Quantas vezes a violência fez parte da rotina do Carrefour?

Apesar das notas oficiais lamentando o ocorrido, o supermercado é conhecido pelo descaso e permanência de violência na prática de seus funcionários. Uma rápida procura no Google mostra uma lista chocante de casos a cada ano

Manifestação de vereadores negros em frente ao Carrefour de Porto Alegre (Foto: Divulgação)

Apesar da nota que “lamenta profundamente” e considera “inexplicável” a violência, esta também não é a primeira vez que o Grupo Carrefour protagoniza uma história de agressão ou descaso sistemático em suas unidades. A cada episódio, o supermercado emite uma nota semelhante repudiando a violência contra clientes e reafirmando seus práticas empresariais de treinamento em direitos humanos.

Racismo contra Januário Alves de Santana

Em 2009, seguranças da rede de hipermercados agrediram o vigia e técnico em eletrônica Januário Alves de Santana, de 39 anos, no estacionamento de uma unidade em Osasco. Ele teria sido confundido com um ladrão e foi acusado de roubar o próprio carro, um EcoSport. 

Após o caso, manifestantes protestaram no estacionamento da unidade, onde estenderam uma faixa de 30 metros com a frase: “Onde estão os negros?”. Carros também exibiram protetores de para-brisa com a frase “Carrefour racista”. 

Racismo contra Luís Carlos Gomes

Em outubro de 2018, funcionários da empresa, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, agrediram Luís Carlos Gomes, porque ele abriu uma lata de cerveja dentro da loja. Surpreendido pelos trabalhadores, o cliente reiterou que pagaria pelo item.

Mesmo assim, ele foi perseguido pelo gerente da unidade e por um segurança e depois encurralado em um banheiro, onde recebeu um mata-leão.

Gomes, que é deficiente físico, teve múltiplas fraturas e, como sequela de uma cirurgia, ficou com uma perna mais curta que a outra. Ele acusou o supermercado de racismo e discriminação e entrou com processo para indenização.

Na época, o Carrefour disse, em nota, que “a rede repudia veementemente qualquer tipo de violência e reforça que, constantemente, realiza treinamentos e reorienta suas equipes, a partir da prática do respeito que exige dos seus colaboradores e prestadores de serviço”. 

Descaso com Moisés Santos

Um promotor de vendas do Carrefour morreu enquanto trabalhava em uma unidade do grupo, em Recife, no dia 14 de agosto deste ano. O corpo de Moisés Santos, de 53 anos, foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas, para que a loja seguisse em funcionamento e permaneceu no local entre 8h e 12h, até ser retirado pelo Instituto Médico Legal (IML).

Em nota, o Carrefour afirma que pediu desculpas “em relação à forma inadequada que tratou o triste e inesperado falecimento do Sr. Moisés Santos, vítima de um ataque cardíaco, na loja de Recife (PE)”

“A empresa errou ao não fechar a loja imediatamente após o ocorrido à espera do serviço funerário, bem como não encontrou a forma correta de proteger o corpo do Sr. Moisés. Reforçamos que, assim que o promotor de vendas começou a passar mal, fizemos os primeiros socorros e acionamos o SAMU, seguindo todos os protocolos para realizar o socorro rapidamente. Após o falecimento, seguimos a orientação de não retirar o corpo do local”, diz o texto.

Esta, entretanto, não é a primeira vez que um caso como esses ocorre dentro do Carrefour e choca a população. 

Demissão como retaliação

Em dezembro de 2017, trabalhadores do Carrefour que reivindicaram benefício de remuneração por trabalho em feriados foram demitidos da empresa, com a justificativa de corte de gastos. Os funcionários, no entanto, garantiram que os nomes que receberam a demissão estavam envolvidos em movimentos grevistas. 

“Na verdade a empresa nunca teve cortes às vésperas do Natal e Ano Novo. Em 12 anos de casa, nunca vi isso acontecer. Como sempre bati minhas metas, portanto, gerava lucros, fica explícito o motivo de retaliação a fim de desestabilizar o movimento, sim”, contou um ex-funcionário ao The Intercept, na época. 

Os funcionários que trabalharam durante os feriados de novembro de 2017 receberam apenas R$30 por dia trabalhado, menos da metade do que recebiam antes. Um empregado que recebe R$1.290 por mês, ou R$43 por dia, deveria receber R$86 por feriado, já que a diária era dobrada nesses dias.

Cachorro envenenado e espancado

Em dezembro de 2018, um cão que estava no estacionamento de uma das lojas da empresa, em Osasco, morreu após ser envenenado e espancado por um funcionário. A rede de hipermercados também não socorreu o animal. O cachorro foi resgatado com vida todo ensanguentado por uma pessoa que estava perto e socorreu. Ele foi levado para uma clínica veterinária particular, mas morreu em atendimento.

