com mais veemência a posição progressista, ou Harris se opôs ou se calou diante de reformas importantes e condenações equivocadas.

Para a filósofa, porém, não se trata de apontar erros na carreira da advogada. “Não é dizer que Kamala não tem pontos problemáticos no seu histórico. E nós não podemos esquecer alguns problemas que estão associados a ela enquanto promotora. Mas eu penso que é uma abordagem feminista estar apta a trabalhar com essas contradições, apta a habitar nelas”, disse Davis em agosto para a emissora Al Jazeera.

A própria Angela Davis, como expoente da luta por direitos sociais nos anos 60 e 70, compreende a importância de atos simbólicos. Presa em 1971 após ser associada equivocadamente à compra de armas utilizadas por jovens em um levante durante um julgamento, a autora provocou um movimento cultural em torno da conscientização e engajamento político.

Kamala Harris, no único debate com o candidato republicano à vice-presidência, Mike Pence, protagonizou um momento marcante. Quando interrompida por seu adversário político, Harris levantou a mão e silenciou Pence: “Senhor vice-presidente, eu estou falando. Eu estou falando”. Horas depois, várias camisetas estampadas com a fala da vice-presidente eleita estavam à venda na internet.

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