Tiroteio perto da Casa Branca expõe escalada de violência nos EUA
Emboscada que feriu dois soldados ocorre em meio à militarização de Washington, ao uso político da imigração e a um ciclo crescente de violência na gestão Trump
Publicado 27/11/2025 18:09
O ataque que deixou dois soldados da Guarda Nacional gravemente feridos a poucos quarteirões da Casa Branca, nesta quarta-feira (26), foi tratado pelo governo dos Estados Unidos como um episódio isolado.
Mas, para autoridades locais, militares destacados e analistas, o tiroteio integra um ciclo crescente de violência, polarização e desgaste institucional que marca a gestão do presidente Donald Trump e aprofunda tensões que já vinham escalando desde a tentativa de assassinato contra o presidente em julho.
O suspeito, o afegão Rahmanullah Lakanwal, de 29 anos, entrou no país em 2021 pela Operation Allies Welcome — programa criado para receber afegãos que colaboraram com os EUA após a retirada de Cabul.
Segundo autoridades americanas e documentos obtidos pela imprensa local, ele serviu por dez anos no Exército do Afeganistão, atuou ao lado de forças especiais dos EUA e integrou uma força de segurança parceira da CIA na capital afegã.
O governo Trump informou que o pedido de asilo de Lakanwal foi aprovado em abril deste ano.
A polícia de Washington afirma que os dois soldados foram emboscados às 14h15, na região da Farragut Square, área comercial movimentada. O suspeito “dobrou a esquina, levantou o braço e atirou contra os membros da Guarda Nacional”, disse Jeffrey Carroll, chefe adjunto da polícia local.
Outros militares reagiram, atingiram o homem com quatro disparos e o detiveram ainda na cena do ataque.
Militarização contestada e risco anunciado
A presença das tropas na capital faz parte da estratégia de Trump de ampliar o uso da Guarda Nacional para combater o crime em cidades administradas por democratas. Desde agosto, cerca de 2.200 soldados de oito estados patrulham áreas consideradas sensíveis em Washington pelo governo Trump, número que deve subir para 2.700 após a nova ordem presidencial emitida na noite de quarta.
Documentos internos apresentados em processos judiciais mostram que a própria Guarda havia alertado para os riscos da operação.
Em memorando distribuído em agosto, comandantes afirmaram que os militares estavam em um “ambiente de ameaça elevada” e poderiam ser vistos como “alvo de oportunidade” por grupos extremistas, criminosos ou indivíduos motivados por questões políticas.
“Eu sabia que isso aconteceria”, disse à imprensa um soldado da Guarda da Califórnia destacado em Los Angeles, sob condição de anonimato. Segundo ele, havia preocupação entre os militares de que a missão aumentasse a chance de “tiros disparados contra civis ou civis atirando contra nós”.
A prefeita de Washington, Muriel Bowser, que travou uma disputa jurídica com o governo federal sobre a legalidade da operação, classificou o episódio como “tiroteio direcionado”.
Na semana passada, a juíza federal Jia Cobb considerou que o uso da Guarda para funções policiais violava limites legais e a autonomia local, mas suspendeu sua própria decisão até dezembro para permitir recurso do Departamento de Justiça.
Escalada de violência e normalização do excepcional
O ataque ocorre em um momento de intensificação das tensões políticas nos Estados Unidos. Desde a tentativa de assassinato contra Trump, em julho de 2024, episódios de violência política se tornaram mais frequentes.
Washington registrou 62 homicídios entre maio e novembro deste ano — número menor que o de 2024, mas acompanhado por um ambiente de instabilidade crescente e maior circulação de tropas armadas nas ruas.
Para ex-comandantes da Guarda, a estratégia atual aumenta o risco tanto para os soldados quanto para civis.
“É provavelmente um dos lugares mais seguros do planeta, então ver dois guardas baleados — ou gravemente feridos — tão perto da Casa Branca é realmente surpreendente”, disse o general Paul G. Smith, ex-adjunto da Guarda de Massachusetts.
“Sempre há perigo quando se coloca militares em missões de segurança pública”, disse.
Governo Trump transforma o ataque em plataforma contra a imigração
Em vídeo publicado na noite de quarta (26), a partir de Palm Beach (Flórida), Trump classificou o atentado como “um ato de terror” e “um crime contra toda a nação”. O presidente se referiu ao suspeito como “animal” e afirmou que o ataque demonstra “a maior ameaça de segurança nacional enfrentada pelos Estados Unidos”.
Trump disse que todos os afegãos que entraram no país durante o governo Joe Biden “serão reexaminados”.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) — órgão responsável pelo controle migratório e pela segurança interna — e o Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS), agência que processa pedidos de visto e asilo, anunciaram horas depois do ataque a suspensão imediata e por tempo indeterminado de todos os processos de imigração relacionados a cidadãos afegãos — inclusive os que trabalharam para o governo americano durante os 20 anos de ocupação no Afeganistão.
Segundo a organização AfghanEvac, cerca de 200 mil afegãos foram reassentados nos EUA desde 2021, e outros 265 mil aguardam em países como Paquistão, Catar e Macedônia do Norte.
“Essas pessoas não merecem isso — elas só estão tentando conquistar sua chance no sonho americano”, disse Shawn VanDiver, presidente da entidade. Ele alertou que a medida “causará muito dano” à comunidade afegã no país.
Debate institucional se agrava após o ataque
O episódio deve reacender o debate sobre os limites constitucionais para o emprego da Guarda Nacional. Trump enviou tropas federais para cidades como Los Angeles, Chicago e Portland, gerando contestações judiciais e acusações de abuso de poder.
Para adversários democratas, o presidente usa a estrutura militar como instrumento político e “cria pretextos para demonstrações de força” em regiões controladas pela oposição. Já governadores republicanos afirmam que as ações aumentaram a segurança e apoiam a estratégia.
Com a Casa Branca temporariamente isolada, voos suspensos no aeroporto Reagan e dois soldados em estado crítico, a quarta-feira evidenciou que a violência política deixou de ser exceção no país.
Para parte dos militares destacados em Washington, o episódio confirma um temor antigo: o risco se tornou rotina.
No cenário político atual, afirmam especialistas, episódios como o de quarta tendem a se repetir — não como desvios, mas como sinais de um país em estado de tensão permanente.