Trump intensifica ofensiva imperialista e recoloca a América Latina sob pressão

Do apoio eleitoral a Milei ao cerco à Venezuela, 2º mandato de Trump é marcado por sanções e uso força. Enquanto isso, Brasil reafirma soberania

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Antes mesmo de reassumir a Casa Branca, Donald Trump já havia sinalizado que a América Latina voltaria a ocupar um lugar central na política externa dos Estados Unidos. 

No segundo mandato iniciado em janeiro de 2025, essa orientação se traduziu na combinação de sanções econômicas, pressão financeira condicionada, ingerência política e uso direto da força, recolocando o continente sob uma lógica de tutela.

Ao longo de 2025, Washington passou a tratar a região não apenas como área de influência histórica, mas como território estratégico em disputa, em meio ao avanço da presença chinesa e à reconfiguração da ordem internacional. 

Da Argentina ao Caribe, passando por México, Brasil e Venezuela, a política norte-americana passou a operar por meio de instrumentos articulados de coerção econômica, diplomática e militar.

É neste cenário que o Portal Vermelho publica um especial de fim de ano que reconstrói essa escalada — do respaldo ao governo ultraliberal de Javier Milei na Argentina ao cerco diplomático e militar imposto à Venezuela — e analisa as respostas de países que buscaram impor limites à ofensiva, como Brasil e México, ao reafirmarem soberania e a defesa de suas instituições.

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A retomada da tutela impearialista

Antes mesmo de reassumir formalmente a Casa Branca, Donald Trump já tratava o hemisfério ocidental como um espaço a ser reorganizado sob critérios de segurança e controle estratégico.

Em 8 de janeiro de 2025 — 12 dias antes da posse — o então presidente eleito reivindicou o Canal do Panamá e a Groenlândia, território dinamarquês, afirmando que ambos seriam “vitais para a segurança nacional” dos Estados Unidos. 

Questionado sobre se poderia assegurar ao mundo que não usaria coerção militar ou econômica ao tentar obter o controle de ambos, Trump respondeu: “Não, não posso garantir nenhuma dessas duas coisas. Mas posso dizer o seguinte: nós precisamos deles para a segurança econômica.”

Vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance visita a Groenlândia em missão enviada por Donald Trump para reforçar a presença norte-americana no Ártico, inspecionar instalações militares estratégicas e sinalizar o interesse de Washington em ampliar sua influência sobre a ilha, considerada peça-chave na disputa geopolítica e no controle de rotas e recursos da região. Foto: Reprodução

Ao associar rotas de navegação, infraestrutura e territórios a uma agenda de “segurança nacional”, Trump antecipou o eixo que passaria a organizar o segundo mandato: a transformação de ativos estratégicos — portos, canais, bases e cadeias logísticas — em peças centrais da disputa geopolítica, com impacto direto sobre a autonomia de governos e regiões inteiras.

Na prática, o recado era que a relação com a América Latina e áreas de interesse imediato dos EUA voltaria a ser conduzida sob lógica de tutela e coerção, não apenas por meio de comércio ou diplomacia, mas pela combinação de pressão política e disponibilidade de força para impor objetivos considerados essenciais por Washington.

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Se, nos meses seguintes à posse, a pressão direta sobre a Groenlândia arrefeceu, o mesmo não ocorreu no entorno caribenho e na América Central, onde governos passaram a sentir de forma mais concreta o peso da nova orientação imperialista de Washington, especialmente no contexto da contenção à presença chinesa na região.

Em outubro de 2025, o presidente panamenho José Raúl Mulino acusou a Embaixada dos Estados Unidos de ameaçar revogar vistos de autoridades do país como instrumento de pressão política. 

Casos semelhantes começaram a emergir em outros países da região. Na Costa Rica, autoridades relataram a revogação de vistos por supostos vínculos com a China, enquanto o Departamento de Estado dos Estados Unidos passou a admitir publicamente o uso de restrições migratórias como ferramenta para conter a influência chinesa na América Central e no Caribe.

