Um crime simbólico

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O inenarrável acontece quotidianamente no Brasil, pela mão do atual presidente. De uma assentada, sem nenhuma cerimónia, Bolsonaro dá presidencial chancela à ofensa produzida contra a música de Bach (o Prelúdio em Dó Maior, BWV 846), que serviu de inspiração à Ave Maria composta por Charles Gounod (datada de 1853).

A “Ave Maria” que o “Gilson aí …” (assim foi referido) tentou cantar (e cantou mal), acompanhando-se num acordeão bem mal tocado, no gabinete presidencial, é obra artística registrada com o nome daqueles dois autores de nível mundial, e foi ali assassinada.

O crime de fato (por mutilação de obra alheia – não apenas por juízo estético), vem em concordância simbólica com o crime maior e real – que ocorre todos os dias no Brasil em resultado do negacionismo face à covid-19 – e que já vitimou mais de 57 mil brasileiros. No exterior, mais uma vez, Bolsonaro cobriu o Brasil de vergonha. Muitos perguntam: até quando, até onde?

A desqualificação que este crime simbólico revela é, no entanto, consistente com a desqualificação geral do governo, no exemplo dos casos de fraude curricular, com ministros que mentem sobre seus atributos acadêmicos e que são prontamente denunciados pelas universidades estrangeiras que abusivamente referem.

Coisas até pequenas, dirão, face à destruição do Brasil (das suas riquezas, da sua estrutura social e do próprio estado como forma de organização que é património dos brasileiros). Mas tem valor simbólico. Demonstra à evidência a natureza do poder instituído hoje no Brasil, da ignorância dogmática de um falso sentido de religiosidade, que se espraia sob a tutela da escola económica ultra-liberal (ali representada por Guedes) e dos militares.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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Um comentario para "Um crime simbólico"

  1. Francisco Jorge disse:

    O cantor acordeonista por trás de Bolsonaro e dum ministro, cantando sobre os mortos da pandemia no seu extenso país, fez uma muito triste figura. Cantou de maneira estranha e ridícula. Participou numa palhaçada.

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