Urariano Mota: O que Liêdo Maranhão diria do coronavírus?

Autor de Marketing dos Camelôs de Remédio, Liêdo, um “genial pesquisador de cultura popular, doutor primeiro sem segundo em povo do Mercado de São José”, faleceu no Recife em 2014

Hoje de manhã me bateu uma saudade sem remédio de Liêdo Maranhão. O genial pesquisador de cultura popular, doutor primeiro sem segundo em povo do Mercado de São José, faleceu no Recife em 2014.

Sobre os camelôs, um dos seus clássicos é Marketing dos Camelôs de Remédio ou o Mundo da Camelotagem. De uma entrevista que ele me concedeu, retiro:

Os camelôs inventam até nomes para as drogas que vendem. Tem uma que é a “Resina da Gerimataia”. Outro: “Banha do peixe-elétrico”. Eu vou te contar uma de um camelô, pra você ver que beleza.

Tinha um que vendia catuaba, que era pra tesão, aquela coisa afrodisíaca. Ali é um ambiente de mulher, de prostituta… então ele com a garrafa na mão, uma “garrafada”, aquele pessoal todo ao redor, a gente chamava ele de Fazendeiro, porque usava um chapelão, era muito gordo. Pois Fazendeiro pegava a garrafa e dizia:

– Isso aqui é pra esses tipos de homem que chega em casa de noite, se deita com a mulher, e fica fundo com fundo, feito casa de vila. – E continuava: – Agora você compra este remédio e dê à nega véia, que a nega véia fica quente que só fundo de chaleira. Porque o homem que compra o remédio e não dá à mulher, duas coisas acontecem: ou ele tá liso, ou ele não gosta da mulher.

Outro camelô dizia assim:

– O homem mais a mulher é como uma balança: quando um sobe, o outro sobe, quando um desce, o outro desce, quando um chega, o outro chega, aí é tutu com tutu e bumbum com bumbum. Eu tenho tudo isso anotado. Eu tenho um livro com tudo isso, Marketing dos Camelôs de Remédio.

Na mesma entrevista, Liêdo me contou:

Microfone é um barraqueiro famoso, do Mercado de São José. Uma vez, um freguês tomando uma sopa no boxe de Microfone, achou uma pedrinha na sopa. Aí o cara reclamou:

– Microfone, nessa sopa tem pedra.

E Microfone respondeu sem pestanejar:

– Olhe, se fosse brilhante, você não dizia nada. Pedra em sopa é um fato natural.

Eu lembro que Microfone, quando foi entrevistado no Fantástico, o repórter perguntou a ele de onde vinha o apelido Microfone. E ele respondeu:

– Vem da minha loquacidade, porque eu sou muito loquaz.

Eu notei que o repórter ficou todo desconfiado, sem saber o significado de loquaz. Feito uma história de um amigo que foi assistir a um filme, e quando saiu, um conhecido perguntou a ele:

– Que tal o filme?

Ele respondeu:

– Rapaz, tem uns bons close-ups.

Mas o perguntador insistiu:

– E o que é close-up?

E meu amigo respondeu:

– Rapaz, deixe eu viver em paz…

Mas não adianta lembrá-lo dessa maneira, porque em mim continua a dúvida: o que Liêdo diria do coronavírus? O que ele falaria do seu isolamento em casa, sem poder ver as moças na praia, sem poder visitar os camelôs no Recife, sem poder almoçar no Mercado de São José? Logo ele, que fazia de seus diálogos com a gente mais simples uma fonte insubstituível de pesquisa.

Então, resiste a pergunta: que falas do povo Liêdo Maranhão registraria sobre o coronavírus? O que Liêdo comentaria sobre a pregação para a morte que vem do presidente da República? O que as mulheres do Recife guardariam para o registro de Liêdo? A gente não pode adivinhar, mas pode muito bem usar a imaginação, que é uma forma de acertar como adivinho. Mas como a imaginação não vem do nada nem é gratuita, eu me inspiro em algumas falas de mulheres do povo que Liêdo registrou:

De Conceição, faxineira:

“Eu só enjeito pisa”

Aí eu disse a ela:

– Opa, eu entendi pica.

E ela:

– Pica eu não enjeito não, doutor.

De uma prostituta, Liêdo fez o registro

Eu não tenho medo de Aids, porque a minha boceta eu lavo muito bem lavada. Só não lavo com solução de bateria.

Então eu penso, imagino que Liêdo podia divulgar, nestas horas de pandemia, estas falas de um popular:

– Eu estou com uma menina nova, mas é só penetração de primeira imagem.

Ou então esta:

– Todo cristão é masoquista de carteirinha! Ele perde um beijo real e diz: “Graças a Deus, eu fiquei com o vídeo”.

Está claro, eu bem sei que essas possíveis falas são aproximações imprecisas, sem o brilho do pesquisador da gente do Recife. Então eu termino com a minha fala no café da manhã de hoje:

– Que falta faz Liêdo Maranhão!

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2 comentários para "Urariano Mota: O que Liêdo Maranhão diria do coronavírus?"

  1. Zel Passavante disse:

    Liêdo é de uma sagacidade ímpar, um grande escritor das boas brenhas do bairro do Recife antigo.

  2. Tive um contato com ele em 2002 ou 2003(eu acredito). Fui com o meu amigo Tcharles, a procura do Liedo Maranhão, para fazer um trabalho sobre a literatura de cordel, para à escola. O encontramos na Praça do Sebo, por trás da Av. Guararapes, no Centro do Recife. Ele foi muito simpático e engraçado, falou também sobre fatos engraçados, dizia, naquele dia, que, alguns conhecidos transavam com os gayz nos bordéis do Centro, nas escadas por não terem dinheiro para pagar às moças kkkkk fora outras resenhas faladas naquele dia… O que era pra ser uma simples entrevista, se tornou uma longa e engraçada conversa. Obrigado por ter lhe conhecido, Liedo.

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