Liderado por Casagrande, Esporte pela Democracia supera 1.900 adesões

Grupo começou com Casagrande, Raí e as ex-jogadoras de vôlei Ana Moser, Isabel e Fabi, mas extrapolou o mundo esportivo

“Nossa democracia está correndo um risco sério, mas temos muitos combatentes a favor dela também”. A afirmação é de Walter Casagrande Júnior, ex-jogador e artilheiro dos dois times mais populares do Brasil, o Corinthians e o Flamengo, além de autor do recém-lançado Travessia, livro em que conta seu processo de ressocialização depois do tratamento da dependência química

Com os recentes acontecimentos na política brasileira e a morte do norte-americano George Floyd – asfixiado pelo joelho de um policial quando estava rendido –, “Casão” iniciou uma rede de contatos com outros ex-atletas que deu origem ao “Esporte pela Democracia”. O grupo já conta com mais de 1.900 assinaturas, extrapolando o mundo esportivo. O que começou com Casagrande, Raí e as ex-jogadoras de vôlei Ana Moser, Isabel e Fabi hoje conta com músicos, cineastas, escritores e jornalistas, entre outros.

O grupo tem “várias ações e ideias”, conforme Casagrande. “Claro que este isolamento restringe e limita os nossos passos”, diz o ex-jogador. “Minha vontade e a de todo mundo que está no grupo é fazer uma manifestação na rua mesmo, mostrando a nossa cara e o que queremos. De forma pacífica, sem ter conflito e confronto com ninguém.”

O grupo já realizou uma palestra sobre racismo e organiza um debate sobre democracia no esporte, com base na Democracia Corinthiana. O movimento, nascido entre os jogadores do Corinthians no início dos anos 1980, teve em Casagrande um dos seus líderes, ao lado de Sócrates, Wladimir e Zenon, entre outros.

Casagrande vê a ação de alguns governos, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) como um posicionamento firme contra manifestações antidemocráticas. “Nossa democracia está sendo atacada por todos os lados. Liberdade de expressão não é isso”, ressalta o ex-jogador e comentarista esportivo. “Liberdade de expressão é quando você tem total conhecimento e respeito pelas pessoas – e, e consegue se posicionar de uma forma que não precise agredir ou xingar, sem violência.”

O histórico de posições políticas não faz Casagrande olhar apenas para fora. As críticas são feitas também na própria carne – e o ex-centroavante não se furta a entrar em bolas divididas quando a pergunta é sobre o baixo envolvimento de atletas em questões políticas. “Tem muita gente que faz e já fez movimentos importantes. Mas, na história, principalmente falando de Brasil, são poucos”, lamenta.

Ele ressalta, porém, que não faz cobranças. “Peço essa participação sem exigir; afinal, é uma democracia. Ninguém é obrigado a participar ou a se manifestar”, afirma. “Mas, como o futebol é um esporte muito popular no Brasil, poderíamos fazer mais.” Pela referência que representam para crianças e jovens, os jogadores de futebol de ponta seriam importante voz ativa em processos de interesse da sociedade como um todo, “independentemente da causa”.

Na opinião de Casagrande, a baixa participação de jogadores em causas políticas tem dois principais motivos. Uma razão é o que ele chama de “egocentrismo” – atletas mais bem sucedidos não se preocupam com o que os outros precisam, ignorarando o que acontece ao redor. “Outro fator é o não querer se envolver. Estar numa posição tranquila, sem querer correr risco. Ainda mais com as redes sociais, que são muito perversas. Os ataques lá são cruéis”, diz. “Muitas vezes os jogadores acabam ficando reféns das pessoas que querem isso mesmo, que eles fiquem calados”, afirma.

Questionado sobre uma forma de mudar o quadro e incentivar a participação de mais atletas no debate, Casagrande afirma que “estes movimentos começaram a sumir” depois da Democracia Corinthiana. “É difícil mudar este quadro. Estamos diante de várias manifestações espalhadas pelo mundo e, de alguma forma, isso pode contaminar positivamente a formação dos atletas.”

Casão acha natural a emergência de movimentos puxados por torcidas organizadas pela democracia. “Como os jogadores não se manifestam, as torcidas – que têm importância muito grande na sociedade do futebol – levantaram a bandeira em favor da democracia e contra o racismo. As torcidas de futebol são mais próximas da população.”

Num cenário ainda de muitas mortes em meio à pandemia, a volta dos campeonatos de futebol no País também é criticada pelo ex-jogador. “Não consigo entender o ato de voltar a jogar futebol ao lado de um hospital de campanha”, diz Casagrande. “Estamos tomando um novo 7 a 1, mas este não é igual ao da Alemanha. Aquele nos deixou tristes e envergonhados, mas não matou ninguém.”

Com informações do Valor Econômico

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