De Olho no Mundo, por Ana Prestes

Uma perspectiva mais concreta de desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus é um dos destaques do painel internacional feito diariamente pela cientista política Ana Prestes. A China também está no centro da conjuntura, assim como a OMS e alguns países europeus que começam a superar a fase mais crítica da pandemia.

(Foto: Reprodução)

Revista Nature fez uma compilação de todas as iniciativas de pesquisa sobre uma vacina para o novo coronavírus em andamento. São 115 vacinas sendo estudadas, 78 registradas, das quais 5 já estão em fase de testes clínicos. A perspectiva de um melhor cenário, segundo a revista, é de 12 a 18 meses. Com muita sorte já tenhamos algo no começo de 2021, segundo o biólogo Atila Iamarino em seu Twitter.

Hoje, 20 de abril, é o Dia do Diplomata. E o Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, postou em sua conta no Twitter uma foto de uma manifestação de bolsominions, dessas que pedem intervenção militar contra os poderes estabelecidos, como legislativo e judiciário, e disse que “diplomacia é lutar junto com o povo brasileiro”. Sinceramente, nossos diplomatas merecem todas as homenagens por suportar esse governo. Pena que grande parte deles apostou na chegada ao poder desse presidente macabro que hoje os dirige.

Por falar em diplomacia nos tempos de Bolsonaro, os integrantes da representação diplomática brasileira na Venezuela regressaram ao Brasil na última sexta-feira (17) em um voo da FAB. Ao todo foram 38 pessoas, contando diplomatas, servidores do Itamaraty, adidos militares e civis, familiares. Deste modo, fica evidente que em um momento de crise pandêmica sem precedentes neste século, o Brasil abre mão de seu papel de liderança regional na América do Sul, não se solidariza com a população dos países vizinhos e nem mesmo cuida dos cidadãos brasileiros que vivem nestes países, como a Venezuela.

Estão ficando famosas as caixinhas chinesas, decoradas com a bandeira da China e do país receptor de suprimentos médicos, além de uma frase de algum escritor ou filósofo estampada. Há fotos delas espalhadas por todo o mundo. Segundo Zhao Lijian, porta-voz do ministério do Exterior da China, em falas registradas pela imprensa na sexta-feira (17), Pequim trabalha com outros países “para salvaguardar a proteção da saúde pública internacional” e o país exportou entre 1º. de março e 4 de abril mais de 1,4 bilhão de dólares de suprimentos de combate à pandemia. Os norte-americanos estão bastante incomodados com o que tem chamado de “diplomacia das máscaras” por parte da China. Mike Pompeo, secretário de Estado do governo americano, disse em videoconferência com jornalistas da Europa que “não há nenhum país no mundo que fornecerá tanta ajuda e assistência sob múltiplas formas como os Estados Unidos da América”. Nos EUA também há um grande dilema entre aceitar ou não doações de máscaras, por exemplo, provenientes da China. As doações chegam mais rápido pois estão sujeitas a menos burocracias e autorizações de importação/exportação por parte de órgãos de controle nacionais. Embora muitos trabalhadores da área médica dos EUA precisem das máscaras, as autoridades em Washington resistem em aceitar as doações do Ministério do Exterior da China. Não querem “ajudar na propaganda chinesa”.

Por falar em pauta China nos EUA. Peças publicitárias de Biden publicadas nos últimos dias mostram uma tônica da corrida presidencial. Nas peças Trump é responsabilizado pela falta de preparo dos EUA para a pandemia do coronavírus por não ter denunciado e enfrentado rapidamente a China, fechando acesso de pessoas vindo provenientes do país asiático e enviando pessoal médico e pesquisadores para a China no auge da crise em Wuhan. Biden vai disputar com Trump quem é o anti-China mais competente.

