Ex-auxiliar de Bolsonaro depõe na CPMI e mente sobre movimentação milionária

O sargento Luis Marcos dos Reis, que atuou na equipe de ajudantes do ex-presidente, inventou um “consórcio” entre os miliares para justificar movimentação atípica

O sargento Luis Marcos dos Reis durante depoimento (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

Com informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e quebra de sigilos, os governistas na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga os atos golpistas do 8 de janeiro, a CPMI do Golpe, destruíram a pose de bom moço do sargento do Exército Luis Marcos dos Reis, que depõe no colegiado nesta quinta-feira (24).

O militar, que atuava na equipe dos ajudantes de ordens de Bolsonaro, adotou a estratégia de responder aos parlamentares dissimulando que queria contribuir, mas usava o direito ao silêncio sempre que era deparado com os fatos.

Descaradamente, ele inventou um “consórcio” entre os colegas militares para justificar a movimentação milionária na sua conta bancária, mesmo tendo um salário incompatível.

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O relatório de inteligência financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostrou que ele enviou para seu ex-chefe Mauro Cid, principal ajudante do ex-presidente, aproximadamente R$ 3,3 milhões entre junho de 2021 e agosto deste ano.

Os dados gerados pelo Coaf também revelam que ele sacou dinheiro vivo para pagar contas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Os repasses somam R$ 70,4 mil e teriam sido feitos entre 26 de julho de 2022 e 25 de janeiro deste ano.

Questionado sobre os depósitos para a ex-primeira-dama, ele usou o direito de permanecer em silêncio. Declarou apenas que fez um pagamento da mensalidade escolar da filha de Bolsonaro.

A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) detalhou a movimentação financeira e disse que se tratava de suposto crime de lavagem de dinheiro.

“Essa é a consideração do Coaf, na análise da atipia das suas contas. O senhor vai falar de novo de consórcio, vai falar um monte de coisa, mas tem uma coisa aqui que me chama muito a atenção: resumo de lançamentos a débito entre 1º de fevereiro de 2022 e 20 janeiro de 2023”, advertiu a parlamentar sob a posse dos documentos.

Nele, estavam que só nas transações bancárias de DOC e TED houve movimentação de R$ 694,5 mil, 215 Pix no valor de R$ 336,2 mil e cartão de crédito de R$ 86.000. Em apenas quatro meses deste ano, ele movimentou R$ 167 mil na sua conta com crédito, 25 Pix na sua conta no o valor de R$ 43,7 mil.

“Depois, de débito, o senhor bota para fora R$ 213 mil. Só num TED são R$ 58.000, já este ano. O senhor consegue explicar um TED de R$ 58.000 este ano já? O senhor ainda estava em consórcio?”, indagou a parlamentar.

“Não tem como eu me lembrar de todos os TEDs ou Pix, mas eu entreguei para a relatora aqui todos os meus extratos”, disse.

De acordo com a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), relatora do colegiado, o Coaf demonstra que o militar recebeu de salário durante o período indicado R$ 239,3 mil, mas movimentou mais de R$ 3 milhões.

“Uma delas uma movimentação que, no somatório, foi de R$ 1,5 milhão e uma outra movimentação da ordem de R$ 1 milhão, em vários tipos de movimentações: Pix, depósitos, saques, movimentação, por exemplo, em poupanças. Enfim, uma movimentação absolutamente atípica”, disse a relatora.

A relatora também questionou sobre os repasses feitos na conta dele pela empresa Cedro do Líbano Comércio de Madeira e Materiais para Construção. A mesma empresa, conforme investigações da Polícia Federal (PF), tem como sócio, Vanderlei Cardoso de Barros, ex-auxiliar da presidência no Palácio da Alvorada.

O sargento entrou em contradições, pois havia falado que não conhecia o dono da empresa, mas voltou atrás.  

A empresa tinha contratos bilionários no governo Bolsonaro com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf).

“A Cedro do Líbano é uma empresa investigada que, na verdade […] fez uma movimentação de mais de R$ 32 milhões de 2020 a 2023. Segundo o Coaf, e por isso a atipicidade desses RIFs que chegaram à CPMI, ela é incompatível com o porte e a estrutura da empresa. Essa empresa, o capital dessa empresa é de R$ 15 mil. Olha a movimentação milionária dela. E, esta mesma empresa, para desenhar aí para quem está incomodado, esta mesma empresa transfere entre o titular da empresa e a própria empresa o equivalente a R$ 74.280 para o senhor Dos Reis”, explicou Eliziane.

Jandira Feghali com o documento do Coaf (Foto: Richard Silva/PCdoB na Câmara)

Golpista

O militar que também teve ativa participação nos atos golpistas do 8 de janeiro, conforme revelou a quebra do sigilo telefônico, alegou que passou no local “por curiosidade”.

Questionado sobre a sua participação nos atos, ele chegou a declarar que não se lembrava das mensagens pelo WhatsApp que passou quando estava no local.

“Nós temos que cada um fazer a nossa força aqui, representar o nosso país, não é? Graças a Deus! Mas foi bonito aqui. É, muita das vezes a televisão fala mentira. Realmente, é a primeira vez que eu vejo aqui entrar no Planalto, no Congresso, na Câmara dos Deputados e entrou no STF (Supremo Tribunal Federal) e quebrou, arrancou as togas lá daqueles ladrões”, dizia o militar nas mensagens.

O deputado Rogério Correia (PT-MG), que expôs as mensagens, disse que o sargento chegou na CPMI dizendo que não sabia nem lembrava de nada. “Mas fiz questão de desfazer a imagem de bom moço que ele tentou pintar. Reis é um golpista engajado dentro do Planalto, ao lado de Bolsonaro, as mensagens comprovam”, afirmou.

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