O negacionismo

Ninguém será considerado herege ou irá para fogueira se ousar divergir do consenso científico dominante. Mas vejo com muita preocupação, para ficar em amenidades, o discurso de flexibilização da quarentena baseado em evidências científicas isoladas ou puramente amparado na estratégia ad hominem, de desqualificar o autor da informação e não o seu conteúdo.

Em O Alienista, Machado de Assis nos conta a história de um médico influente de uma pequena cidade que, disposto a curar a loucura, constrói um manicômio e põe nele todos os desviantes, os anormais, os insanos do vilarejo. Os chamados loucos. Depois de certo tempo e muita observação, o doutor tem uma epifania: a loucura é normal, todos nós somos de perto um pouco desviantes. Em seguida, esvazia o manicômio e manda trancafiar à força todos aqueles que fingiam normalidade, pois esses sim eram os verdadeiros insanos.

O leitor mais atento perceberá que estou propondo uma espécie de analogia com o recente afrouxamento político e social das medidas de quarentena contra o novo coronavírus. Foram realmente impressionantes as imagens de ontem do centro de Florianópolis, lotado de pessoas agindo normalmente como se fosse uma quinta-feira qualquer. Não estou com isso querendo dizer que quem desquarentenou é louco. Minha analogia cai melhor e mais respeitosa em outros dois sentidos. O primeiro: não está agindo normalmente quem está vivendo na normalidade. O segundo: no melhor dos cenários, os normais de hoje serão os trancafiados de amanhã, em casa.

É realmente difícil entender as razões pelas quais a população afrouxou as regras de quarentena. Vou tentar rascunhar algumas delas aqui. Me parece que há três camadas negacionistas distintas, mas que interagem fortemente entre si. Uma puramente política, outra psicológica, outra científica, se assim podemos chamar.

A camada política é bem óbvia. Politizaram o vírus. Há quem ache que o coronavírus tem composição política. Que basta chamar uma manifestação no domingo, disseminar fake news na internet e brigar no grupo da família para ele ser derrotado. Há quem ache que o coronavírus é de esquerda. Que basta denunciar nas redes, associá-lo a regimes autoritários e jogá-lo na clandestinidade para conter o seu avanço. Há quem ache que o coronavírus é mais um episódio da briga de torcida que o Brasil vive desde junho 2013. Que basta mudar a narrativa dos fatos para vencer a disputa no campo das ideias. Há quem ache que o vírus é fake, que basta desqualificar o trabalho da imprensa e se informar pelo whatsapp para proteger o seu sistema ideológ… perdão, imunológico*. Bom, há até quem ache que o vírus tem nacionalidade (com direito a Procurador da República, em circunstância oficial, chama-lo de “vírus chinês”). E, claro, é comunista. Trata-se do comunavírus, como já andaram dizendo por aí, e ele vem distribuindo literatura científica subversiva por nossa terra com o propósito de desmontar os conglomerados empresariais brasileiros e destruir nossa cultura de liberdade.

Eu sempre me perguntei qual seria o limite dessa histeria coletiva, dessa política da negação que o Brasil vive, que de questionamento do sistema em 2013 passou para um terraplanismo partidário em 2018, onde todos os fatos que ameaçam a consistência teórica dessas convicções são tomados por fabricações falsas, cujos fios de marionete são puxados por uma elite que se reúne em quartos escuros para dominar o planeta. É como no filme Ilha do Medo, de Scorsese: quanto mais você tenta convencer o insano de que é insano, com fatos e evidências, mais ele se convence que é vítima de uma conspiração do sistema.

Estamos diante de uma neorevolta da vacina, dessa vez liderada em automóveis de luxo e redes sociais, e nos falta como nunca um personagem à altura de Oswaldo Cruz. É difícil pensar que haja algum limite a tudo isso, quando não há espaço para os fatos e as evidências científicas. Mas talvez esse limite seja a morte. A morte como a inevitável sucessão lógica dos fatos. A morte tem um terrível efeito pedagógico, que desde já eu deixo claro que não desejo a ninguém, nem mesmo aqueles que juram de morte não haver coronavírus. Faço aqui um paralelo com o terraplanista que morreu ao tentar provar que a terra era plana, se projetando ao céu com um foguete caseiro que explodiu no meio do percurso. Soa um pouco duro, e repito que não desejo isso a ninguém, mas talvez as fatalidades do coronavírus sejam as únicas manifestações dos fatos capazes de convencer aqueles que estão inebriados pela política da negação. É com profunda angústia e infelicidade que constatamos que algumas pessoas só entenderão a gravidade do que estão vivendo ao perder um amigo ou um parente.

