O que há de diferente em Bob Dylan, Nobel de Literatura

O que fez com que Bob Dylan fosse laureado com o Nobel de Literatura de 2016? Esta matéria, publicada originalmente em outubro de 2016, ajuda a compreender.

O anúncio nesta quinta-feira (13) do prêmio Nobel de Literatura foi surpreendente: seu ganhador é o músico Bob Dylan, de 75 anos. É a primeira vez que o prêmio máximo da área vai para um compositor.

Para a Academia Sueca, responsável pelo prêmio, Dylan é um poeta na tradição da língua inglesa. E segue ativo pelos últimos 54 anos, constantemente reinventando a si mesmo.

“Se você olhar para milhares de anos atrás, descobrirá Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos para serem escutados e interpretados, muitas vezes com instrumentos. Acontece o mesmo com Bob Dylan. Nós ainda lemos Homero e Safo e gostamos. A mesma coisa [ocorre] com Dylan”, afirmou Sara Danius, secretária-permanente da Academia Sueca, no anúncio do prêmio.

O que é diferente nas letras do compositor

Como exemplo da genialidade do compositor, Sara citou “Blonde on blonde”, disco de 1966 que, segundo ela, demonstra sua maneira brilhante de rimar e de pensar. É por este álbum, aliás, que ela recomenda que os não-iniciados comecem a escutar Dylan:

Trecho

Inside the museums, infinity goes up on trial
(Nos museus, a eternidade vai a julgamento)

Voices echo ‘this is what salvation must be like after a while’
(Vozes ecoam ‘é assim que a salvação deve ser, depois de um tempo’)

But Mona Lisa musta had the highway blues
(Mas Mona Lisa com certeza sentiu a tristeza da estrada)

You can tell by the way she smiles
(Dá pra ver pelo jeito que ela sorri)

‘Visions of Johanna’ do disco “Blonde on Blonde” (1966)

A letra de “Tangled Up in Blue” é uma das ricas narrativas pelas quais Dylan ficou conhecido como compositor. Ele conta a história de uma mulher que conheceu e ajudou a escapar de um ex-marido problemático, e como a reencontrou tempos depois. A única repetição está no verso que dá nome à canção – o resto da letra se desenrola sem refrão, como se fosse um conto:

Trecho

She was standing there in the back of my chair
(Ela estava parada ali, atrás da minha cadeira)

Said to me, Don’t I know your name?
(Me disse, ‘Eu não conheço você?’)

I muttered somethin’ under my breath
(Resmunguei algo baixo)

She studied the lines on my face
(Ela estudou as linhas no meu rosto)

I must admit I felt a little uneasy
(Devo admitir que me senti um pouco desconfortável)

When she bent down to tie the laces
(Quando ela se curvou para amarrar o cadarço)

Of my shoe
(Do meu sapato)

‘Tangled Up in Blue’ do álbum Blood on the Tracks (1975)

Para o escritor e poeta Fabrício Corsaletti, fã e estudioso da obra de Dylan, o músico americano é um “grande poeta narrativo”. Suas letras são cheias de sequências rímicas, aliterações e assonâncias, entre outros recursos técnicos. Também é capaz de fazer letras curtas e longas e tem, ao longo de suas obras, muita variação de tons e vozes – o que mostra a sua versatilidade. Mas, além disso, “conta histórias como pouquíssimos sabem fazer”, diz Corsaletti.

“No conjunto, a obra dele parece uma grande epopeia lírica da vida americana nos últimos 50 anos”, diz Fabrício Corsaletti.

Poeta e pesquisador da vida e obra de Dylan

Em “Black Diamond Bay” (1976), por exemplo, Dylan constrói uma narrativa em fragmentos. “É como se fosse um conto de Júlio Cortázar”, compara Corsaletti.

Outro exemplo é “Idiot Wind”, que fala sobre uma separação. “É um tema que todo mundo conhece”, analisa Corsaletti. “Mas a quantidade de coisas que ele cria, o quanto ele é capaz de ir a fundo em coisas que você pensava que conhecesse, é impressionante”. “Ele é um grande criador de imagens poéticas.”

Escolha sinaliza mudança no Nobel

Embora seja incontestavelmente importante, a obra de Dylan não se enquadra nas categorias normalmente premiadas pela Academia Sueca.

