Ensaio de putsch fascista

Mesmo que alguns insistam que é “bravata”, de bravata em bravata, o fascismo vai se consolidando no centro da arena política

Fotomontagem feita com as fotos de: Reuters; Cristiano Mariz/Agência O Globo

Quando Bolsonaro convocou sua base para ir as ruas no dia 7 de setembro – data que aflora o nacionalismo – mais uma vez gritar contra as instituições democráticas, desta vez mais especificamente contra o Supremo Tribunal Federal, ele não pretendia deflagrar o golpe nesta oportunidade, mas sim manter as ruas acessas com suas pautas radicalizadas e sua base coesa, visto que a oposição vem protagonizando novamente manifestações de rua com grande adesão.

As ruas importam, Bolsonaro sabe bem disso, por mais que opere no submundo da internet e das fake news, o fascista sabe que povo na rua importa, e por isso quis fazer uma demonstração de forças, de apoio popular, já que as pesquisas andam por ai dizendo que o fascista se encontra em maus lençóis com sua pior aprovação desde então.

Bolsonaro não tem respeito algum pelas instituições, nunca teve, foi eleito pelas urnas e ataca o sistema eleitoral, ataca a liberdade de imprensa, o discurso golpista nunca saiu de sua boca. Mesmo que alguns insistam que é “bravata”, de bravata em bravata, o fascismo vai se consolidando no centro da arena política.

As instituições, Ah! essas estão fraturadas pela escalada da violência política que nos levou ao golpe de 2016, estão sem saber como reagir, levaram tanto em banho maria o fascista que agora em mares agitados não sabem como se comportar. Se apertam a corda como bem quer Bolsonaro, não sabem se terão garantias de uma saída política sem uma radicalização violenta nas ruas. É a incerteza da omissão contínua.

Bolsonaro não queria dar um golpe de fato no dia 7 de setembro, ele não precisa mais, já sabe que o seu governo é fruto da mais absoluta decadência das instituições da República, afinal, qual democracia com o mínimo de funcionamento elegeria um sujeito disposto a enterrá-la da forma mais cruel? E ele não disfarçou hora nenhuma seus desejos, pra deixar claro.

Foto: Sérgio Lima/Poder360

O que as instituições não sabem responder é o acidente da história que nos levou de volta ao passado mais sombrio, quase a idade média com o anti-iluminismo bolsonarista. O que os mais otimistas poderão dizer é que as instituições estão funcionando apesar de Bolsonaro, que o fascista passará assim como Trump e tudo voltará a normalidade.

Ontem o que se viu pelas ruas do Brasil em apoio ao regime fascista mostra que os nossos problemas estão muito, mas muito longe de acabar. Demonstra ainda que a tática de esperar a eleição para derrotar Bolsonaro não reflete os perigos ainda maiores da chegada de uma ditadura fascista desavergonhada. Bolsonaro já governa pela exceção e não vai respeitar as regras do jogo.

Em outros contextos conturbados da história, quando se hesitou a uma reação mais veemente e contundente contra a escalada autoritária na sociedade, sabemos o que aconteceu. Quem olha apenas para as instituições, esquece que a política se materializa na reprodução da vida, e cada vez mais as condições objetivas se acirram em um clima de permanente tensão social.

O golpe não será anunciado em capas de jornais e revistas de grande circulação, não será com tanques fumacentos desfilando nas ruas. Acabar com o Estado Democrático de Direito é uma permanente disputa política de acúmulo de forças, e ontem Bolsonaro acumulou mais um pouco, sua campanha contra a democracia pautou 24 horas o debate público.

As forças políticas de oposição deveriam reagir firmemente aos atos golpistas e o povo defender nas ruas o regime democrático. Não há mais diálogo possível com o fascismo e esse governo da morte, ou se enfrenta em todas as frentes possíveis o bolsonarismo, ou ele passará por cima de nossas cabeças, e dessa vez não será pela via eleitoral.

Movimentos importantes de partidos políticos de centro e direita após o ensaio de putsch fascista de ontem convergem para a necessidade que se impõe, é necessária uma unidade de ação política dos democratas para impedir o fim do que resta do nosso Estado Democrático de Direito, deixando de lado questões eleitorais, em busca de uma coalizão para afastar o Presidente da República.

Cabe à esquerda recepcionar os dissidentes sem sectarismos e compartilhar as ruas dia 12/09 onde a frente ampla poderá se materializar nas ruas, e, a partir disto, transpor para o parlamento a vontade popular de rejeitar o fascismo no Brasil. Essa travessia não será em águas mornas.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
Autor