E se a morte não for o limite? Daí teremos um problema ainda maior, em curto, médio e longo prazo. Em curto e médio prazo teremos mais mortes por coronavírus, por razões que a essa altura julgo dispensável explicar. Em longo prazo, teremos um problema político para a democracia brasileira – como se tivéssemos poucos, certo? Pois pessoas que não estão dispostas a abrir mão de suas convicções mesmo diante da morte alheia estão muito próximas de flertar com regimes autoritários. Da última vez que consultei os livros, se chamava extremismo a política de admitir a ameaça à integridade física de um grupo, como uma colateralidade pré-determinada a troco da manutenção de determinadas convicções políticas no poder. Não estou dizendo que vivemos uma ditadura. Estou dizendo que as pré-condições estão aí, cada dia ganhando contornos mais definidos, e não é de hoje. Tomo empréstimo da observação de um colega para ilustrar o que quero dizer. Substitua “só morrem os que estão no grupo do risco” por “na ditadura, apenas morria comunista e bandido” e talvez você entenda meu ponto.

A segunda camada é psicológica – e os psicólogos que me perdoem desde já por tentar roubar seu lugar de fala. Parece que a nossa gente, de boa-fé, se recusa a aceitar que vive uma tragédia humana comparável apenas às duas grandes guerras mundiais. Eu mesmo neguei a gravidade do vírus antes de a Covid-19 nos atingir em cheio, no início do mês de março. É compreensível, pois a nossa geração e a dos nossos pais viveu “a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da Humanidade”, nas palavras do escritor italiano Antonio Scuratti, em texto brilhante publicado dia desses. Daqui da minha bolha de Florianópolis, essa cidade maravilhosa que hoje me assusta com tanto movimento nas ruas, eu conheço a tragédia humana apenas dos livros e do cinema. No máximo, conheço a minha tragédia, os meus dramas pessoais e daqueles que nutrimos empatia. Nunca nos atingiu um drama humano tão coletivamente assim, até onde eu me lembro por gente. Ninguém poderia imaginar que depois de mais um Ano Novo normal, igual a todos os outros, nossas esperanças renovadas à meia noite se desmanchariam no ar de março diante de aquele que poderá ser conhecido como o ano perdido. E a despeito de todas as advertências, fomos pegos de surpresa, pois tenho a ligeira impressão de que o carnaval brasileiro interrompeu a expectativa do medo por uma fração de dias e conseguiu arrastar a normalidade nas costas ladeira acima para um pouco além da quarta-feira de cinzas, até que os fatos – novamente, os fatos – se impuseram sobre a ordem do dia e acenderam o primeiro sinal amarelo, já quando estávamos cruzando a avenida da normalidade em direção ao isolamento social, de onde hoje sentimos toda hora falta de amigos e familiares, até mesmo de desconhecidos, que poderiam nos presentear com um dedo de prosa sobre o que anda acontecendo com o mundo. Ao menos temos a bênção da tecnologia de videoconferência, mas que nem de longe consegue reproduzir a sensação do laço humano presencial, como aquela foto da lua tirada da câmera do seu celular que não consegue transmitir o que está diante dos seus olhos. Ainda assim, tentamos minimizar e seguir o jogo, mas a cada interrupção do sinal da internet, do corte da fala, do apagar da imagem, somos sugados de volta para o epicentro da pandemia e voltamos às máscaras, ao álcool, às imagens preto-e-branco do coronavírus e dos supermercados lotados onde todos se sentem ameaçados uns pelos outros.

Sejamos humanos, não é fácil aceitar tudo isso. Arrisco dizer que boa parte da sociedade está em estado de negação. Daí a ruptura com as fitas psicológicas de isolamento. Incentivos institucionais também não faltam. Temos um governo federal dando sinais trocados em matéria de saúde pública, há dois governos num só e não sabemos quem é o soberano. O presidente do STF, por sua vez, diz que o isolamento não é horizontal, nem vertical, “é diagonal”. Cada um de nós escolhe a orientação que melhor nos servir. Tem para todo mundo. O governo de Santa Catarina merece comentários à parte, pois vacila entre o erro e o acerto toda hora, embora ultimamente tenha preferido o primeiro ao segundo. Foi vanguardista na determinação do isolamento social, dias depois espalhou um pânico generalizado ao decretar a reabertura das atividades econômicas, incluindo shoppings e academias. Já voltou atrás. E já retomou de novo, em parte. Foram tantos os decretos e intercalações de humor governamental que já parei de contar. Na dúvida, sigo em casa. Soma-se a isso o fato de boa parte dos gestores públicos do Brasil terem baixado decretos de duração curtíssima, de 7 a 14 dias, passando nas entrelinhas a desinformação de que tudo isso passaria numa questão de duas semanas. Não passou. Sequer atingimos o pico. Num cenário de confusão institucional desse, é de se esperar que haja revolta e afronta às medidas governamentais, principalmente num contexto de desconfiança em relação ao sistema político. Não dá pra ficar tão surpreso assim com a quantidade de gente circulando ontem no centro da capital catarinense.