Segundo Mulino, a prática de intimidação por meio de vistos não seria “coerente com a boa relação” que o Panamá buscava manter com Washington.

Após o caso do Panamá, os Estados Unidos passaram a mobilizar diferentes instrumentos de pressão conforme o grau de alinhamento ou resistência dos governos latino-americanos.

Presidente do Panamá, José Mulino, diz que “a soberania e a independência do nosso país não são negociáveis”. Foto: Reprodução

O primeiro grande teste dessa nova orientação ocorreu com o México. Em fevereiro, o governo Trump anunciou a imposição de tarifas adicionais de 25% sobre produtos mexicanos, enquadrando a medida como resposta a uma suposta “emergência nacional” relacionada à imigração irregular e ao tráfico de drogas. 

Embora Canadá e China também tenham sido incluídos no anúncio, foi o México que ocupou o centro da narrativa construída pela Casa Branca.

Ao reagir à proposta de Donald Trump de rebatizar o Golfo do México, Sheinbaum ironizou a iniciativa e sugeriu chamar os Estados Unidos de “América Mexicana”. Foto: Alfredo Estrella/AFP.

Ao invocar a Lei de Poderes Econômicos em Emergências Internacionais (IEEPA), Washington deslocou uma disputa comercial para o campo da segurança nacional, acusando o Estado mexicano de conivência com organizações criminosas. 

A medida representou uma inflexão relevante: tarifas passaram a ser utilizadas não como instrumento econômico clássico, mas como mecanismo direto de coerção política.

A reação do governo de Claudia Sheinbaum seguiu caminho distinto daquele exigido por Washington. 

Sem aceitar a retórica de submissão, a presidente mexicana combinou negociação diplomática com afirmação explícita de soberania, recusando-se a enquadrar a relação bilateral sob lógica de tutela. 

A suspensão temporária das tarifas, anunciada dias depois, evidenciou o caráter tático da ofensiva norte-americana e a possibilidade de impor limites à pressão exercida pela Casa Branca.

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Brasil na mira da nova Doutrina Monroe

Se no México a coerção assumiu a forma de pressão econômica, no Brasil ela avançou para um patamar mais sensível: a tentativa de interferência direta sobre o funcionamento das instituições democráticas.

Em julho, Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre exportações brasileiras, justificando a medida com críticas ao Judiciário brasileiro e ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). 

Pela primeira vez desde o início da ofensiva, sanções comerciais foram explicitamente vinculadas a decisões internas de um Poder da República.

A iniciativa encontrou eco em setores da extrema direita brasileira, que passaram a defender concessões ao governo norte-americano como forma de aliviar a pressão externa. 

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, foi um dos mais ativos defensores que o governo brasileiro se rendesse ao presidente norte-americano.

“A gente pode começar a dar algumas vitórias [para Trump]. A gente pode começar uma negociação e entregar essa vitória”, sugeriu o entreguista.

A ofensiva tarifária de Trump vinha sendo articulada politicamente pelo bolsonarismo. 

O então deputado federal auto-exilado Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atuava junto a aliados de Trump para apresentar o tarifaço como resposta ao julgamento do ex-mandatário no STF, em meio à pressão da extrema direita brasileira por uma anistia aos golpistas do 8 de janeiro. 

A resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, seguiu em direção oposta. Ao caracterizar a medida como ingerência política e não disputa comercial, o governo brasileiro reafirmou a inviolabilidade de suas instituições e rejeitou qualquer condicionamento externo sobre decisões soberanas.

A aprovação da Lei da Reciprocidade e a posterior reabertura de canais diplomáticos indicaram que o Brasil optou por deslocar o conflito para o terreno institucional e jurídico, impondo limites à escalada sem ceder à chantagem. 

O recuo parcial de Washington nos meses seguintes reforçou a leitura de que a resistência política organizada pode conter — ainda que não eliminar — a ofensiva imperialista.

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Venezuela e a publicação da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América

É na Venezuela, contudo, que a estratégia norte-americana atinge seu grau mais agudo. No caso venezuelano, a pressão deixou de operar prioritariamente no plano econômico ou institucional e passou a assumir contornos de confronto militar direto. 

