França reconhece Palestina e Macron diz que “tempo para a paz é agora”
Em discurso na ONU, Macron anunciou o reconhecimento do Estado palestino, criticou anexações de Israel e prometeu missão internacional em Gaza após cessar-fogo
Publicado 23/09/2025 07:02 | Editado 23/09/2025 12:23
O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou nesta segunda-feira (22), em Nova York, que a França reconhece oficialmente o Estado da Palestina.
O gesto, feito durante conferência organizada pela França e pela Arábia Saudita às vésperas da abertura da Assembleia-Geral da ONU, foi recebido com aplausos e uma ovação de pé da delegação palestina.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também participou do encontro e defendeu a decisão. Disse que o gesto “ajuda a restabelecer a esperança” e reforçou que o Brasil continuará apoiando o direito dos palestinos à autodeterminação.
O movimento francês marca uma ruptura aberta com Washington e aumenta o isolamento diplomático de Israel em meio à guerra em Gaza.
“Declaro que hoje a França reconhece o Estado da Palestina, pela paz entre o povo israelense e o povo palestino”, afirmou Macron, diante de centenas de delegados reunidos no plenário da ONU.
Em tom enfático, disse que a urgência da decisão decorre do colapso humanitário em Gaza e da escalada de tensões na Cisjordânia.
“O tempo para a paz é agora, porque em breve será tarde demais para agarrar essa oportunidade”, acrescentou.
O líder francês tentou enquadrar a medida não como um gesto hostil a Israel, mas como um passo necessário para manter viva a perspectiva de uma solução negociada.
“O pior pode estar à frente, seja o sacrifício de muitos mais civis, a expulsão da população de Gaza em direção ao Egito, a anexação da Cisjordânia ou a morte dos reféns detidos pelo Hamas”, disse.
Macron respondeu às críticas de Tel Aviv e Washington, que acusam o reconhecimento de fortalecer o Hamas.
“O Hamas está enfraquecido e precisa ser derrotado politicamente”, disse.
Explicou ainda que o processo de reconhecimento será gradual. A França só abrirá uma embaixada na Palestina após a libertação dos reféns em Gaza e a implementação de um cessar-fogo.
Também prometeu que o país está disposto a contribuir para uma missão internacional de estabilização no enclave palestino, caso haja acordo de trégua.
A fala de Macron se somou a um coro de apelos pela solução de dois Estados. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a decisão é “um direito, não uma recompensa”, e advertiu que “negar a condição de Estado seria um presente para extremistas em todos os lugares”.
O chanceler saudita Faisal bin Farhan, que substituiu o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman no evento, classificou como “crimes brutais” as ações de Israel em Gaza e defendeu que outros países sigam o exemplo francês.

A delegação palestina, impedida de estar fisicamente em Nova York após os EUA negarem visto ao presidente Mahmoud Abbas, celebrou por vídeo.
“Nosso futuro e o de vocês depende da paz. Chega de guerra”, disse Abbas. Ele reiterou que a Autoridade Palestina deve governar a Cisjordânia e Gaza, sem espaço para o Hamas.
O evento simbolizou o isolamento de Israel e dos EUA, cujas mesas permaneceram vazias durante as sessões.

Ainda assim, a ausência física não impediu o tom hostil. O embaixador israelense Danny Danon chamou a conferência de “circo” e prometeu retaliações.
Netanyahu, em comunicado, repetiu que “um Estado palestino não será estabelecido a oeste do rio Jordão”.
Já a Casa Branca afirmou que a medida “não faz nada para libertar os reféns, não encerra o conflito e, francamente, é uma recompensa ao Hamas”.
A ofensiva diplomática de Macron buscou recrutar aliados de peso. No domingo (21), Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal reconheceram a Palestina, abrindo caminho para Bélgica, Dinamarca, Luxemburgo, Malta, San Marino, Mônaco e até mesmo Japão.
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A Assembleia-Geral aprovou nesta segunda-feira, com 142 votos favoráveis, a chamada Declaração de Nova York, que estabelece “passos tangíveis, com prazo definido e irreversíveis” rumo à criação de um Estado palestino.
Com a entrada da França, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos ficam isolados entre os cinco permanentes na oposição ao reconhecimento da Palestina.
O gesto francês aumenta a pressão para que a União Europeia adote medidas mais duras contra a política de assentamentos de Israel.
Juristas internacionais lembram que países que formalizam relações plenas com a Palestina poderão ser obrigados a revisar aspectos de seu comércio com Israel, sob risco de descumprir obrigações legais com Ramallah.
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