A terceira camada é científica. Estão tentando dar ares de plausibilidade científica às teses contra o isolamento social. Isto passa também por desqualificar as principais instituições que o defendem. Primeiro vieram os economistas, depois os comerciantes, e como não sou economista nem comerciante, não disse nada e tentei entender a sua versão dos fatos de que a interrupção da economia causaria mais mortes do que o coronavírus. Me solidarizo de verdade com quem está preocupado com a economia, com o seu próprio bolso e daqueles que empregam. Não sou pai de família e nem conheço a angústia de não saber como pagar seus funcionários do final do mês. Mas daí falaram em reabrir serviços não-essenciais, daqueles capazes de aglomerar um número grande de pessoas. É isso mesmo? Business as usual? Não me convenci.

Não sou cientista da área de saúde, tampouco de estatística ou temas afins. Dessa forma, sou obrigado a me filiar às palavras de instituições de credibilidade, como universidades e a Organização Mundial da Saúde. Vá lá, podem dizer que isto é um argumento de autoridade (ao contrário de autoridade do argumento), mas imaginei cá com meus botões que autoridade científica é um porto seguro que podemos nos apegar em momentos de tanta incerteza, ao invés de literalmente sair por aí confiando em opiniões pouco gabaritadas de experts do momento.

Até agora não tive acesso a nenhum argumento robusto, corroborado por um consenso científico de tamanho considerável, que me convencesse que isolamento social para achatar a curva de crescimento não é uma boa ideia. Também não me convenceram de que há de fato uma margem de escolha entre economia ou saúde pública, como se pudéssemos escolher não padecer do coronavírus. Dos meus sapatos, vejo apenas a solução de minimizar os danos da economia com medidas governamentais enquanto intensificamos o isolamento social. Tendo a acreditar que quanto mais cedo levarmos a sério o isolamento, mais cedo poderemos sair dele e recuperar a economia brasileira. O contrário, salvo melhor juízo, me parece arriscado demais para uma circunstância onde riscos equivalem a vidas.

No entanto, as instituições que decidimos confiar há tantas décadas atrás ora são alvos da pirotecnia negacionista. Não é de hoje que as universidades brasileiras estão sendo surradas pela opinião pública, sobretudo pela opinião publicada, e desmontada por ações institucionais de governos e órgãos descontrole, de forma coordenada ou apenas para ver o mundo pegar fogo. Há uma crise de credibilidade do conhecimento científico e das próprias conquistas iluministas básicas, que se arrasta há anos e agora nos pegou fragilizados, quando mais precisamos de confiança e investimento nas instituições que produzem ciência.

Nesta onda, sobrou até para a OMS. Já tínhamos ouvido no passado recente que a ONU era de esquerda e a principal instituição representante da elite globalista mundial. A novidade foi um jornalista de renome nacional ter publicado um texto afirmando que a OMS era, abre aspas, um cabide de empregos que serve de esconderijo para marginais que frequentam os galhos mais altos de ditaduras africanas, um agrupamento político a serviço de interesses terceiro-mundistas, fecha aspas. Além da imagem pejorativa do povo africano, chama atenção a tentativa de desqualificar uma entidade que, particularmente, não tinha visto alguém questionar com tanta ênfase e desprezo, até que fosse necessário para tornar a narrativa negacionista redonda – assim como a Terra, a propósito.

Não estou aqui defendendo uma espécie de verdade científica absoluta, diante da qual é vedado investir contra. Ninguém será considerado herege ou irá para fogueira se ousar divergir do consenso científico dominante. Mas vejo com muita preocupação, para ficar em amenidades, o discurso de flexibilização da quarentena baseado em evidências científicas isoladas ou puramente amparado na estratégia ad hominem, de desqualificar o autor da informação e não o seu conteúdo. Na dúvida, fico em casa.

Essas são as três camadas que identifiquei. Enquanto escrevo esse texto, o Brasil acaba de ultrapassar a marca de 1.000 mortos. Estados Unidos e Itália somam quase 40.000. Se você leu o texto até aqui, seja lá com qual sentimento, antes de tudo agradeço. Se não concorda, na dúvida fique em casa. Saiba que não quis bancar aqui o cavaleiro do apocalipse, semeador de pânico ou coisa que o valha. Tentei ser o mais realista possível e espero, de verdade, estar errado na minha análise, e que isso tudo não passe de uma “gripezinha”. É o paradoxo dessa crise: condenamos os negacionistas, mas desejamos de coração que eles estejam certos. 

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