Dimas Covas e a vacina brasileira cassada por Bolsonaro

Dimas Covas, do Instituto Butantan, mostrou o estágio avançado de segurança da Coronavac e a disputa pelos estados brasileiros que não dispõem de recursos para comprá-la.

Governador de São Paulo muda rótulo da Coronavac para neutralizar preconceito estimulado por Bolsonaro contra vacina chinesa.

Nesta segunda (14), alguns dos maiores especialistas da USP se reuniram para discutir os vários aspectos envolvendo a imunização da população brasileira contra o coronavírus, durante o evento Vacinas e Covid- 19: Uma visão multidisciplinar. O encontro tratou sobre a vacina que poderá inaugurar um capítulo menos trágico dela – são mais de 180 mil mortos pela doença até agora no País.

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, fez um resumo do atual status da CoronaVac, vacina que é objeto de acordo do Instituto Butantan com a empresa Sinovac, lembrando que a produção já foi iniciada no último dia 8. A vacina, até agora, está sendo bancada pelo Butantan, com a possibilidade de ser incorporada pelo governo de São Paulo no programa de vacinação a partir de 25 de janeiro. A maior parte do total de doses será produzida no próprio Butantan, com a previsão de totalizar 101 milhões de doses até maio de 2021.

Até o momento, o Ministério da Saúde não se decidiu por um financiamento para esta vacina, lamentou o dirigente, ao relatar que a negociação está parada desde setembro. “Estávamos muito próximos de assinar contrato, inclusive com anúncio feito pelo próprio ministro da Saúde, fala que teve sua cassação pelas redes sociais do presidente.”

Do ponto de vista dos ensaios, uma notícia boa é a finalização do estudo de fase 3 com mais de 12 mil participantes incluídos, e ultrapassando o número mínimo de casos de infecção para análise primária: seriam 154, e já há mais de 170. “Estamos aguardando a análise final, que deve sair na próxima semana, para poder fechar este estudo, e com isso solicitar o registro do produto. Ou seja, não vamos fazer o pedido de uso emergencial porque já vai ser pedido o registro do produto.”

“Temos mais de 20 mil vacinações feitas no Brasil e mais de 100 mil na China, demonstrando um excelente perfil de segurança, com incidência de poucos efeitos adversos, a maioria sendo efeitos leves, além de um perfil de imunogenicidade adequado, comparado, e às vezes superior, ao de várias das vacinas que estão sendo testadas e até já autorizadas.”

Dimas informou ainda que já tiveram início na China os estudos em crianças, sendo que os testes em idosos já foram concluídos. A fábrica da Sinovac já é certificada pela autoridade chinesa e, na semana passada, a Anvisa terminou inspeção e deve apresentar o relatório que é necessário para o pedido de registro. “E, friso, não e o uso emergencial que vamos discutir com a Anvisa na próxima semana”.

No melhor cenário, disse ele, em janeiro teremos essa vacina disponível em São Paulo, sendo que outros 14 Estados já demonstraram interesse em incorporá-la a programas locais de vacinação, além de mais de mil municípios. O que não é ideal, segundo Dimas Covas – o melhor é que ela fosse incorporada pelo Programa Nacional de Imunização, o que pode não ser possível dada essa dificuldade de cunho político-ideológico. “Tudo isso cria essa grande instabilidade, e também uma pressão grande dos Estados, que querem a vacina mas não têm dinheiro para financiamento”, lamenta o professor.

Ele anunciou ainda que o registro também será pedido simultaneamente na China, o que pode criar uma pressão na Anvisa, já que o produto estará reconhecido por uma grande agência. “Não temos nem nunca tivemos problema do ponto de vista técnico com a Anvisa. Esse ruído que apareceu recentemente não é habitual. Mas essa estratégia talvez seja agora a melhor disponível.”

O evento foi organizado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, pelo Instituto de Estudos Avançados e pela Superintendência de Comunicação Social. 

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