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Israel estende mais muros ao redor dos palestinos

O governo de Israel anunciou que vai construir uma barreira com aproximadamente 125 quilómetros de extensão na sua fronteira com o Egito em zonas situadas entre Eilat, no Mar Vermelho, e o limite Sul da Faixa de Gaza.

Por José Goulão, no Informação Alternativa

As razões invocadas pelo executivo de Benjamin Netanyahu são a necessidade de conter "infiltrações terroristas", travar iniciativas da al-Qaida e evitar a entrada de refugiados oriundos de países africanos, nomeadamente a Eritreia e o Sudão. Trata-se, explicam os responsáveis israelenses, de manter o "caráter judaico e democrático" do Estado de Israel.

A utilização de muros como método para adiar e evitar a resolução de problemas que poderiam e deveriam ter soluções políticas, diplomáticas e negociadas é um recurso velho, traumático, violador de direitos humanos e comprovadamente inútil. Apesar disso, poucas semanas depois de assinalados os 20 anos da queda do Muro de Berlim, a opção parece mais atual do que nunca.

Mais ou menos contemporâneos, em termos latos, da situação de Berlim subsistem os muros de Chipre, da Península da Coreia, do Saara Ocidental. Depois deles nasceram a vedação que os Estados Unidos continua a implantar na sua fronteira com o México e a longa parede que está a ser erguida em zonas entre o Afeganistão e o Paquistão.

A contenção de movimentos migratórios, no primeiro caso, e o combate a infiltrações terroristas, no segundo, são os argumentos para estas situações.

Os governos de Israel – e não apenas o atual de Netanyahu – são os que se revelam com maior apetência pelo culto do emparedamento, aparecendo neste caso como argumento suplementar a defesa do “caráter judaico” do Estado, uma preocupação de pureza étnica e nacionalista que nos remete para os casos dos bantustões e dos guetos no antigo Estado sul-africano de “caráter branco”, para não recuarmos um pouco mais no tempo.

A forma como os chamados “assentamentos estratégicos” cercam Jerusalém Oriental enquanto Israel continua a judaização e a anexação do setor árabe da cidade funciona como um emparedamento, mas normalmente não é considerada como tal, pelo que o mundo já se habituou a conviver com esta fortaleza ilegal inexpugnável até às ofensivas do direito internacional – se por absurdo as houvesse.

Há outros muros na região, menos elaborados, bem prosaicos, mais brutais.

O da Cisjordânia, por exemplo. Poucas ou nenhumas instâncias internacionais com poder efetivo se têm manifestado incomodadas com esta situação, mas ela é um dos mais flagrantes insultos contemporâneos não apenas à civilização mas também à inteligência e ao senso comum. Construído em concreto, o muro deverá ter cerca de 700 quilômetros quando finalizado, de acordo com as autoridades israelenses. Ainda segundo estas, a barreira acompanha a linha de separação entre Israel e as áreas palestinas.

São muitos os testemunhos internacionais que comprovam a inexatidão desta explicação. O muro tem um traçado sinuoso que passa muito pelo interior da Cisjordânia e que, na prática, concretiza uma ocupação israelense avaliada em cerca de 60 por cento do território.

A Cisjordânia, onde funcionam as instituições autônomas palestinas, é uma das áreas onde deveria assentar o futuro Estado palestino, pelo que a construção do muro por Israel torna ainda mais difíceis quaisquer negociações internacionais que venham hipoteticamente a ser retomadas.

Fontes oficiais israelenses argumentam em defesa do muro a sua comprovada eficácia contra infiltrações terroristas. Segundo as estatísticas, desde o início da construção da barreira os atentados no interior de Israel têm diminuído.

Em contrapartida, além da ocupação suplementar do território cisjordaniano – já sujeito a centenas de postos militares de controle, a áreas de efetiva ocupação por tropas israelenses e a todo o progressivo processo de colonização – o muro torna ainda mais precária a existência dos palestinos.

Divide vilas, aldeias e cidades, separa famílias, veda a utilização de cuidados de saúde, afasta jovens das escolas, impede agricultores e pequenos empresários de acederem aos seus negócios, bloqueia o acesso de vida humana aos recursos naturais, em especial a água, transforma, em suma, muitas comunidades palestinas em autênticos bantustões. O muro da Cisjordânia é um instrumento de apartheid.

Israel emparedou igualmente a Faixa de Gaza. O isolamento a que o território está sujeito e que obriga a população de mais de milhão e meio de pessoas a viver em condições infra-humanas, está garantido graças a uma barreira absolutamente inexpugnável do lado israelense e que adquire condições idênticas do lado egípcio.

Num alinhamento cada vez mais evidente com o lado israelense, o regime ditatorial egípcio de Hosni Mubarak contribui para o cerco a Gaza e reforça-o ao encerrar com barreiras metálicas os túneis através dos quais circulavam os únicos bens que poderiam minorar o sofrimento e o desespero de uma população abandonada pelas instâncias oficiais internacionais. Mais do que um bantustão, a Faixa de Gaza é um campo de concentração.

O novo muro a erguer na fronteira entre Israel e o Egito e que vedará cerca de metade da linha de separação, avaliada em 250 quilómetros, corresponde a uma nova fase do processo em que, isolando os vizinhos, o Estado israelense se cerca também a si próprio. Este passo poderá, aliás, não ser o único, tendo em conta palavras recentes do ministro da Defesa, Ehud Barak.

O político que liquidou em 2000 as possibilidades de acordo com os palestinos, então ainda em vida de Arafat, considera que "a fronteira ocidental é a única que não precisa de ser bloqueada". Barak fala, claro, do Mar Mediterrâneo. Daí que, interpretando estas palavras à letra, a edificação de barreiras nas fronteiras com o Líbano, a Norte, e com a Jordânia, a Leste, não seja de excluir.

Segundo as informações disponíveis, a barreira na fronteira com o Egito deverá ser erguida a partir do porto de Eilat, no Mar Vermelho, para Norte; e da fronteira de Rafah, em Gaza, para Sul, prolongando assim a cerca que já envolve a pequena faixa palestina.

As autoridades israelenses alegam que através de Eilat tendem a infiltrar-se imigrantes fugidos de países africanos e que na zona do Sinai têm sido detectados movimentos de grupos alegadamente identificados com a al-Qaida.

O Egito não manifestou qualquer incômodo perante o anúncio feito pelo governo de Israel de construir a barreira fronteiriça. Fonte governamental citada pela comunicação social afirmou que se trata de um assunto israelense desde que a vedação seja construída do lado de Israel.

Na era da globalização e da livre circulação de capitais e mercadorias parece banal que um vizinho feche a fronteira com arame farpado e outros adereços. Para o regime do Cairo é mais importante ser uma espécie de mediador putativo – e virtual – de um processo de negociações apadrinhado pelos Estados Unidos, conduzido por Netanyahu e que na verdade não existe.

Fonte: Informação Alternativa, título do Vermelho