Publicado 27/01/2026 19:00 | Editado 27/01/2026 19:05
Capítulo 5 – Raça e cor
Quando surgiu primeira vez – Antuérpio à beira do fogão fritando ovos – a menina cabelo preto toinhoinhóin só informava tamanho, não idade. Capítulo seguinte, na creche, o Furacão Cor-de-Rosa vinha datado de quatro anos.
Tudo se passara em janeiro. Fevereiro entra e o pequeno tufão completa cinco voltas em torno do Sol. Idade nova, escola nova, Nina chega com os pais à fila de matrícula, rente ao muro do estabelecimento de ensino.
Mal encosta, abre os braços e declama:
– Quanta crianças negras!!! Igual a mim!!
E sai abraçando tantas quantas encontra e pode. Mães – a maioria domésticas, balconistas, operárias – riem um riso largo e sonoro. As crianças, caras de espanto.
A mãe explica: na creche, era só ela de pretinha. Apesar da tez moreno-clara, o diminuto azougue via-se negra, e ponto final.
Acompanhe os demais capítulos:
Capítulo 1 – Matinas de Antuérpio
Capítulo 2 – O furacão cor-de-rosa
Capítulo 3 – Antuérpio vai ao trabalho
Capítulo 4 – Intermezzo
Passada uma semana de aula, reunião de mães e mestras. A coordenadora pedagógica faz o seguinte relato: semana passada, no recreio, houve um desentendimento entre dois alunos. Um deles, branquinho dos cabelos claros, chamou o colega de “negrinho sujo”. O pretinho caiu dentro, e arrancou sangue da boca do ofensor. Mães foram chamadas, o assunto foi tratado, o branquinho repreendido e sancionado, o negro recebeu apoio e conselho, e o acontecido tornou-se ponto de reflexão nas salas de aula.
Na turma de Nina, a professora faz uma preleção sobre preconceito; o quanto era ruim. Em algum momento, diz que, apesar de não haver “crianças de cor” na turma, ainda assim era importante conversar sobre o assunto.
Nina ergue o braço.
– Pois não, meu bem… – concede a mestra.
– Não é “criança de cor”, professora; é criança negra. E tem criança negra na sala sim!
– E quem é, meu amor, que não estou vendo?…
– Eu, ora!!
– Ah, querida… você não é negra… Sua pele é clarinha… Você é uma moreninha linda!
Enquanto faz um requebro característico com a cabeça e esfrega o dedinho indicador no braço, Nina responde:
– Professora… Negro não é aqui – e aponta para a própria testa – É aqui.
A mestra se rende, e a aplaude, sorrindo, no que é acompanhada pela turma.
Nina se levanta, e curva-se para a plateia, a enxerida.