Como a metáfora da guerra pode prejudicar o combate ao coronavírus

As metáforas bélicas para o “combate” ao coronavírus podem causar efeito reverso do desejado, especialmente quando começa haver flexibilização do isolamento social, com todos posando de corajosos e enfrentando o vírus de peito aberto.

A guerra contra o coronavírus

Vemos essa guerra refletida no idioma usado por políticos, formuladores de políticas, jornalistas e profissionais de saúde.

Quando o “inimigo invisível” atacou, economias inteiras pararam conforme populações “se abrigaram em casa”. Disseram-nos para nos “agachar” para a longa batalha pela frente e “apoiar nossas tropas”, os profissionais de saúde, lutando nas “linhas de frente”.

Essas metáforas de inspiração militar servem a um propósito. Ao contrário do denso cenário linguístico da ciência e da medicina, suas mensagens são claras: Perigo. Apertem os cintos. Colaborem.

De fato, estudos mostra que, às vezes, metáforas militares podem ajudar a unir pessoas contra um inimigo comum. Elas podem transmitir um senso de urgência para que as pessoas abandonem o que estão fazendo e comecem a prestar atenção.

No entanto, como alguém que estudou a maneira como a linguagem influencia o comportamento, sei que esse tipo de retórica pode ter efeitos a longo prazo menos positivos, principalmente na saúde e na medicina. De fato, a pesquisa mostrou que essas metáforas podem levar as pessoas a tomar decisões que vão contra o bom conselho médico.

Uma base linguística de guerra

A retórica militarizada foi popularizada com a “Guerra às Drogas”, um termo cunhado pelo presidente Richard Nixon em um esforço para reduzir o uso de drogas ilícitas nos EUA. Desde então, a linguagem da guerra se infiltrou em nosso léxico coletivo. Atualmente, estamos envolvidos em uma guerra contra as mudanças climáticas. Alguns argumentam que há uma guerra no Natal, enquanto outros dizem que há uma guerra contra a verdade.

Portanto, é natural que, quando um vírus novo e mortal surja, a retórica de guerra persista.

As metáforas militares não são novas na medicina; há muito tempo desempenham um papel na formação do relacionamento dos pacientes com a doença. O câncer é um exemplo-chave disso. O câncer é um inimigo, invadindo o corpo do paciente. É dito aos pacientes que devem lutar, que estão em guerra e que devem ser fortes enquanto recebem tratamentos que visam a destruição dessas células inimigas.

O fato de serem usadas com tanta frequência, indica que essas metáforas servem a um propósito. Elas são simples e diretas, ajudando-nos a compreender e categorizar algo complexo e imprevisível.

Por que guerra e medicina não se misturam

Mas esse enquadramento contém uma subcorrente potencialmente perigosa.

A linguagem afeta a cognição, e a cognição afeta nossos comportamentos. Foi demonstrado que a linguagem de guerra altera nosso comportamento – e nem sempre para melhor.

Na guerra, lados opostos estão envolvidos em uma luta. Quem sobrevive mais tempo e luta mais, vence. Força e confiança são elogiadas, enquanto comportamentos medrosos são vistos com desprezo. O pôster da Segunda Guerra Mundial, “Mantenha a calma e continue” (Keep calm and carry on), exemplifica essa mentalidade. A mensagem subjacente da chamada “Guerra ao Terror” era não permitir que o medo perturbasse nossas vidas. Havia um grande foco em retornar à “vida normal” e pensava-se que o retorno aos passatempos nacionais, como o beisebol, tivesse um papel enorme em ajudar o país a se recuperar.

Essas abordagens podem parecer úteis, mas no caso do coronavírus o conselho médico sugere distanciamento físico e uso de máscara. Infelizmente, esta orientação requer disruptura. Ficar em casa é mudar sua rotina, usar uma máscara é parecer fraco e com medo, e evitar tudo o que compõe nossa rotina diária é deixar o inimigo vencer.

Ao lidar com um vírus, o bombardeio retórico não faz sentido – e pode até sair pela culatra. Pesquisas mostram que as metáforas militares levam a comportamentos negativos em certas situações de saúde. As pessoas podem se tornar mais propensas a correr riscos, exagerar-se e ser menos propensas a se envolver em atividades preventivas. Por exemplo, algumas pessoas podem não querer parecer com medo da exposição ao sol, e isso pode torná-las menos propensas a usar protetor solar. Outros podem continuar procurando tratamentos para doenças terminais – apesar dos efeitos colaterais debilitantes – porque não querem ser vistos como “rendidos”.

A maneira como as metáforas da guerra enfatizam a força também pode estigmatizar aqueles que adoecem, que agora são vistos como fracos.

A dicotomia entre força versus fraqueza implica em escolha, como se aqueles que estavam infectados tivessem escolhido se render. Na realidade, aquilo que nos faz parecer fortes e confiantes em uma guerra só funciona no contexto de uma batalha com outros humanos. É evidente que algo como um vírus ou uma droga ilícita não tem compreensão da psicologia humana; portanto, demonstrações de confiança não têm sentido.

A guerra afrouxa nossa moral e ética

Há também um elemento mais insidioso de metáforas de guerra que enquadram iniciativas de políticas públicas.

Durante a guerra, o público geralmente é mais aberto a ações que não são toleradas em tempos de paz. A construção de campos de internação japoneses durante a Segunda Guerra Mundial e a representação de imigrantes como “invasores” para estabelecer as bases para sua detenção indefinida são ilustrações gritantes desse fenômeno.

No mundo da pesquisa e da medicina, demonstrou-se que a guerra e as metáforas da guerra contribuem para a pesquisa antiética. As “batalhas” contra certas doenças levaram os pesquisadores a violar sua responsabilidade ética em um esforço para “vencer a guerra” para um bem maior. Por exemplo, nos infames experimentos de sífilis de Tuskegee (Alabama, EUA), em que os pesquisadores justificaram não tratar quase 400 homens negros por sífilis – ou mesmo dizer a eles que tinham a doença – para aprender sobre a progressão natural da doença.

Durante a pandemia, vimos discussões sobre o racionamento de serviços de saúde e a priorização de algumas vidas sobre outras, de uma maneira que normalmente não seria aceitável. O tenente-governador do Texas, Dan Patrick, defendeu abertamente que os idosos deveriam se voluntariar para morrer para salvar a economia.

Quando descrevemos um vírus como um inimigo a ser derrotado, ele muda nossas percepções sobre como reagir ao vírus e pode fazer com que o público se comporte de maneiras ilógicas.

À medida que os estados dos EUA começam a reabrir, apenas para descobrir que o vírus continua a se espalhar sem parar, essas metáforas militares podem estar causando mais mal do que bem. Talvez seja hora de mudar a maneira como falamos sobre o vírus.

Tabhita Moses é doutora pela Universidade Estadual de Wayne

Artigo traduzido do The Conversation por Cezar Xavier

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