Publicado 13/02/2026 09:38
Capítulo 6 – A falta que sente… e busca
Porque seguirá de longe o sonho de uma casa, Antuérpio amanheceu triste. Há muito a menina não lhe aparece, e suas aparições, poucas, um nada, cevaram nele um desejo qualquer de lar.
Revolveu a cidade em busca. Voltou à janela primeira em que viu a luz da garotinha. No trabalho, volvia os olhos para o parque… para a calçada do parque onde a vira.
Passou a patrulhar o próprio bairro, as imediações do edifício onde batia ponto, o entorno do cinema no qual não a vira, mas queria tê-la visto…
Os colegas detectaram a melancolia. Viam-no macambúzio, olhar ainda mais distraído, aspecto um tanto desleixado em quem sempre havia aprumo e bom vestir. Respondia em monossílabos, quando, a custo, alguém conseguia sua atenção para um ofício, um processo, um despacho.
Acompanhe os demais capítulos:
Capítulo 1 – Matinas de Antuérpio
Capítulo 2 – O furacão cor-de-rosa
Capítulo 3 – Antuérpio vai ao trabalho
Capítulo 4 – Intermezzo
Capítulo 5 – Raça e cor
Antuérpio sofria de ausência. E de vontade. Carpia vasto território do nem sei. Voltava pra casa sempre sem querer voltar.
Certo dia, ao almoço, vislumbrou uns cachos. De começo, ficou paralisado ante a visagem. Depois, disparou em carreira desabalada, adentrou o parque, foi no encalço do balanço dos anéis. Quando deu fé, viu uma criança, morena, cabelos em diminutas volutas, recebendo de uma moça – a mãe, só podia ser – uma casquinha de sorvete. Estavam ambas diante de um ambulante, sob um vasto sombreiro.
Não viu luzes. Ainda assim, esperou. Esperou ver a menina se desmaterializar e restar um brilho, um pulsar, no chão.
Nada.
Aproximou-se e logo soube: não era a menina.
Sorriu-lhe quando a pequena lhe ergueu a mirada bonita. Sorriu para a mãe, que percebera a atenção da filha. Foram-se.
Antuérpio pediu uma casquinha. De limão. Enquanto contava as cédulas, repetiu de si para si: não era a menina…
Por onde andaria? Por que vias? Em que cômodos?