Adoráveis Mulheres: Do jeito delas

“Filme da cineasta estadunidense Greta Gerwig mostra a capacidade da mulher em conquistar seu próprio espaço com engajamento e paixão”

Há um olhar diferente sobre a mulher neste “Adoráveis Mulheres”. Não é apenas por ter atrás das câmeras a cineasta estadunidense Greta Gerwig (04/08/1983). O modo como conduz sua narrativa mescla leveza e veracidade para dar ao espectador a ideia do que era a situação da mulher nos Estados Unidos em meio à Guerra da Secessão (12/04/1861-09/04/1865). Toda a história, baseada no clássico “Mulherzinhas (1868)”, da escritora da Pensilvânia (EUA), Louisa May Alcott (29/11/1842-06/03/1888), é centrada na família March, arruinada pelo conflito bélico.

Como roteirista e diretora, Gerwig trata com raro equilíbrio os temas abordados por Alcott. Os rastros de miséria, racismo, famílias divididas e, sobretudo, o que sofriam as mulheres para levar adiante suas vidas. Principalmente da srª March (Laura Dern) com quatro filhas, Josephine “Jo” (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Bett (Eliza Scanlen). Só contavam consigo mesmas, pois o pai March (Bob Odenkirk) e o filho mais velho tinham se alistado no exército do Norte. E mesmo assim as notícias sobre eles eram raras e muitas vezes demoradas.

A exemplo de Alcott, Gerwig contextualiza as consequências da guerra para abolir a escravidão nos estados confederados do sul do país. A começar pelos esforços de mulheres como a srª March para sustentar a família. É onde entra sua filha mais velha Jo, professora e escritora, que se esforça para a penúria delas não ser pior. É a jovem a atrair as atenções do espectador para o tema principal deste “Adoráveis Mulheres”: o papel da mulher na segunda metade do século XIX no sul dos EUA. E, ao contrário do esperado, ela não é submissa ou dada a paixões que limitem suas ideias e a escolha de seus namorados.

É o jeito que ganho dinheiro”

Um tipo de mulher avançada para a época, pois pretendentes não lhe faltavam. Ela, contudo, entregava-se mais à escritura de novelas e contos, que a irmã Amy tentava publicar na editora do esperto Daswood (Tracy Letts). “É o jeito que ganho dinheiro para dar à minha mãe”, justificava ela. Gerwig a constrói como disposta a fugir às investidas do professor e pianista Friedrich Bhaer (Louis Garrel) e do persistente Laurie (Timothéee Chalamet), neto do milionário Lawrence (Chris Cooper). Sua tendência era sempre adiar a decisão, mas na verdade preferia manter sua liberdade.

De comportamento igualmente livre, sua irmã Amy entregava-se mais às artes plásticas em Paris. Seu objetivo era tornar-se famosa e à altura dos grandes pintores franceses do século XIX. Entre eles Jean Baptiste Camille Corot (16/07/1796-22/02/1875). Ela se movia em seu espaço com o pincel e, às vezes, Laurie lhe fazia companhia. Como a irmã, ela detestava falar em casamento, afirmava tratar-se de questão econômica. E completava dizendo que tudo que ganhasse poderia vir a pertencer aos filhos e, porque não, ao agora viúvo. E Laurie concordava.

Há porém outra ideia não menos estratosférica neste “Adoráveis Mulheres”. É a riqueza advinda da herança da qual Tia Marmee March (Meryl Streep), irmã do Sr. March, pai de Jo, Bett, Meg e Amy, desfrutava em Paris. Conservadora, ela era contra a abolição da escravatura nos EUA. E execrava o engajamento do irmão e o apoio de suas filhas ao Norte abolicionista. Além disso, indicava o casamento como solução para a sobrinha Jo. E a outra alternativa era tornar-se rica igual a ela. Só isso lhe permitiria desfrutar a vida em seus próprios termos sem empobrecer.

