“O caso Richard Jewell”: Mentiras regadas a fakes News

“Atentado nas Olimpíadas de 1996 em Atlanta, nos EUA, permite a Clint Eastwood desconstruir a imagem de eficiência do FBI e da imprensa local”

Na maioria das vezes os mitos se mantêm apenas enquanto alguém não escava o que o sustenta. É o caso do icônico FBI, do Jornal de Atlanta, capital da Georgia, e da TV NBC expostos por Clint Eastwood(31/05/1930)neste “O Caso Richard Jewell”, baseado no artigo “Pesadelo Americano – A Balada de Richard Jewell)”, de Marie Brenner. Ao mesclar drama familiar à narrativa policial, ambos o transformam em ode ao personagem-título (Paul Walter Hauser). Há, além disso, a emblemática intervenção da mãe Barbara Jewell (Kathy Bates) tratada de forma a realçar o esforço dela na educação do filho único.

O policial para ele é o protetor da sociedade estadunidense. E mesmo avantajado e com muitos quilos a mais, ele tenta dar o melhor de si. Faz tudo para dotar o cidadão comum de total segurança. Ainda assim, Jewell é um ser fragilizado, na maioria das vezes não se sustenta no emprego e é obrigado a fazer biscates como segurança. É o personagem multifacetado a não indicar o que o levará à imposta mutação de sua vida no meio policial. Os ambientes por onde circula exigem dele mais do que simples atenção. Aqueles eram os anos 90, época do Governo democrata de Bill Clinton.

Como sempre ocorre no universo dos personagens solitários, mesmo em meio à multidão, Jewell não tem propriamente uma vida afetiva. Está sempre cercado por estranhos e de olho no que eles fazem. É o caçador a vigiar a caça para evitar prejuízo a quem lhe dá emprego. E ele pula de um para o outro sem se fixar em nenhum deles. Entende-se desde o início da narrativa que seu desenrolar será num contínuo, sem subtramas. O cuidado de Eastwood e seu roteirista Billy Ray é para evitar os tempos mortos. Assim, o espectador só o vê em ambientes sem decantação da imagem.

Jewell buscava defender o cidadão comum

Toda a primeira parte da narrativa, salvo pelas rápidas sequências em que ele interage com o advogado Waltson Bryant (Sam Rockwel), ele não se fixa em amigo algum. Esta construção do personagem representa a inconstância e a falta de fixação dele em algum emprego. Mesmo em lugares abarrotados, ele está sempre atento ao que se passa ao seu redor. É seu tirocínio a justificar sua insistência em empregos diferentes dos buscados como policial seja nas ruas ou em ambientes que exigem maior proteção. A questão é não temer o apagar de seus sonhos da juventude.

Pode-se pensar na história em que a multidão dita a configuração do homem cuja realização concentra-se em defender o cidadão comum. Com isto, a dupla Eastwood/Ray vai sub-repticiamente preparando o espectador para o choque que virá na segunda parte do filme. É quando, finalmente, a história assume seu espaço na narrativa. Percebe-se a agitação dos segmentos de todas idades nos espaços a eles reservados no imenso do Parque Centenário em Atlanta, onde as competições da XXVI Olimpíada serão realizadas. Há shows, competições e outras atrações.

Na crucial sequência para se entender a estruturação da trama de “O Caso Richard Jewell”, Eastwood se concentra na multidão a se mover para assistir à competição esportiva ou o show que lhe interessa. Sua câmera se mantém à distância como se concentrasse nas principais atrações da Olimpíada. Em rápido corte com a câmera baixa põe o espectador junto ao grupo de curiosos ao lado de Jewell. Ele chama atenção deles e dos policiais: “Há mochila sob o banco com pacote suspeito”. Seguem-se outras aflitivas informações, sem o propósito de criar pânico.

Policiais ao redor de Jewell não vêm o perigo à vista

A importância desta sequência está em Eastwood sintetizar a ideia de proteção do cidadão comum feita por Jewell. Ele se mantém atento ao que põe em risco a vida de milhares de pessoas vindas de várias cidades dos EUA e de todo Planeta. Sinal de que o personagem capta o perigo e busca afastar a presença maligna de quem busca a fama através do terror. Aqui, em vez de identificar os lobos solitários, se pretende mostrar a vulnerabilidade da massa presente à Olimpíada. O que reforça a tendência de Jewell a pensar sempre no pior e este acaba por se materializar.

Em princípio assemelha-se a algo mórbido, doentio, de pensar apenas na morte. Entretanto atesta a capacidade de Jewell identificar onde está o que realmente atenta contra a vida de milhares de pessoas interessadas apenas no esporte olímpico. Os policiais ao seu redor, cada um ao seu modo, veem a ameaça com ideia diversa da sua. Isto permite à trama enveredar para outras circunstâncias, ainda mais perigosas. Não são apenas policiais comuns, ali estão os agentes secretos, os agentes especiais e, principalmente, os do FBI, cujos objetivos são bem outros.

Como não se trata de ficção, o espectador fica na ânsia de entender a mudança de tratamento dado a Jewell. São fatos concretos lapidados na linguagem da arte e da narrativa para torná-los factíveis e, ao mesmo tempo, acessível ao cidadão comum. Notadamente por desencadear, a partir daí, a busca do autor (ou autores) do atentado e o responsável (ou responsáveis) pelas possíveis vítimas. Daí de forma inversa, Eastwood remonta a história do suspeito de crime sobre o qual nada sabe (O Homem Errado, 1957, de Alfred Hitchcock:1899/1980). Enquanto isto as acusações se multiplicam sem se deter em qualquer suspeito.

