Na ONU, Abbas denuncia ocupação e reafirma esforço pela paz

Em 2012, Mahmoud Abbas foi apresentado no debate da Assembleia Geral das Nações Unidas como o presidente do Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina. Nesta quinta (26), pela primeira vez, foi anunciado como o presidente do Estado da Palestina, estatuto reconhecido ainda em 2012, no mesmo contexto. Na sessão deste ano, a 68ª, Abbas voltou a pedir o compromisso internacional pelo fim da ocupação israelense e por uma paz justa.

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho

Mahmoud Abbas na Assembleia Geral da ONU - ONU

Em 2012, Abbas submeteu à Assembleia Geral da ONU o pedido de reconhecimento da Palestina como Estado observador não membro da organização. No mesmo contexto, denunciou o “perigo catastrófico da colonização racista” dos territórios palestinos, contabilizando 535 ataques terroristas dos colonos contra residentes palestinos e suas residências ou cultivos.

Nesta quinta-feira (26), as denúncias são parecidas, mas a posição da Palestina e da sua representação é bastante diferente. Primeiro, porque reconhecida como Estado por mais de 134 países na Assembleia Geral do ano passado; segundo, porque engajada ativamente em negociações com os israelenses, apesar da demonstração evidente do governo sionista de continuidade da política de ocupação ilegal.

“Daremos uma chance à paz”, reafirmou o governo palestino diversas vezes, frente às críticas internas e externas pela sujeição a mais um processo que não demonstra grandes avanços.
Neste sentido, Abbas fez uma abordagem geral aos empenhos históricos dos palestinos, com ênfase para a assinatura dos Acordos de Oslo, no início da década de 1990. “Fizemos concessões históricas e dolorosas”, disse Abbas em seu discurso, na Assembleia Geral.

“Como representantes do povo palestino, estamos conscientes das nossas responsabilidades com relação ao nosso povo. Tivemos a coragem de aceitar a solução de dois Estados, Israel e Palestina, nas fronteiras de 4 de junho 1967, estabelecendo um Estado em 22% do território da Palestina histórica. Estamos fazendo a nossa parte” para obter a paz, afirmou o presidente.

Para Abbas, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), reconhecida como o único representante legítimo do povo palestino, afirmou a escolha pela paz “como sua opção estratégica”, com o repúdio à violência e a condenação do terrorismo, “especialmente o terrorismo de Estado”, de acordo com o direito internacional humanitário e com as resoluções da ONU, disse Abbas. Desde 1947, a organização aprova resoluções anualmente contra a ocupação da Palestina e em defesa do direito palestino à autodeterminação.

Processo de paz

Os Acordos de Oslo geraram grandes esperanças e altas expectativas, disse Abbas. “Trabalhamos com dedicação para implementar esses acordos, para acabar com a ocupação e realizar a paz. Vinte anos depois, entretanto, a situação é desesperadora. Estamos muitíssimo longe da paz”, afirmou o presidente, ressaltando que os objetivos não foram alcançados, as provisões não foram respeitadas e os prazos não foram cumpridos. Em 1998, previa o acordo, Israel deveria ter se retirado militar e administrativamente dos territórios palestinos.

A construção de colônias é o ponto base do desrespeito pelo processo de paz e contra a solução de dois Estados, afirma Abbas. “A retomada das negociações [no final de julho deste ano] é um passo importantíssimo, mas não pode dar o senso de descuido à comunidade internacional”.

Os objetivos das negociações, os termos de referência e as bases de um acordo permanente de paz são responsabilidade de todos, afirmou o presidente. “A comunidade internacional precisa condenar e colocar um fim às ações que prejudicam as negociações”, com especial ênfase à construção contínua de colônias em nossa terra palestina, sobretudo em Jerusalém Leste, ressaltou.

Abbas fez menção ao consenso retórico internacional sobre a ilegalidade e a ilegitimidade das colônias, e elogiou as diretrizes recentemente estabelecidas pela União Europeia, com a rotulação de produtos israelenses fabricados nas colônias e com a proibição do financiamento de atividades de pesquisa e de outros setores israelenses nos territórios ocupados.

   Foto: ONU

   Presidente palestino Mahmoud Abbas e outros membros da delegação diplomática comemoram o  
   reconhecimento do Estado da Palestina pela Assembleia Geral da ONU, em 29 de novembro de 2012.