Meses depois, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) estipulou que o Carrefour deveria pagar R$ 1 milhão em razão dos maus-tratos cometidos pelo funcionário.

Controle de idas ao banheiro

Em maio de 2019, a Justiça do Trabalho de São Paulo concedeu liminar pedida pelo Sindicato dos Comerciários de Osasco e Região contra o Carrefour, que estaria controlando a ida dos empregados ao banheiro. 

A juíza Ivana Meller Santana, da 5ª Vara do Trabalho de Osasco, identificou condições consideradas degradantes para os empregados.

De acordo com o Sindicato dos Comerciários, operadores de atendimento e de telemarketing são obrigados a utilizar “filas eletrônicas” para o uso do banheiro.

Além disso, devem manifestar necessidade do uso, registrando o nome no sistema eletrônico de fila e avisar ao supervisor em caso de urgência.

“Este tempo de espera pode acarretar prejuízos à saúde do trabalhador. Isto sem relatar o constrangimento de precisar explicar ao monitor/supervisor as suas necessidades fisiológicas, eventuais problemas intestinais ou estomacais, os relativos ao ciclo feminino”, disse a juíza na decisão.

Homofobia e racismo, juntos

Em julho de  2013, Robson Chateumbriant, acompanhado do namorado, foi seguido e abordado por um segurança de unidade do Carrefour do Morumbi, na zona sul da capital paulista, que acabou agredindo-o e fugindo. “Vaza que aqui não é lugar de viado ficar circulando”, teria dito o segurança.

Clientes ficaram indignados e socorreram o rapaz ensanguentado, que diz ter processado o supermercado.

Em nota, o Carrefour informou que entrou em contato com a vítima para pedir desculpas pela situação. “A companhia não compactua com qualquer desvio de conduta, seja de funcionários ou prestadores de serviços, e atua imediatamente para corrigi-lo”, diz a empresa, que afirma ter uma “rigorosa política de diversidade” e de “respeito incondicional as pessoas em quaisquer circunstâncias”. “A rede reitera que realiza treinamentos constantes não só para os seus 40 mil funcionários, mas para os colaboradores dos seus fornecedores. E exige ainda que todos sigam estritamente essa diretriz”, conclui o texto, que garante o “compromisso da rede” com o respeito à diversidade.

Bicha surda

O Carrefour foi condenado em abril de 2018 a indenizar um cliente de Belo Horizonte por danos morais. De acordo com a denúncia, o homem, após ficar cerca de uma hora na fila para pagar a compra, foi informado pela caixa que ela não o atenderia por causa da forma de pagamento e que ele deveria ir para outra fila que passasse cartão; houve confusão, e o cliente foi ofendido de várias formas e chamado de “bicha, cego e surdo” por duas atendentes.

Segundo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), o processo foi julgado em segunda instancia. Os magistrados mantiveram a indenização de R$ 30 mil para a vítima estipulada.

O Carrefour informou que “segue acompanhando atentamente o caso”. A empresa afirmou ainda “que repudia veemente qualquer tipo de discriminação e que tem como um dos seus principais pilares a valorização da diversidade junto a colaboradores, parceiros e a sociedade”.

Outros supermercados

Outro fato semelhante ao desta véspera de dia da Consciência Negra,aconteceu no supermercado Extra, do Grupo Pão de Açúcar, em fevereiro de 2019. Pedro Gonzaga, um jovem negro de 19 anos, foi imobilizado e morto por um segurança de uma unidade do Rio de Janeiro. Na época, imagens mostravam o segurança deitado sobre o jovem, que estava aparentemente desacordado. As investigações apontaram que a vítima não portava armas e não oferecia risco algum.

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2 comentários para "Quantas vezes a violência fez parte da rotina do Carrefour?"

  1. Dsrcy Brasil disse:

    Eu jamais voltarei a fazer compras no Carrefour. Não vou propor boicote, porque infelizmente, a adesão é sempre pequena. Mas, como indivíduo, me enoja essa multinacional francesa, e a boicotarei. Estou cansado de impunidade. Sou um humanista, mas não me comovem as penas desproporcionais, elaboradas pela Madre Teresa de Calcutá. As penas, a punição de crimes hediondos como esse, têm que ser justas, mas duras, contra os assassinos e contra a empresa que os contrata. Combater a ideologia racista, misógina e homofóbica com educação massiva, continuada, sistemática, com métodos pedagógicos e processos sociológicos científicos. Mas também combater a violência inspirada pelo racismo, pela misoginia e pela homofobia de forma exemplar, do tamanho da expectativa do senso comum (nem sempre devemos contrariar a expectativa do senso comum, se isso representar perder apoio político para
    uma batalha, como a que travamos contra o racismo).

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