7 de Setembro: que a classe trabalhadora conquiste sua independência!

Brasil celebra, agora, os 200 anos da Independência, e Bolsonaro tenta se apropriar do Sete de Setembro com ações deploráveis

A História oficial omite a participação do povo brasileiro – e, em especial, o da classe trabalhadora – nos grandes marcos civilizacionais do País. O caso mais escandaloso (mas não único) é o da Abolição, retratada como um gesto de generosidade da Princesa Isabel, a “Redentora”. É como se os milhões de africanos trazidos à força e escravizados no Brasil fossem indistintamente passivos.

Graças a historiadores “não oficiais” como Clóvis Moura, autor de Rebeliões da Senzala, sabemos que não faltou resistência à escravidão. Antes da Lei Áurea, de 1888, os trabalhadores escravizados organizaram incontáveis quilombos, insurreições e guerrilhas – foram mais de 350 anos de uma intensa luta de classes entre a Senzala e a Casa-Grande. Em seu auge, 1670, o Quilombo dos Palmares chegou a reunir 20 mil negros fugidos.

A Proclamação da República, em 1889, no ano seguinte à Abolição, também é descrita como um fato histórico sem participação popular. “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”, escreveu o jornalista republicano Aristides Lobo. “Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada militar.”

Mas, ao longo do século 19, houve memoráveis revoltas populares contra o Império e em defesa da República. Muitas dessas lutas contaram com participação de escravizados africanos que levantavam também a bandeira abolicionista. Foi o caso da Revolta de Carrancas (1833), em Minas Gerais; da Revolta do Malês (1835), na Bahia; e da Balaiada (1838-1841), no Maranhão.

O Brasil celebra, agora, os 200 anos da Independência, e o presidente Jair Bolsonaro (PL) tenta se apropriar do Sete de Setembro com ações deploráveis. Em agosto, seu governo promoveu a vinda, de Portugal para o Brasil, do coração de Dom Pedro 1º, que ficou exposto no Palácio do Itamaraty. Pela primeira vez na História, um órgão morto, mantido em formol, foi recebido como chefe de Estado. Nesta quarta-feira (7), em Brasília e no Rio de Janeiro, Bolsonaro transforma eventos cívicos em palanques eleitorais, numa clara afronta à lei.

Em São Paulo, na reabertura do Museu do Ipiranga, os holofotes se voltam para Independência ou Morte!, de Pedro Américo. Após nove anos inacessível ao público, o quadro, também conhecido como O Grito do Ipiranga, é a mais conhecida representação do momento em que, simbolicamente, o Brasil deixava de ser uma colônia de Portugal.

Toda a iconografia do Sete de Setembro é propositadamente elitista e conservadora. A obra de Pedro Américo não foge à regra. Finalizada em 1888, na fase terminal do Império, o quadro forja um caráter pacífico e triunfal à Independência. Montado em um cavalo imponente, numa colina “às margens plácidas” do Ipiranga, Dom Pedro 1º levanta a espada e, sob aclamação geral, anuncia a libertação do Brasil com um “brado retumbante”. Do ponto de vista factual, quase tudo é falso.

Pedro Américo esvaziou o processo histórico e reduziu a Independência ao espírito épico de um príncipe português. Nessa representação de nosso mito fundador, o povo aparece de forma lateral, no canto da tela, na figura de um negro perplexo, “bestializado”. Ele está de costas para a cena, apenas com a cabeça virada na direção do futuro imperador, e seu cavalo parece querer distanciar-se.

Mas nós, trabalhadores – nós, o povo – somos, sim, parte relevante da História do Brasil. No século 20, as grandes mobilizações populares, a ascensão e o fortalecimento do movimento sindical, as grandes greves, as lutas de resistência e avanços – tudo isso ajudou decisivamente a empurrar nossa História para frente. É um período mais documentado e conhecido, mas, antes dele, já havia ação e reação popular na construção do Brasil.

Uma releitura mais criteriosa e crítica da História é indispensável. “Temos de despir esse véu da fábula, dos contos, das lendas, e falar de um Brasil que nos represente mais”, resume Lilia Moritz Schwarcz, coautora do recém-lançado O Sequestro da Independência – Uma História da Construção do Mito do Sete de Setembro.

Que a classe trabalhadora conquiste sua independência, sua plena emancipação, seu futuro. É nas lutas cotidianas, fazendo a História, que vamos construir a sociedade que desejamos e merecemos.

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