Os responsáveis pelo Nobel sabem que a escolha pode gerar polêmica. “Os tempos estão mudando, talvez”, disse Sara Danius no anúncio, fazendo referência à canção “The Times They Are A-Changin’”, do músico. “É claro que ele merece.”

“A decisão [de dar o Nobel a Dylan] eleva letras de músicas ao mesmo pé que a literatura, poesia e dramaturgia. É um grande passo para longe do intelectualismo e elitismo autoperpetuadores pelos quais o prêmio havia sido criticado”, afirmou Colin Paterson.

Para Flávio Moura, editor da Companhia das Letras, as premiações dos últimos anos podem sinalizar um “arejamento” positivo no Nobel. Em 2015, o prêmio foi concedido pela primeira vez a uma jornalista, a bielorussa Svetlana Alexievich, escritora que se dedica ao chamado “novo jornalismo literário”.

Moura defende a expansão da concepção de literatura para o gênero da canção. “Às vezes, premiam autores de uma literatice chatérrima, sendo conservadores sobre o que é o literário. Nos últimos dois anos estão apontando em outras direções, o que é muito positivo”, diz.

O Nobel literário tem “gosto pela imprevisibilidade”, por isso é difícil prever quem será seu ganhador. Dylan não era sequer mencionado entre os favoritos para o prêmio. Em 2016, os principais cotados para levar os prêmios eram o escritor queniano Ngugi wa Thiong’o, o autor japonês Haruki Murakami e o poeta sírio Adonis.

“A tentativa de defender a pureza do espírito literário é uma bobagem. A literatura só tem a perder quando se refugia nesse corporativismo. [A premiação] reconhece que essas fronteiras são mais porosas do que uma certa visão elitista de literatura tende a achar.”

Nobel é o prêmio que faltava

Robert Allen Zimmerman nasceu na cidade de Duluth, Minnesota, nos EUA, em 1941. Ele ganhou seu primeiro violão aos 14 anos e começou a se dedicar à música folk e ao blues. Nos anos 1960, foi fortemente influenciado pelos escritores da geração beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, e pelo poeta francês Arthur Rimbaud.

Seu primeiro disco, “Bob Dylan”, foi lançado em 1962. Ao longo de suas cinco décadas de carreira, lançou 37 álbuns de estúdios, vários considerados obras-primas. Em suas músicas, se focou em questões sociais, política, amor e religião. Já escreveu livros, um em dois volumes sobre a própria vida, chamado “Crônicas”, e lançou compilações com suas próprias letras.

“Dylan tem o status de um ícone. Sua influência na música contemporânea é profunda, e ele é objeto de uma produção literária secundária constante”, diz o comunicado da Aademia Sueca sobre o anúncio.

O Nobel é o prêmio que faltava para Dylan figurar no olimpo máximo da produção cultural contemporânea. Ele já ganhou os principais prêmios mundiais na área de cinema (Oscar e o Globo de Ouro pela canção “Things Have Changed”, da trilha de “Garotos Incríveis”, em 2001) e música (foram 12 Grammys no total).

Também tem um Pulitzer, prêmio americano dado a autores relevantes na área de jornalismo e literatura. O Pulitzer veio em 2008 por seu “profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de força poética extraordinária”.

O prêmio Nobel

O prêmio é distribuído desde o século 19. Ele foi criado pelo químico Alfred Nobel, morto em 1885, que expressou em seu testamento o destino que seu patrimônio deveria ter: uma premiação para as grandes descobertas da humanidade em cinco áreas: física, química, fisiologia (ou medicina), literatura e paz. Em 1900, foi criada a Fundação Nobel.

Em 2016, a temporada de anúncios dos premiados da Academia Real Sueca de Ciências começou na segunda-feira (3), com o Nobel de Medicina. O vencedor foi Yoshinori Ohsumi, que investiga o processo de autofagia (ou comer a si mesmo) das células. A descoberta pode levar a um maior entendimento de doenças como o câncer e o diabetes. No dia 4 de outubro, o trio de pesquisadores britânicos David J. Thouless, F. Duncan M. Haldane e J. Michael Kosterlitz levou o Nobel de física.

Na segunda-feira (10) o mundo conheceu o Nobel de Economia, que foi para dois pesquisadores que buscam formas mais eficientes e justas de se elaborar contratos. E, na sexta-feira (7), o presidente colombiano Juan Manuel Santos foi laureado com o Nobel da Paz por sua tentativa de negociar um acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Ouça duas canções: 

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