Voluntários ajudam a diminuir a penúria

Com estas construções dramáticas e reflexivas, Gerwig leva o espectador a entender o clima imperante na metade do século XIX no sul dos EUA. Ditado pela Guerra da Secessão, ela incluía os voluntários a ficar diante do balcão das improvisadas barracas. Seu engajamento era distribuir sacolas com alimentos, roupas e remédios necessários àqueles vitimados pela destruição das plantações, de suas casas e das próprias cidades e vilarejos. Muitos deles eram brancos ou mesmo escravos libertos ou fugidos. O problema era conseguir quem doasse o que precisavam.

Este era o engajamento da Srª March junto com outras mulheres e homens brancos e escravas fugidas para manterem-se na luta contra o sul escravagista. Num desses momentos, ela se diz estar chocada com tudo aquilo que estava ocorrendo na guerra para abolir a escravidão. A afrodescendente, no entanto, lhe pede para não ficar pois tratava-se daquilo mesmo. Ou seja, era daquela forma que os escravocratas tratavam seus escravos. E Marmee então se põe a entregar as sacolas cheias do que o desalojado branco necessitava. Ainda não era hora para reflexão.

Gerwig, a exemplo de Alcott, explicita a urgência de abolir a escravatura no sul do país, inclusive nas ruas, nas escolas e nas fazendas. A próprias filhas de da Mãe March enfrentam o racismo na sala de aula. É chocante a sequência da agressão sofrida por Amy, ainda adolescente, num dos vários flashbacks utilizados para ampliar o choque do espectador. Jo intercede com seus amigos e execram o professor Davis que atacou a menina pelo simples fato de seu pai lutar pela abolição da escravatura. A questão é que o racismo se entranhara na sociedade estadunidense e não mais saiu, inclusive do Brasil, como se vê neste início do Terceiro Milênio.

Faltou afros na festa de debutante de Meg

Não é de estranhar que Gerwig use este drama de época, cujo cenário é a cidade de Concorde, no estado de Massachusetts, para registrar os locais frequentados por sua juventude na metade do século XIX. Muitos matizam os ritos de passagem de Meg em sua noite de debutante num chique salão onde suas amigas se valem da liberdade para fazer suas próprias escolhas. E ela se vê assediada por Laurie, não de forma direta, mas afrontando-a, a ponto de levá-la à exasperação. Não bastava tentar com Amy e Jo, ela por ser mais nova, passou pela mesma abordagem.

É a sequência em que Gerwig mostra o quanto boa diretora está se tornando cada vez mais. Sua câmera parte da cena de multidão para a individual de Meg com Laurie e volta à geral. Moças e rapazes brancos com suas roupas de gala, muitos pela primeira vez, pois vivem sua noite de debutante no universo adulto, onde tudo supostamente pode fluir. A narrativa torna-se assim caleidoscópica, pois, sem se afastar do tema central, a diretora expõe o universo da juventude classe média e dos ricaços dos meados do século XIX. E sem nenhum afro-estadunidense.

O meio usado por Gerwig e seu editor, Nick Houy, é, sem perda do fluxo narrativo, passar do presente ao passado e vice-versa, mantendo ligação e dando sentido às sequências e cenas. Assim é possível ir da sequência da mesa de Natal arrumada por Jo, Meg, Bett e Amy para a da amiga de Mãe March e seu costume de dividir com os necessitados o que dispõe para aquela simbólica noite. Vê-se, afinal, que ela não pensa só em suas filhas, mas também no filho e no companheiro que põem a vida em risco no campo de batalha. Isto depois de cuidar dos desalojados pela Guerra da Secessão.

Laura Dern justifica Oscar 2020 de atriz coadjuvante

É uma personagem e tanto não só pela atriz Laura Dern (Oscar de Melhor Coadjuvante por “Adoráveis Mulheres”), mas pela complexidade da personagem. Sua interpretação na longa sequência em que conversa com a filha Jo é cheia de nuances, paciência e equilíbrio. Tudo para evitar que ela se vingue da irmã Amy que acabou de lhe ofender. Sua voz modula-se à medida que assume o controle da situação e passa a dialogar com a filha. Nestas cenas de interiores só existe a mãe e a mulher cujo filho e o companheiro não dão sinais de que estão prestes a retornar ao seu meio.

