Pandemia mascara desemprego, que pode chegar a 16%

Segundo o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, consultor do Dieese, situação ainda tende a piorar. Segundo ele, a taxa de desemprego pode atingir de 25% a 30% nos próximos meses.

(Foto: Reprodução)

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego no Brasil saltou de 11,2% no trimestre até janeiro para 12,6% em abril, aumentando o contingente de desempregados para 12,8 milhões de pessoas com o fechamento de 4,9 milhões de vagas. É um quadro devastador, mas a realidade pode ser ainda pior.

Uma análise da equipe de macroeconomia do Itaú Unibanco divulgada nesta terça-feira (9) pelo Estadão estima que, na verdade, o desemprego estaria em 16%, caso o volume de pessoas procurando trabalho tivesse se mantido no mesmo nível de antes do início da quarentena.

Segundo um economista do banco, para que alguém seja considerado desempregado é preciso que esteja procurando colocação ou disponível para trabalhar. No entanto, a pandemia fez cair o número de pessoas nessa condição devido ao isolamento social.

Com o isolamento, a taxa de participação caiu três pontos, de um patamar de 62% em fevereiro para 59% em abril. Isso quer dizer que menos pessoas puderam procurar trabalho. Além disso, o início do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600, para trabalhadores desempregados e informais de baixa renda, reduziu a procura.

Agravamento

Segundo o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, a situação ainda deve piorar muito. Ele prevê, por exemplo, que parte das 8 milhões de pessoas que tiveram o contrato suspenso ou a jornada reduzida por meio do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, do governo federal, pode em breve passar a integrar o contingente de desempregados. A validade do programa, de dois meses, já expirou.

“Se a economia não retoma a atividade e nesse momento o programa não existe, parte deles são candidatos à demissão, infelizmente. Se, de 8 milhões, 4 milhões forem demitidos, a taxa de desemprego já vai para 20%”, analisa o consultor do Dieese.

Clemente lembra ainda que o governo estimava que 15 milhões de trabalhadores seriam contemplados pelo programa, mas o número foi bem menor. Ou seja, parte das empresas não julgou conveniente aderir e pode ter preferido demitir sua força de trabalho.

“É provável que essa taxa de desemprego esteja tendendo rapidamente para uma taxa de 25%, 30%. A gente vai dimensionar daqui a dois, três meses, mas o que pode estar em curso é isso”, estima.

Depressão

Clemente Ganz Lúcio faz previsões sombrias quanto à saída da crise. Na avaliação do consultor, o timing para que o governo adotasse determinadas medidas passou e, mesmo agora, não há sinalização de que a equipe econômica fará o necessário para estimular a reativação econômica.

“Nós estamos falando de um carro que já começou a capotar. Nós estamos dentro do carro capotando. Ninguém sabe quantas vezes vai capotar. O governo não devia ter deixado capotar. Devia ter feito um isolamento sério, consistente, bem articulado. Durante o isolamento, deveria ter protegido as empresas, os empregos e ajudado o sistema de saúde a se estruturar. Para poder fazer uma saída do isolamento organizada, indo para a atividade com segurança. Mas não fez nada disso.”

Segundo ele, embora ainda haja tempo para uma mudança de rumo, não é verossímil esperá-lo do governo atual. “Em parte, é possível [fazer o necessário agora]. Mas isso implica um governo que não é esse. Porque esse governo não está preparado para fazer o que precisa ser feito. Eu prevejo uma depressão. A depressão dura pelo menos uma década. Então a gente começa a sair em 2030.”

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