Desde setembro, os Estados Unidos passaram a realizar bombardeios contra embarcações no Caribe, ações justificadas por Washington como operações de combate ao narcotráfico. As autoridades norte-americanas alegam, sem apresentar provas públicas, que os alvos transportavam drogas.

Para Caracas, as ações configuram uma violação direta do direito internacional e integram uma estratégia de cerco que extrapola sanções econômicas, incorporando o uso explícito da força como instrumento de pressão política.

A ofensiva foi alvo de condenação regional em declaração conjunta aprovada na Cúpula Celac–União Europeia, em novembro. 

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, observa desfile militar em Caracas, em meio à escalada de tensões com os Estados Unidos. Foto: Reprodução

A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos reafirmou a América Latina e o Caribe como Zona de Paz e rejeitou o uso ou a ameaça de uso da força, em recado direto à militarização do Caribe promovida pelos Estados Unidos.

Os Estados Unidos dobraram a aposta e passaram a intensificar ações diretas contra o setor energético venezuelano. 

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Após uma tentativa inicial de fechamento do espaço aéreo, Washington avançou para um bloqueio naval, com a interceptação de embarcações associadas ao transporte de petróleo. 

A escalada foi acompanhada por declarações de Donald Trump, que voltou a acusar o governo de Nicolás Maduro de “roubar” os Estados Unidos e passou a sustentar que Washington teria direito “aos recursos naturais, mas principalmente ao petróleo da Venezuela”.

Em entrevista à TV Grabois, Ana Prestes, cientista política e secretária de Relações Internacionais do PCdoB, avalia que a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela atingiu um patamar inédito na região. 

Militares das Forças Armadas Bolivarianas participam do exercício “Independência 200”, , em Mérida, no oeste da Venezuela, ordenado pelo presidente Nicolás Maduro em meio à escalada de tensões com os Estados Unidos. Foto: Reprodução

Segundo ela, “não há notícias de um ataque tão potente, tão frontal a um país sul-americano no período recente”, ao descrever o cerco militar imposto por Washington e a intensificação das ações no Caribe.

Para Ana, essa escalada se apoia em uma construção discursiva que associa o governo venezuelano a uma suposta rede de narcoterrorismo, narrativa que classifica como “completamente falaciosa, fantasiosa, que não tem nenhuma base na realidade” e que tem servido para justificar o avanço militar e os bombardeios contra pequenas e médias embarcações.

Em entrevista ao programa Brasil no Mundo, da TV Brasil, o jornalista Jamil Chade reforçou a leitura de que a escalada dos Estados Unidos contra a Venezuela se apoia na construção de justificativas políticas para o uso da força. 

Ao comentar precedentes recentes, ele lembrou que, no caso dos bombardeamentos norte-americanos ao Irã, no contexto da guerra com Israel, Washington alegou a existência de armas nucleares como argumento para ataques e sanções.

Na avaliação de Chade, a lógica agora se repete na América do Sul, ainda que com outro pretexto. 

“Qual é o argumento que poderia substituir a questão nuclear? O narcotráfico”, afirmou, ressaltando que não há indícios de que a Venezuela represente esse tipo de ameaça. 

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Na avaliação do jornalista, a ofensiva em curso extrapola a retórica política e configura violações objetivas do direito internacional. 

“É sim um ataque à soberania venezuelana, mas também é um ataque aos tratados internacionais”, disse, ao comentar o fechamento do espaço aéreo imposto por Washington. Segundo Chade, “você não tem o direito de fechar o espaço aéreo de um outro país”.

Na leitura do jornalista Jamil Chade, a escalada em curso não encontra paralelo recente na região. “Nós estamos vendo, sem dúvida nenhuma, uma pressão inédita, eu diria, nos últimos 30 anos na América Latina”, afirmou.

“Eu só consigo me lembrar de algo parecido em 1983, na invasão de Granada, e em 1989, na invasão do Panamá”, relembrou Chade. Ambos os episódios marcaram intervenções militares diretas dos Estados Unidos no Caribe e na América Central, realizadas à revelia do direito internacional e com alto custo político para a região.