Violações e aumento das tensões

O presidente condenou a violência dos colonos sionistas contra os residentes palestinos da Cisjordânia (com o aumento de ataques diretos entre o discurso do ano passado e o deste ano, já que o número de agressões registradas ultrapassa 700), o encarceramento de mais de 5.000 palestinos pelo “sistema [de detenção] da ocupação”, a demolição de milhares de casas, a morte de 27 palestinos “pelas balas da ocupação” (além de 951 feridos), a construção do muro de segregação, os postos de controle militar e o bloqueio total da Faixa de Gaza.

“A história nos mostra que a guerra, a ocupação, as colônias e os muros são medidas provisórias, mas não garantem a paz. Não criam um direito ou dão legitimidade. Impõem um estado frágil de estabilidade, mas alimentam situações já inflamadas”, disse Abbas, que afirmou ainda que essas medidas não podem erradicar a memória viva ou a narrativa, nem abafar o anseio por liberdade. Neste sentido, criticou o que classifica de “pretextos exagerados de segurança” e a escavação de um “abismo de conflito religioso em uma região já sobrecarregada com essa situação”.

“Acredito que Israel queira a paz. Acredito que a maioria do povo israelense apoia uma solução de dois Estados”, disse Abbas. “Nossa mensagem parte da ideia de que os dois povos, palestinos e israelenses, são parceiros na tarefa de fazer a paz. É por isso que estendemos a mão para o lado israelense”, para semear as boas relações.

Com isso, ressaltou, “Israel pode ganhar o reconhecimento de 57 países árabes e muçulmanos (…), enquanto discutimos a realização da paz como um imperativo para alcançar uma paz abrangente entre os países árabes e Israel, de acordo com as resoluções das Nações Unidas”.

Resolução justa e libertação

Abbas ressaltou o histórico de opressão contra o povo palestino desde a Nakba (Catástrofe) de 1948, quando centenas de milhares foram mortos ou expulsos de suas vilas e terras, causando um dos maiores movimentos de diáspora forçada, que colocou famílias inteiras no exílio ou transferiu-as para campos de refugiados em países vizinhos, muitas vezes em situação de extrema insegurança e violência.

“Os refugiados palestinos continuaram, apesar da sua neutralidade, a pagar preço do conflito e da instabilidade na nossa região. Dezenas de milhares foram obrigadas a deixar os campos de refugiados e procurarem por outros lugares de refúgio. Então, alguém merece mais que os palestinos um fim à ocupação?”, perguntou o presidente.

Os que conseguiram permanecer, diz Abbas, continuam a ser “fimes em sua terra, continuam a construir suas instituições apesar de tudo, a construir a democracia, continuam a ater-se aos seus direitos”.

Citando o renomado intelectual Edward Said e o famoso poeta Mahmoud Darwish (ambos palestinos), Abbas disse: “O povo não quer continuar fora de lugar, quer ter liberdade, o presente de Deus à humanidade (…), gozar da graça de viver uma vida normal; queremos cultivar a esperança e ser o que quisermos, um dia”.

O presidente colocou-se como um dos sobreviventes da Nakba, um das “centenas de milhares desraigados e enviados ao exílio, [afetados] pela perda dos nossos entes queridos; sei da dificuldade de construir uma vida nova a partir do nada, na pobreza, fome, humilhação”, com o desafio de afirmar a sua própria identidade. “Renascemos das cinzas da catástrofe, e nos fortalecemos para exigir os nossos direitos”, disse.

“Há 20 anos, assinamos o Acordo de Declaração de Princípios, em nome da OLP (…) e retrocessos sucessivos não abalaram a nossa fé na busca pela paz”, disse. “Alguém duvida que os palestinos também estão em necessidade desesperada por segurança?”

“Minha esperança pessoal é ver o dia em que a paz justa reine, para que a geração da Nakba possa passar aos nossos filhos e netos a bandeira de uma Palestina independente”, afirmou Abbas.

“A atual rodada de negociações parece ser a última oportunidade para uma paz justa. A perspectiva de falha precisa fazer com que a comunidade internacional se empenhe”, continuou. “O tempo da paz para dois povos é esse”, disse Abbas, em sua conclusão.