Não menos simbólica para o expectador captar a ligação feita na sequência seguinte é entender o quanto Jo foi dissuadida a não atacar Amy. É inverno, a camada de gelo está grossa, mas em dados espaços pode quebrar facilmente. Há suspense e os personagens agem mais com a mente do que sofrem os efeitos da bílis. A própria Jo entenderá e não irá se vingar de quem a fez ser dominada por seu próprio rancor. Bastou o equilíbrio e a experiência da mãe para ela agir como ser reflexivo e não reativo.

Muitas das sequências de “Adoráveis Mulheres” foram filmadas em cenários que realçam a arquitetura da época da escravidão. Vê-se prédios, palacetes e mansões, ruas e avenidas idênticos aos da época da escravatura. E no campo têm-se a mesma impressão, realçada pela neve branquíssima e as frondosas árvores. É a concepção do diretor de arte, Jess Gonchor (15/07/1962). O mesmo ocorre com os costumes usados pelos atores e atrizes nas sequências em que estão nos cenários da narrativa. O espectador se sente envolvido pelas cores azuis escuras, branca, verde e amarelo, resultado da concepção cromática realçada pelas luzes e lentes usadas pelo diretor de fotografia, Yorick Le Saux.

Pobreza não se deve só à guerra

São matizações estruturadas por Gewig, a partir de seu roteiro com várias sub-tramas: I – A mulher liberada nos meados do século XIX; II – A riqueza como forma de a mulher se sentir independente (veja o caso de Marmee March); III – As consequências da escravidão; IV –A presença do escravagismo na arquitetura dos estados sulistas; V – O triunfo da mulher liberada. Não se percebe a transição de um para o outro, a dupla Gerwig/Nick Houy prefere usar os flashbacks para retomar o que não foi concluído nas sequências e cenas que deixaram o espectador ansioso.

De modo indireto o tema central deste Adoráveis Mulheres” é centrado, como sempre se dá neste tipo de histórica imagética, nas desestruturações sócio-econõmicas provocadas pelas guerras. Com os Marchs não bastaram perdas familiares, elas se estenderam à desmontagem da segurança financeira. A pobreza, como afirmou Marmee March, não se deveu apenas à guerra. É resultado da falta de experiência em cuidar das próprias finanças. Gerwig, ainda assim, deixa o espectador retomar esta reflexão para entender a perda de status da família March e a ânsia de suas filhas encontrarem o par correto.

Há de certo modo outro embate não menos importante para a noção afirmativa da liberação da mulher dos séculos XX E XXI. Com seu jeito às vezes agressivo, Jo chega a desancar Fred quando ele põe seu talento sob suspeição. E assim, deixa-o antever o quanto pode ser dominadora. O mesmo ocorre nas cenas de negociação para editar seu novo livro. Tornara-se mais uma mulher de negócio do que escritora. Quer, e com razão, ter o controle de suas obras para não ser mera criadora de produto cultural a ser oferecido à editora que obterá altos lucros com ele.

Jo não é movida pelo interesse financeiro

O mesmo se dá na bela e afirmativa cena em que Jo e Fred, finalmente deixam de brincar de esconde-esconde. Ela lança sobre ele toda sua verve e capacidade de mostrar-se por inteiro em curtas frases. Inexiste nela medo, sequer temor de ver-se numa enrascada ao propor o que ele nem de longe esperava. É a vontade e a paixão que a impele a fazê-lo, não o interesse financeiro. Bela cena com dois grandes atores ao atuar num estreito espaço, usando apenas a voz, os olhos e expressões minimalistas. Há paixão, amor, emoção e entrega nesta ótima sequência.

Adoráveis Mulheres. (LittleWomen). Drama. EUA.2020.135 minutos. Edição: Nick Houy. Música: Alexandre Desplat. Fotografia: Yorick Le Saux. Roteiro/direção: Greta Gerwig. Elenco: Saoirse Roman, Emma Watson, Florense Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothee Chalamet, Meryl Streep.

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