Mortes pela covid-19 triplicam nos bairros pobres de São Paulo

Dados da Secretaria Municipal da Saúde mostram que seis dos 20 distritos mais pobres já têm mais de 100 mortes registradas. Brasilândia e Sapopemba lideram

Covid-19 atinge favelas com maior virulência

Em um mês, os 20 distritos mais pobres da capital paulista registraram aumento médio de 228% nas mortes causadas pela covid-19, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde.

Doze distritos tiveram crescimento superior a 200% nas mortes registradas desde o dia 17 de abril. Os distritos com mais mortes são Brasilândia (ZN); Capão Redondo, Grajaú e Jardim Ângela (ZS); Sapopemba e Cidade Tiradentes (ZL).

Já os 20 distritos mais ricos da cidade acumulam aumento médio bem inferior nas mortes, no mesmo período: 161%. Santana (ZN) é o distrito com o maior número de casos, depois vêm Saúde, Vila Mariana e Campo Belo (ZS), Santa Cecília (Centro), Perdizes (ZO) e Tatuapé (ZL).

Mais mortes, menos estrutura

Os 20 distritos mais pobres da cidade acumulam 1.558 mortes, das 5.725 mortes ocorridas em toda a cidade, até 14 de maio. Nesta terça (19), foram contabilizados quase seis mil óbitos causadas pela pandemia do novo coronavírus.

Esses distritos também são os que possuem menos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com um máximo de oito para cada 100 mil habitantes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 30 para cada 100 mil. Na capital paulista, 60% dos leitos de UTI estão concentrados em três distritos: Sé, Vila Mariana e Pinheiros, todos bairros valorizados.

Os moradores da Brasilândia receberam na segunda (18) 100 mil máscaras de proteção ao contágio pelo coronavírus. A campanha “Máscaras para a Brasilândia” foi lançada pela Rede Brasilândia Solidária e tem como público-alvo as famílias da região que se encontram em condições financeiras de extrema dificuldade. As máscaras estão sendo distribuídas à população pelas 13 Unidades Básicas de Saúde (UBS) da região.

A capital paulista tem uma taxa de ocupação de UTI de 89%. Alguns hospitais, sobretudo na periferia, já estão em lotação máxima e não recebem novos pacientes. A rede hospitalar municipal tem 1.834 pessoas internadas, sendo 495 em UTI.

Precariedade da favela da Tribo não recebe sequer atenção do poder público

A invisibilidade das favelas

São 1.728 favelas na cidade de São Paulo, segundo dados da prefeitura. Na região metropolitana, cerca de 400 mil famílias e mais de 2 milhões de pessoas moram nestas condições. Porém, algumas delas vivem uma situação ainda mais delicada. 

Diferente de Paraisópolis ou Heliópolis, favelas gigantes que recebem atenção da mídia, muita ajuda “humanitária” da classe média do entorno, muitas comunidades são pequenas, remotas e com estruturas mais precárias. Têm dificuldade de articular ou receber projetos de apoio para reduzir suas precariedade. Também são comunidades que sofrem com carências básicas que as grandes já resolveram por meio de presença do poder público e privado.

São populações que lidam quase permanentemente com tragédias, como doenças graves sem atendimento adequado, desastres ambientais como inundações e desabamentos, problemas sanitários graves, como rios poluídos que passam embaixo dos barracos, lotação em barracos pequenos que favorecem abusos infantis e violência doméstica.

São favelas distantes e isoladas que não viram tema de novela da Globo, como Paraisópolis, pois, sequer, guardam o charme de um favela em bairro nobre com residências e urbanismo já consolidados. São construções realmente improvisadas, amontoadas, sem vias de passagem minimamente planejadas. O próprio acesso a estas comunidades é difícil e evitado por gente de fora.

O modo como a Prefeitura divulga os números da covid-19 é criticado pelas organizações de favelas. A divulgação por distritos invisibiliza as favelas. Não é a toa que os números mais alarmantes se concentram no distrito da Brasilância, uma enorme região pobre na Zona Norte da capital. Ali, perto da Serra da Cantareira, as favelas são íngremes e, frequentemente são ocupações irregulares em beira de barrancos, com difícil acesso. A vizinhança da natureza preservada torna as condições desses bairros ainda mais precárias.

Toda e qualquer medida pensada pelas autoridades é insensível à realidade dessas populações. Falam em quarentena, quando um pequeno barraco abriga seis pessoas. Falam em higiene quando comprar frascos de álcool gel é algo absolutamente supérfluo pra quem come arroz e feijão, sem “mistura”, sem mencionar a total ausência de saneamento básico e oferta de água encanada. Muitas famílias sequer têm um banheiro digno. Falam em home office ou estudo online, quando as pessoas nunca tiveram internet ou viram um computador dentro de casa. Falar em compras por delivery na favela soa como piada.

Depois, desconsidera-se totalmente o fato de muitas pessoas perderem seus empregos ou trabalhos informais com o fechamento do comércio. Até o auxilio emergencial oferecido pelo governo é burocratizado, demanda um aplicativo de celular e acesso à internet. São populações que convivem, também, com a constante ameaça de expulsão de seus terrenos pela justiça, que tem expedido mandatos de reintegração de posse em plena pandemia com apoio da Polícia Militar.

Especialistas consideram previsível essa consolidação de uma periferização da covid-19. Embora o vírus tenha sido trazido de viagens ao exterior por pacientes ricos, agora ele se espalha por regiões onde é inviável fazer isolamento social efetivo. A concentração populacional, o urbanismo irregular e a qualidade das residências em regiões pobres torna improvável a quarentena. São populações que precisam enfrentar transporte coletivo lotado para trabalhar, pois não têm reservas para se afastar do emprego. Também são pessoas que, muitas vezes, não têm acesso a saneamento básico para higienização adequada.

Desta forma, decretar isolamento rigoroso e forçado nessas condições é condenar estas populações a outras tragédias. Desemprego, fome, dívidas, violência doméstica, alcoolismo e falta de perspectivas podem agravar ainda mais a condição sanitária de comunidades pobres.

Omissão governamental

Segundo reportagem da Agência Mura, em 19 de março, a PFDC (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão) pediu que o Ministério da Saúde informasse, no prazo de cinco dias, quais medidas seriam adotadas para a prevenção da Covid-19 às populações que moram em favelas e periferias do país.

O órgão do MPF (Ministério Público Federal), voltado à proteção dos direitos humanos, disse que favelas e periferias apresentam alta densidade populacional, com casas muito próximas e limitações estruturais para garantir o isolamento adequado em caso de contaminação pelo vírus

O Ministério da Saúde, até então, sob o comando de Luiz Henrique Mandetta não respondeu o documento com o plano. Desde que assumiu a pasta, em 17 de abril, o médico oncologista Nelson Teich não deu declarações públicas sobre medidas de proteção do vírus nas favelas e periferias do Brasil.  

Questionados, a prefeitura e o Governo do Estado sequer responderam.

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