Trinta anos sem Caio Fernando Abreu, eterno e urgente
Três décadas após sua morte, o escritor gaúcho segue lido, estudado e celebrado por novas gerações — nas vitrines, nos vestibulares e nas vozes que ainda aprendem a amar com ele
Publicado 25/02/2026 16:09 | Editado 26/02/2026 19:14
Na Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, em Porto Alegre, 13 livros repousam atrás do vidro. Não é apenas uma homenagem protocolar: é quase um gesto de resistência. Trinta anos depois de 25 de fevereiro de 1996, Caio Fernando Abreu volta a ocupar uma vitrine em sua cidade como quem ocupa um palco.
Entre as lombadas expostas estão Morangos Mofados, Onde Andará Dulce Veiga?, O Ovo Apunhalado e Os Dragões Não Conhecem o Paraíso. Livros que atravessaram censura, epidemias, silêncios e modismos literários — e continuam respirando.
A vitrine fica até 6 de março. Mas Caio não cabe em vidro.
O escritor que sangrava
“Escrever é enfiar um dedo na garganta.” A frase, dita em carta a um amigo, não era metáfora vazia. Era método. “Alimente -se fartamente, depois vomite”.
Formado — ou quase — em Letras e Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, perseguido pela ditadura e vigiado pelos “bons costumes” do Dops, Caio transitou entre Porto Alegre, São Paulo, Rio e a Europa com uma mochila de exílio voluntário e involuntário. Viveu na Casa do Sol, ao lado de Hilda Hilst, e levou para a literatura brasileira uma prosa que misturava rock, misticismo, melancolia e urgência política.
Nos anos 1980, quando a palavra aids ainda era sussurro e estigma, ele já escrevia sobre o medo, o corpo, a exclusão. Em 1994, revelou publicamente ser soropositivo nas crônicas do Estado de S. Paulo. Morreu dois anos depois, aos 47. Não viu o avanço dos antirretrovirais. Mas viu, antes de muitos, a solidão que a epidemia deixaria.
A geração que não passou
Caio foi chamado de “antena da geração”. E foi. Mas talvez tenha sido também antena das gerações seguintes.
Hoje, seus contos estão na lista do vestibular da Universidade Estadual de Campinas. Jovens que nasceram depois de sua morte leem Aqueles Dois, Terça-Feira Gorda e Pêra, Uva ou Maçã? como se tivessem sido escritos ontem.
Porque foram.
A solidão urbana, o amor em ruínas, o medo de não pertencer, a descoberta do desejo, o corpo como território político — tudo isso permanece. A contracultura virou algoritmo, mas o desamparo continua analógico.
Caio entendia que amar era risco. E que viver era uma forma de febre.
Literatura como refúgio e confronto
Três vezes vencedor do Prêmio Jabuti, cronista, dramaturgo, romancista, Caio foi mais do que um “autor gay” ou um “escritor da aids”. Foi um artista que transformou vulnerabilidade em linguagem.
Seu estilo — fragmentado, musical, atravessado por referências de Clarice Lispector a Angela Ro Ro — antecipou a escrita confessional que hoje domina redes sociais, mas com densidade estética rara. Ele escrevia como quem desmonta a própria casa para entender os escombros.
E talvez por isso seja tão compartilhado na internet: frases destacadas, trechos sublinhados, cartas reencontradas. Mas há algo além da citação fácil. Há uma ética da entrega.
O poema reencontrado
Em 2023, um poema inédito apareceu entre papéis guardados numa casa da Serra gaúcha. Sem título, falava de silêncio, verde e uma felicidade que pousa leve no telhado.
“No meio do silêncio e do verde A presença de Deus fica mais clara. Essa luz ilumina os porões da mente, desfaz o mofo, espanta os fantasmas. Com cuidado, chamo a isso de ‘felicidade’ Ela pousa, muito leve, no telhado dessa casa.”
Caio sempre desconfiou da felicidade, mas a reconhecia quando ela vinha em forma de luz breve. Talvez seja isso que sua obra oferece hoje: não uma resposta, mas uma lanterna.
Trinta anos depois, a casa onde viveu no bairro Menino Deus foi demolida. A vitrine é temporária. As gerações mudam.
Mas os morangos continuam — às vezes mofados, às vezes luminosos — lembrando que a literatura pode ser abrigo e ferida ao mesmo tempo.
E que há escritores que não morrem. Apenas atravessam.