Tragédia de Manaus: a culpa não é apenas do mordomo

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Imagem: Montagem com ilustrações de Laerte e Metropoles

Nos filmes de suspense o criminoso é sempre o mordomo, numa evidente mensagem subliminar de defesa da classe dominante (patrão) e de criminalização dos pobres (empregados), como ocorre nessa pandemia e na tragédia de Manaus em particular, onde o presidente Bolsonaro (ex-PSL), governador Wilson Lima (PSC) e prefeito David Almeida (Avante) tentam fugir de suas responsabilidades culpando os “mordomos”.

Culpam auxiliares direto, seus antecessores e o próprio povo, numa clara demonstração de mau-caratismo e inversão de papéis.

Os auxiliares direto são uma escolha privativa do mandatário de plantão e podem e devem serem substituídos se não revelam competência para a função e zelo com a coisa pública.

A eventual incompetência do gestor anterior não elimina a responsabilidade do atual, na medida em que quando se ganha uma eleição ou assume uma função pública, assume-se, igualmente o bônus e o ônus daquela atribuição. Não é honesto reclamar.

E a população foi induzida a erro pela propaganda oficial e força do exemplo: negação da pandemia (“coisa da esquerda”); desprezo pela vida das pessoas (“alguns vão morrer, e daí?”); subestimação de seus efeitos (“uma gripezinha”); e, por decorrência, completo descaso no combate a pandemia (boicote a vacina, incentivo e prática de aglomeração sem uso de máscaras, falta de leitos, UTI, remédios, EPI, pessoal e até mesmo oxigênio).

A tragédia de Manaus, portanto, é o ato final desse enredo macabro, agravado, sem dúvidas, pela completa inaptidão técnica e operacional dos “mordomos” escalados para a execução, os quais seriam trocados se não houvesse um pacto de mediocridade entre eles.

Todos sabiam que Pazuello nada entendia de saúde, mas que ele também não entende de logística (em tese sua especialidade) foi uma surpresa e a sua manutenção no cargo se deve ao fato de executar a política de Bolsonaro e aceitar ser humilhado pelo presidente, o que talvez cause algum desconforto entre um ou outro colega de farda. Nada mais.

Quando ele anunciou a compra de vacinas do Butantã e foi desautorizado (humilhado) publicamente por Bolsonaro, o mínimo que se esperaria de um gestor com algum brio seria a entrega do cargo, o que evidentemente não aconteceu.

E no momento que a crise se alastra Brasil afora (Rondônia também colapsou), o ministro Pazuelo (com essas “qualidades”) é despachado para Manaus “sem passagem de volta”, ou seja, como interventor na prática do sistema de saúde do estado.

E o governador do Amazonas e o prefeito de Manaus pelo visto não estão constrangidos de serem tutorados por um gestor com essas “qualidades”, o que explica porque eles não conseguiram sequer assegurar suprimento de oxigênio para os hospitais. Foi o povo, os artistas, os sindicatos e a Venezuela que nos socorreram com o mínimo necessário.

Fica evidente que os “mordomos” até podem agravar a situação, mas o responsável central é o governante (federal, estadual e municipal) de plantão, razão pela qual não se pode imaginar que haverá uma solução razoável para a crise enquanto eles governarem, sendo imperioso o afastamento desses gestores e em especial do presidente da república.

As doses disponíveis vacinam 3% da população

A insegurança com a logística de Pazuelo é de tal forma que nem mesmo providências simples, como aplicar todas as 12,8 milhões de doses e providenciar outras tantas para o reforço, são tomadas porque ninguém tem segurança que o governo vai garantir as doses.

E como se fosse pouco a tragédia da pandemia, agora surgem os “furas filas”, gente que se vale das relações com os mandatários de plantão para ter acesso a vacina, em prejuízo dos grupos prioritários para essa etapa.

Não há vacina para todos porque os governos (federal, estadual, municipal) simplesmente não as providenciaram, mesmo sabendo que China, Índia e Rússia (parceiros estratégicos do Brasil nos BRICS) poderiam assegurar esse suprimento. Mas o que o governo Bolsonaro fez foi insultar e sabotar esses países para atender ao celerado Trump.

Apesar desses insultos, todos sabiam que a República Popular da China não faltaria ao povo brasileiro – que não pode ser confundido com seus governantes eventuais – como acaba de fazer ao liberar o IFA (princípio ativo) para fabricar as vacinas no Butantã.

Mas a pressão precisa continuar. Há razões de sobra para suspeitar que o governo não tem interesse numa vacinação massiva, o que talvez indique que as reiteradas barbeiragens na pandemia não são apenas incompetência e sim uma adesão, consciente ou inconsciente, à teoria de Malthus, que recomendava eliminar parte dos pobres por guerras e epidemias.

E os números são preocupantes. Temos até agora apenas 12,8 milhões de doses, o que é suficiente para atender apenas 6,4 milhões de pessoas (3% do país). Precisamos de 426 milhões de doses para imunizar os 213 milhões de brasileiros (as). O custo varia muito. Se for com a Coronavac ou Sputinik será da ordem de 24 bilhões de reais. Se a opção for pela Oxford/Astrazeneca esse valor vai a 56 bilhões de reais. O custo da Pfizer equivale ao da Oxford, mas dificilmente será usado em larga escala no Brasil porque só pode ser conservada em temperatura abaixo de 70º C, o que inviabiliza seu uso nacional.

Certamente esses valores logo mais serão “apresentados” e mecanicamente comparados com o orçamento estimado do Ministério da Saúde para 2021 (134,5 bilhões de reais) sem terem presente que a humanização geral é a única garantia para a retomada da economia.

Ademais é um custo “simbólico” se tivermos presente que o governo Bolsonaro reservou algo como 2,23 trilhões de reais (54% do orçamento) para a “Dívida Pública Federal”, o que explica porque os banqueiros estão cada vez mais ricos e o povo cada vez mais pobre.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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