Ataques a Jewell oscilam entre o terror a o mistério

A validade deste “O Caso Richard Jewell”, enquanto realismo ficcionalizado em linguagem de massa, está nas acusações que o policial de 33 anos, saído de escola privada de segurança, passa a sofrer. Os ataques vindos de quem deveria investigar antes de o acusar, oscilam entre o terror, o mistério e a perseguição. Estão longe dos feitos de alguém que supostamente os surpreendeu num instante de terrorismo de ocasião. Principalmente para render notoriedade e por ter sido praticado contra quem veio aos EUA assistir as competições olímpicas de 1996.

No centro destas enviesadas investigações estavam o FBI, criado em 26/07/1908, o Jornal de Atlanta e a rede NBC. Foi nesta que seu apresentador, Tom Brokaw(06/02/1940), divulgou a notícia de que o FBI considerava Jewell o principal suspeito de ter praticado o atentado em que duas pessoas morreram e 111 pessoas ficaram feridas. A perseguição se estendeu às buscas em sua casa e constantes depoimentos ao agente do FBI, Tom Shaw (Jon Hamm). Sequer a idosa Barbara foi poupada, devido a perseguição ao filho. Não se discutia mais se ele era culpado ou suspeito.

A dupla Eastwood/Ray teve o cuidado de esmiuçar, a partir do relato de Marie Brenner, o que Shaw tramava com Scruggs, em seus almoços nos sofisticados restaurantes de Atlanta. Num deles ambos admitem que não tinham qualquer prova para sustentar suas denúncias de que Jewell era o autor do atentado ocorrido em 27/07/1996. A questão é que, ao invés de parar, eles prosseguiram. Shaw pela possiblidade de promoção no FBI, Scruggs por buscar a fama através do aumento da tiragem do jornal. É a típica multiplicação de fakes News nas proximidades do terceiro milênio.

Interpretação de Rockwel ofusca os demais atores

Se a estruturação dramática já mantinha o espectador preso à poltrona do cinema, o leque de situações se ampliam com a defesa de Jewell feita pelo ardiloso e estrategista Waltson Bryant. Ele não só muda os métodos de interrogatório dos algozes de seu cliente, como os impede de forçá-lo a atendê-los fora dos marcos legais. É o tipo de personagem a depender do ator que o interpreta. Sam Rockwel não só encarna o personagem como ofusca os que estão à sua volta. A começar pelo bloqueio imposto a Shaw, evitando que ele faça seu cliente tremer a cada intimação dele.

Os ambientes são fechados, com a câmera do diretor de fotografia Wes Belanger enquadrando-os em sucessivos movimentos. Isto agiliza a ação e dá a sensação de que “O Caso Richard Jewell” se tornou um filme de personagens. O que significa que o espectador é guiado pelo que acontece com eles e quais se impõem aos outros. São as sequências nas quais se presta mais atenção ao que eles fazem e não só nos diálogos. Tudo se torna mais físico, principalmente na sequência do interrogatório de Jewel perante o juiz no tribunal, onde poderia ser trucidado.

O que está em questão não é apenas a suspeita de ser ele o autor do atentado. o FBI e o próprio juiz querem ligá-lo a suposto envolvimento homossexual. Não se tratava mais de pressioná-lo a admitir um crime fora de suas motivações, queriam agora humilhá-lo perante a opinião pública por ser gay. Tudo se limitava à amizade com o grego Niko Nocotera (Dave Doutchess), sem ligação alguma com o meio policial. Eles inclusive mal respeitam a idosa, mas ativa, Barbara Jewell. A interpretação de Kathy Bates (28/06/1948) é cheia de nuances justificando sua indicação de melhor atriz coadjuvante ao Oscar 2020. Em 1991 ganhou o de melhor atriz por sua performance em “Louca Obsessão”, do diretor Rob Reiner.

Eastwood decompõe os mitos FBI e NBC

Sem deixar os vilões de “O Caso Richard Jewell” sossegados, Eastwood decompõe os mitos FBI e NBC e denuncia a esperteza do Jornal de Atlanta. Deles só a rede de tv foi obrigada a indenizar a vítima da perseguição em US$ 500 mil dólares. Os outros dois jamais foram punidos. Enquanto o autor do atentado, o carpinteiro nascido da Flórida, Eric Rudolph só foi preso em 2003 e condenado à prisão perpétua. Richard Jewell (1967/2007) pelo menos viveu o suficiente para conhecer o real autor do atentado pelo qual sofreu constante pressão do FBI e das fakes News do Jornal de Atlanta e da rede NBC. Estes foram seus reais algozes.

O bom desta história contada através de fortes imagens é saber que ainda em outubro de 1996, o juiz Pedro Alexander considerou encerrada a suspeita de Jewell ter participado do atentado pelo qual era acusado por agentes do FBI. Se não o indenizaram a contento pelo menos retiraram a pesada carga a fazê-lo vergar sem ter culpa alguma. Estão aí os condenáveis resultados das fakes News ainda hoje usadas para difamar e abrir espaço político. A manipulação sempre está com os dias contados.

O Caso Richard Jewell” (Richard Jewell). EUA. Drama, policial. 2019.129 minutos. Música:Arturo Sandoval. Editor: Joel Cox. Roteiro: Billy Rey, baseado no artigo “Pesadelo Americano – A Balada de Richard Jewell”. Fotografia: Wes Belanger, Direção: Clint Eastwood. Elenco: Paul Walter Hauser, Kathy Bates, Sam Rockwell, OliviaWilde,Dave Dutchess.

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