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.A nova doutrina de Washington

Em outubro, a publicação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos consolidou, em documento oficial, a orientação adotada por Washington ao longo de 2025 para a América Latina.

No documento, a América Latina e o Caribe passam a ser enquadrados como espaços subordinados às prioridades de segurança dos Estados Unidos. 

A região é apresentada como área estratégica para conter a presença chinesa e garantir o controle de rotas, recursos e cadeias logísticas consideradas vitais por Washington.

“Após anos de negligência, os Estados Unidos irão reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, proteger o território nacional e garantir nosso acesso a áreas geográficas-chave em toda a região”, diz o documento. 

“Negaremos a competidores não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso hemisfério”, completa o trecho.

A diretriz associa essa prioridade à contenção da influência chinesa, à proteção de cadeias estratégicas de suprimentos e à prevenção de “instabilidades políticas” que possam afetar interesses econômicos e geopolíticos de Washington.

A estratégia também explicita que o apoio político, econômico e diplomático dos Estados Unidos será condicionado ao alinhamento dos governos da região:

“Os termos de nossas alianças — e os termos sob os quais fornecemos qualquer tipo de ajuda — devem ser condicionados à redução e reversão da influência adversária externa, desde o controle de instalações militares, portos e infraestrutura crítica até a aquisição de ativos estratégicos, definidos de forma ampla”, afirma o texto.

Para o economista Elias Jabbour, a publicação da nova Estratégia de Segurança Nacional explicita uma atualização da Doutrina Monroe para o contexto da disputa global contemporânea. 

“O que os Estados Unidos estão fazendo é uma atualização da Doutrina Monroe para o século XXI”, explica Jabbour.

“Essa estratégia não é apenas contra a Venezuela, ela é contra a China”, afirmou, ao analisar o reposicionamento dos Estados Unidos no hemisfério. “O que está em jogo é impedir que países da América Latina estabeleçam relações soberanas com a China.”

Nesse enquadramento, a disputa extrapola o terreno diplomático e passa a incidir diretamente sobre a estrutura material das economias nacionais. 

“O que está em jogo é o controle de infraestrutura, cadeias produtivas e recursos estratégicos”, afirma, ao relacionar a doutrina à pressão sobre portos, energia, logística e setores considerados sensíveis. 

Para Jabbour, trata-se de uma estratégia de contenção típica de momentos de perda relativa de hegemonia, em que o uso combinado de coerção política, econômica e militar passa a substituir mecanismos clássicos de consenso.

Na leitura de Jamil Chade, a publicação da nova doutrina confirma que a ofensiva norte-americana passou a operar como política de Estado. 

“Não se trata de episódios isolados, mas de uma política de Estado que está sendo formalizada. O que estamos vendo é a institucionalização de uma estratégia”, disse à TV Brasil.

Nesse desenho, a relação dos Estados Unidos com a América Latina passa a ser regida por critérios explícitos de alinhamento. “O recado é claro: quem quiser apoio dos Estados Unidos terá de se alinhar”. explica. 

A cooperação deixa de ser apresentada como parceria política e assume contornos de subordinação: “a relação passa a ser condicionada à obediência estratégica”.

Para o jornalista, essa lógica rompe com qualquer pretensão de multilateralismo no hemisfério. “Não há espaço aqui para multilateralismo; é uma lógica de imposição. Os Estados Unidos deixam claro que agirão sozinhos, se necessário.”

A publicação da nova Estratégia de Segurança Nacional, somada à escalada de sanções, pressões institucionais e ações militares ao longo de 2025, indica que a América Latina voltou a ocupar um lugar central na arquitetura de poder dos Estados Unidos — não como espaço de cooperação, mas como território a ser disciplinado. 

Diante desse cenário, as respostas regionais deixam de ser apenas diplomáticas e passam a se tornar um teste histórico sobre os limites da soberania, da integração latino-americana e da capacidade dos países do continente de resistir à retomada aberta da tutela imperial.

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