O 1º de Maio de amanhã começa hoje

Proposta de reduzir jornada expõe necessidade de um novo projeto nacional, com reindustrialização, inovação e valorização do trabalho para romper com a estagnação econômica.

Foto: arquivo

O 1º de Maio de 2026 chega marcado por uma reivindicação clara e justa da classe trabalhadora brasileira: o fim da escala 6×1. Reduzir a jornada de trabalho é uma medida civilizatória, que dialoga com a necessidade de garantir mais tempo para a vida, para a família, para o estudo e para o lazer. É uma oportunidade histórica, como alertei em outro artigo desta coluna, de redefinir o caminho econômico do país. Se quisermos, de fato, melhorar a vida do povo brasileiro, precisamos ir além: aumentar salários, qualificar os empregos e construir uma economia que valorize o trabalho. E isso não se faz da noite para o dia. Exige decisão política e um projeto de país que comece agora.

Apesar dos avanços conquistados nos períodos de governos progressistas (Getúlio, JK, Lula e Dilma, o Brasil ainda está preso a uma lógica econômica que limita seu potencial. Seguimos operando dentro do neoliberalismo, modelo que nos mantém no “meio da tabela” do desenvolvimento global: nem entre os mais pobres, mas longe de figurar entre as nações mais dinâmicas, justas e desenvolvidas. Essa mediocridade não é fruto do acaso, é resultado de escolhas.

Nas últimas décadas, assistimos a países que estavam atrás do Brasil nos ultrapassarem com velocidade. Nações asiáticas como China, Coreia do Sul e Vietnã apostaram em projetos nacionais de desenvolvimento, com forte presença do Estado, planejamento estratégico e investimento pesado em ciência, tecnologia e indústria. Enquanto isso, o Brasil abriu mão de instrumentos fundamentais de coordenação econômica, desarticulou cadeias produtivas e viu sua indústria encolher antes mesmo de atingir um nível elevado de renda.

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O resultado é conhecido: geramos, em grande medida, empregos de baixo e médio valor agregado, com baixa produtividade e salários limitados. Ao mesmo tempo, convivemos com um paradoxo perverso, já que milhões de brasileiros qualificados não encontram oportunidades compatíveis com sua formação. Não falta talento ao Brasil. Falta um projeto que transforme esse talento em desenvolvimento.

A experiência internacional é clara: países que enriquecem são aqueles que dominam setores inovadores e tecnologicamente avançados. São esses setores que puxam o crescimento, elevam a produtividade e irradiam prosperidade para toda a economia. Quando um país investe em indústria de alta complexidade, ciência e inovação, não apenas engenheiros e técnicos se beneficiam, toda a sociedade cresce junto.

Então, como dar esse salto? Como construir um Brasil que ofereça empregos bem remunerados, perspectivas de futuro e crescimento sustentado? O caminho passa por um novo projeto nacional de desenvolvimento. Um projeto que tenha o Estado como indutor estratégico, capaz de planejar, investir e coordenar esforços com o setor privado. Precisamos de uma reindustrialização baseada em tecnologia, conectada à chamada Indústria 4.0, que gere empregos qualificados e aumente a competitividade do país.

É fundamental ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, integrando universidades, centros de pesquisa e empresas. Também é urgente alinhar a formação educacional às necessidades de uma economia mais complexa, criando oportunidades reais para nossos jovens.

Ao mesmo tempo, devemos fortalecer instrumentos de financiamento de longo prazo, como os bancos públicos, e reduzir a criminosa taxa de juros, garantindo crédito acessível para setores estratégicos. Uma reforma tributária progressiva pode aliviar a carga sobre o consumo e a produção, ao mesmo tempo em que promove justiça fiscal. E a valorização do trabalho precisa ser central, com salários dignos, direitos garantidos e inclusão dos trabalhadores nas novas formas de ocupação, como as plataformas digitais.

Não se trata de escolher entre crescimento econômico e justiça social, mas de compreender que um depende do outro. Países que prosperam são aqueles que combinam inovação, produtividade e inclusão.

O mundo do trabalho está mudando rapidamente, impulsionado pela revolução tecnológica, pela inteligência artificial e por uma lógica de desregulamentação que, ao longo dos anos, vem retirando direitos elementares e fragilizando a seguridade social da população. Essa transformação pode representar uma oportunidade, mas também pode aprofundar ainda mais as desigualdades, se não houver direção política clara. O Brasil precisa decidir se será espectador ou protagonista desse novo ciclo histórico.

É por isso que a universalização dos direitos sociais precisa estar no centro de qualquer projeto de desenvolvimento. Isso passa pelo fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), pela expansão de uma educação pública de qualidade e pela construção de uma política de segurança pública cidadã. Trata-se de afirmar o papel do Estado como provedor universal de serviços essenciais, garantindo dignidade à população e combatendo a lógica de mercantilização de direitos básicos.

O 1º de Maio que queremos celebrar daqui a 15 ou 20 anos, com mais qualidade de vida, empregos dignos e uma economia forte, começa a ser construído agora. A luta pela redução da jornada é parte desse caminho, mas o desafio é maior: construir um país que vá além da mediocridade econômica e coloque o trabalho, a dignidade e o desenvolvimento no centro do seu projeto nacional.

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