A União Europeia também está temerosa do que chama de “ação predatória da China”. A Comissão Europeia fez uma recomendação e os 27 países membros acataram. Trata-se de uma “autoproteção” contra o risco de investimentos estrangeiros em setores estratégicos afetados pela crise do novo coronavírus. Os europeus temem quem empresas dos setores de assistência médica, pesquisa médica e infraestrutura estratégica, enfraquecias pela crise, sejam alvo de aquisições estrangeiras.

Joseph Nye, cientista político e professor emérito da Universidade de Harvard, é mundialmente conhecido por ter criado o conceito de “soft power” nas relações internacionais. A atual “diplomacia das máscaras” da China seria um exemplo desse soft power que difere do poderio militar e econômico nas relações externas, seria uma outra frente de atuação internacional. Em entrevista à Folha de São Paulo, publicada na última sexta (17), Nye diz que os erros cometidos por Trump na atual crise podem minar o soft power americano e a China pode sobressair. Perguntado pela Folha sobre a imagem global de Bolsonaro hoje, o professor respondeu que “muitos americanos o veem como o Trump brasileiro”, mas que o Brasil segue sendo admirado por sua cultura, atitudes e em uma “sociedade civil, que se mantém robusta apesar dos problemas atuais”. Perguntado se a pandemia vai mudar substancialmente o mundo, ele respondeu que no século passado, a pandemia da gripe espanhola de 1918 mudou menos o mundo do que a Primeira Grande Guerra e a depressão econômica de 1929. A crise atual pode nos dar uma lição de cooperação, diz ele, “mas isso pode ser muito otimista”.

A economia chinesa encolheu 6,8% no primeiro trimestre de 2020, em comparação com o mesmo período do ano passado. É o primeiro recuo desde 1992. Em um cenário sem pandemia, a projeção era de que a China crescesse 6% nesse período. Se ao final do ano a China tiver crescido apenas 2,5%, como se projeta hoje, terá sido o pior desempenho desde 1976. Com base nesse e outros dados, o FMI fala de uma retração mundial na casa dos 3% em 2020, superando a crise de 1929.

Trump ficou isolado na reunião de líderes do G7 na quinta-feira (16) quando o assunto foi OMS. Mesmo que vários líderes como Angela Merkel, da Alemanha, e Justin Trudeau, do Canadá, tenham feito falas contundentes em defesa da OMS e da necessidade de cooperação internacional para enfrentar a crise, o relatório feito pelos americanos, que organizaram a reunião, diz que “grande parte das conversas estiveram centradas na falta de transparência e falta de coordenação crônica sobre a pandemia pela OMS. Os líderes apontaram para uma revisão e um processo de reforma (da organização)”.

O novo ministro da saúde do Brasil, Nelson Teich, participou da reunião de ministros do G20 da qual participou também o secretário geral da OMS, Tedros Adhanon. Em seu pronunciamento, o ministro defendeu o papel da OMS, disse que é preciso ter mais testes (seu mantra) e que “precisamos realmente entender o que está acontecendo pra que a gente consiga desenhar as políticas e ações que vão nos ajudar a passar por isso da forma mais rápida”. Mas um dos pontos centrais da fala do ministro foi (pasmem) o combate às fake news. Disse ainda que já foram gastos 2 bilhões de dólares dos recursos federais no Brasil para distribuição de materiais e equipamentos hospitalares.

A Itália literalmente vai voltando a respirar. As mortes por Covid19 tiveram seu nível diário mais baixo em uma semana ontem, domingo (19), com 433 falecidos. O número de novos casos também cedeu, passando de 3491 no sábado para 3047 no domingo.

Já a Alemanha começa hoje uma tentativa de reabertura do país com parte do comércio voltando a funcionar. Para funcionar, o governo diz que vai monitorar o número de internações, vai aumentar a testagem e manter regras rígidas de distanciamento social.

Os EUA passaram da casa dos 40 mil mortos, mas no estado de Nova Iorque, epicentro da crise, a curva parece começar a cair. Só no Estado de Nova Iorque foram mais de 13 mil mortes registradas desde o início da crise.

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