Um terço de enfermeiros mortos por covid-19 no mundo são brasileiros

Morrem mais de 200 enfermeiros e casos de covid-19 chegam a quase 20 mil. Maioria dos mortos e afastados é de mulheres. Falta de EPIs, treinamento e exposição de grupos de risco agrava o quadro na Enfermagem

Profissionais de enfermagem são os mais expostos ao risco de contrair covid-19, mas seguem sem EPI e treinamento adequados

O Brasil atingiu as 208 mortes de profissionais de enfermagem, nestes 87 dias, desde o primeiro óbito relatado pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), em 20 de março. Três em cada dez óbitos são de profissionais brasileiros, segundo levantamentos do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e do Conselho Internacional de Enfermagem (ICN). 65% são mulheres relativamente jovens, com prevalência da faixa etária de 40 a 60, muitas delas com comorbidades, que não deveriam estar em contato com casos suspeitos de covid-19.

Segundo o ICN, mais de 230.000 profissionais de saúde contraíram a doença e mais de 600 enfermeiros já morreram pelo vírus. A análise da ICN mostra que, em média, 7% de todos os casos da Covid-19 em todo o mundo estão entre os profissionais de saúde, o que significa que os enfermeiros e outras equipes correm grandes riscos pessoais, assim como os pacientes de que cuidam.

O Brasil hoje é o primeiro país do mundo em mortes de profissionais de enfermagem, superando os Estados Unidos, Espanha e Itália juntas. 

“A enfermagem está parecendo um dos trabalhos mais perigosos do mundo no momento. Precisamos obter esses dados para cada país e descobrir exatamente o que está acontecendo, o que explica as variações que são evidentes, mesmo com uma rápida olhada nos números. Somente então seremos capazes de aprender a melhor maneira de manter nossas enfermeiras seguras e impedir qualquer repetição dessas terríveis estatísticas no futuro”, diz o CEO da ICN, Howard Catton.

“A morte destas profissionais indica descaso do poder público com as condições de trabalho e de assistência à Saúde. Recebemos e fiscalizamos mais de 5 mil denúncias, a maior parte delas referentes à escassez e inadequação dos equipamentos de proteção individuais (EPIs)”, afirma o presidente do Cofen, Manoel Neri. A falta de treinamento adequado também acaba sendo um agravante.

“Também é crucial o afastamento dos profissionais integrantes de grupos de risco da linha de frente do combate à pandemia. Somos seres humanos, sujeitos aos mesmos fatores de risco da população em geral, e não máquinas”, pontua Neri, lembrando que o Cofen precisou recorrer à Justiça em busca do direito de afastamento e à testagem.

“Os dados são alarmantes e continuam crescendo, pois o Brasil ainda segue em curva de contágio ascendente. Negar a ciência e os fatos não impedirá que as mortes continuem crescendo, só alimenta a insegurança da população e dificulta a adesão a medidas básicas de higiene e distanciamento, fundamentais para contar a pandemia”, afirma.

Desde o início da pandemia, os Conselhos de Enfermagem receberam 7.742 denúncias de falta de EPI e sobrecarga de trabalho associada ao subdimensionamento profissional. Já foram apuradas 5880. “Poderíamos esperar que a situação dos EPIs, por exemplo, já tivesse sido resolvida, agora que os poderes públicos tiveram tempos de fazer ajustes. Mas nos últimos 15 dias, recebemos 582 denúncias”, afirma Walkírio Almeida, coordenador do comitê gestor de crise.

Em todo o país, já foram reportados 19.649 casos suspeitos ou confirmados de profissionais de enfermagem contaminados pela covid-19. Destes casos, 85% eram de mulheres.

Os estados com o maior número de ocorrências são: São Paulo, com 3.911, Rio de Janeiro, com 3.810; e Bahia, 2.185. No número de mortes, a liderança também é de São Paulo, com 41 óbitos, seguido pelo Rio, com 36, e por Pernambuco, 27.

Os conselhos regionais encaminharam 4.533 denúncias a diversos órgãos, como Ministério Público, Vigilância Sanitária, secretarias estaduais e municipais de saúde, entre outros. “Esses encaminhamentos, requerendo adoção de providências junto às instituições, para que instituam planos de contingência ao enfrentamento da covid-19, com quantitativo adequado de pessoal e treinamentos específicos para os profissionais de enfermagem, bem como provimento de EPIs em quantidade e qualidade suficientes à demanda, visam garantir estrutura e segurança para os atendimentos”, diz Almeida.

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