Lula critica guerra contra o Irã e gastos militares em meio à fome
Em premiação de pescadoras, presidente analisa impactos geopolíticos do conflito, defende Ministério da Pesca e critica gastos militares em meio à fome global
Publicado 19/03/2026 09:55 | Editado 19/03/2026 11:20
Em discurso na cerimônia de entrega do prêmio Mulheres das Águas, nesta quarta-feira (18), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teceu análises sobre política interna, geopolítica e economia global. Ao parabenizar mulheres pescadoras e marisqueiras, Lula conectou a valorização da pesca artesanal a uma visão estratégica de desenvolvimento nacional e denunciou os efeitos perversos do conflito no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis no Brasil.
Guerra no Irã e inflação de combustíveis: quem paga a conta?
No plano geopolítico, Lula analisou os efeitos do conflito entre EUA, Israel e Irã sobre a economia global. “Um barril de petróleo saiu de 65 para 120 dólares. Aqui no Brasil, nós tomamos uma decisão de zerar PIS e COFINS e de fazer outra subvenção para não deixar o preço do combustível chegar [ao consumidor]”.
O presidente explicou a dinâmica do mercado: após o Irã cercar o Estreito de Ormuz — por onde passam 20% do petróleo mundial —, os EUA liberaram a venda de petróleo russo, antes bloqueado. “Quem vai ganhar com o petróleo vai ser a Rússia, que está vendendo até para os Estados Unidos. E nós aqui, que não temos nada a ver com isso, que estamos a 14 mil quilômetros do Irã, por que nós temos que pagar o preço do combustível?”.
Gastos militares versus fome global: uma escolha política
Lula dirigiu críticas contundentes aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — EUA, Rússia, China, França e Reino Unido: “São os cinco países que produzem mais armas, são os cinco países que têm armas nucleares, têm bomba atômica, são os que têm maior poder bélico, que deveriam estar velando pela paz. Eles decidiram que são donos do mundo e resolveram atacar o que eles quiserem”.
Para o presidente, essa dinâmica transfere os custos da guerra para os mais vulneráveis: “Toda desgraça causada pelos ricos rebenta nas costas das pessoas que não têm nada a ver com isso. Pessoas que nascem pobres, querem trabalhar, querem viver, querem cuidar da sua família e que muitas vezes não conseguem”.
Ao finalizar, Lula contrastou gastos bélicos com necessidades humanitárias: “Você sabe quanto de armas se gastou o ano passado? 2 trilhões e 700 bilhões de dólares de armas, de guerras. E ao mesmo tempo nós temos 730 milhões de pessoas passando fome, que esse dinheiro das armas daria para resolver o problema da fome no mundo”.
Pesca como vetor de soberania e desenvolvimento
Lula retomou a defesa da criação do Ministério da Pesca, restabelecido em 2023, como instrumento de política pública para explorar o potencial brasileiro: “O Brasil tem 12% da água doce do mundo. O Brasil tem 8 mil quilômetros de costa fronteira. Portanto, ninguém no mundo tem tantas possibilidades de criar peixe”.
Para o presidente, a pesca artesanal precisa transcender a lógica de subsistência: “Não apenas a pesca da sobrevivência ou a agricultura da sobrevivência. A gente tem que dar um sentido além da sobrevivência, mas econômico para melhorar a vida das pessoas”. A proposta inclui estímulo à aquicultura em tanques-rede, com uso de espécies híbridas que não ameaçam a biodiversidade, e integração com a agricultura familiar.
Salário-defeso: garantia de direito, combate a fraudes
Em meio a rumores sobre possível extinção do benefício, Lula foi enfático: “Jamais a gente acabará com o auxílio-defeso. É uma necessidade da sobrevivência de uma categoria de homens e mulheres muito importante neste país”. Contudo, alertou para a necessidade de combater fraudes: “Quando aquele que não merece quer receber, ele está prejudicando o recebimento daquele que merece”.
Pacto contra feminicídio e regulamentação do ECA Digital
O presidente assumiu responsabilidade pessoal no combate à violência contra mulheres, anunciando pacto com Supremo, Senado e Câmara. “Quem é violento são os homens, não são as mulheres. Quem comete um crime são os homens, não são as mulheres”, afirmou.
Lula também celebrou a regulamentação do ECA Digital, que impõe às plataformas digitais responsabilidade sobre conteúdos que afetem mulheres, crianças e adolescentes. “Isso só foi possível porque a sociedade civil assumiu a responsabilidade de ensinar o governo como fazer”, destacou, criticando vídeos que ensinam violência contra mulheres ou como cometer crimes sem deixar vestígios.
Algoritmos e desconexão social: crítica à era digital
Em reflexão sobre impactos das tecnologias, Lula alertou para a erosão da convivência familiar: “O mundo está sendo tomado pelos algoritmos. Como os algoritmos são de meia dúzia de empresas, nós estamos vendo eles ficarem muito ricos e a sociedade ficar mais nervosa, menos solidária, menos humanista”.
Para ele, a hiperconectividade paradoxalmente desconecta: “Muitas vezes você encontra duas pessoas andando junto, cada uma no seu celular. (…) A família se esvaiu, a família desapareceu”.
A mensagem final foi de solidariedade às trabalhadoras: “Feliz de pessoas que, mesmo ganhando pouco, que mesmo trabalhando de sol a sol, (…) são pessoas honestas, trabalhadoras, que estão pedindo para nós, governantes, por favor, me deixem viver. Não atrapalhe nem a mim, nem a minha família”.
O discurso de Lula na premiação das Mulheres das Águas revela uma visão integrada de política interna e externa: valorização de saberes tradicionais, defesa de direitos sociais, crítica à concentração de poder global e denúncia dos mecanismos que transferem os custos da guerra para os pobres. Para o presidente, soberania alimentar, justiça social e paz internacional são faces da mesma moeda.