De Olho no Mundo, por Ana Prestes

Um número assombroso se destaca na análise internacional da cientista política Ana Prestes: mais de duas milhões de pessoas contraíram a Covid-19 no momento em que a doença atingiu praticamente todos os países e tende a aumentar seus efeitos danosos, em especial entre a população mais vulnerável e o presidente dos Estados Unidos retira o apoio do país à OMS. No Brasil, várias embaixadas mobilizam para retirar seus cidadãos do país e no mundo busca-se formas de mitigar os impactos da pandemia.

O mundo superou hoje o número de 2 milhões de casos registrados de infectados por coronavírus. A quantidade deve ser bem maior dado o grande número de subnotificações. Mortes registradas enquanto escrevo são 128.886. Dados do mapa da John Hopkins University.

Várias embaixadas em solo brasileiro estão alertando seus cidadãos de que não haverá voos fretados para deixar o Brasil, portanto quem quiser se precaver do coronavírus deveria partir agora nos voos comerciais ainda em operação. Nas palavras do embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel, em carta, “no Brasil, o número de pessoas infectadas pela covid-19, gravemente doentes e mortos, está aumentando rapidamente. Devido a este avanço, há temores de que a situação aqui se agrave rapidamente. Em alguns estados, os sistemas de saúde já estão muito ocupados. Enquanto isso, o risco de se infectar e adoecer está aumentando”.

Os ministros da Saúde do G20 farão reunião virtual no próximo dia 19 (domingo) para discutirem a pandemia. O grupo hoje é presidido pela Arábia Saudita. Participarão também da reunião, a OMS, o Banco Mundial, a OCDE, O Banco Islâmico de Desenvolvimento (IsDB), a Unicef e outras organizações multilaterais. Hoje (15) há reunião dos ministros das finanças e presidentes dos bancos centrais do G20.

Não é de hoje que Trump está irritado com a OMS. Agora o tema é a pandemia, mas já foram outros, como a questão da saúde sexual e reprodutiva muito recentemente. Países de orientação ultra-conservadora, liderados por Trump, há meses impedem avanços de programas nessa área. Tedros Adhanom não era o nome preferido dos EUA na eleição para secretaria geral da organização em 2017. Os americanos preferiam o inglês David Nabarro. Pesou bastante na eleição o fato de que desde 1948 (criação da OMS) nenhum africano havia jamais liderado a entidade e Tedros foi ministro da saúde da Etiópia de 2005 a 2012. Em seu mandato, houve uma queda de 90% do número de novos infectados por AIDS e a mortalidade infantil foi reduzida em dois terços. Quem nunca se deparou com a foto de uma criança etíope desnutrida? O peso simbólico é altíssimo. Durante a eleição, seus adversários na OMS combateram os feitos com denúncias de corrução e desvios de recursos do Fundo Global para a AIDS, por exemplo. Mas mesmo assim ele foi eleito. Em sua gestão da OMS até aqui, ele já tomou medidas controversas e que incomodaram o establishment, como nomear Robert Mugabe (ex-presidente do Zimbabue, já falecido) como embaixador da OMS para o tema da Tuberculose. Tedros vem trazendo há um tempo verdades inconveniente para o mundo e líderes como Trump não estão dispostos a escutar. Em 2018, em evento dos cem anos da gripe espanhola, o secretário alertou que o mundo estava “muito vulnerável” para emergências de saúde. Ele queria criar uma força tarefa com funcionários, médicos e enfermeiras para o caso de uma pandemia global. Ele chegou a mandar cartas para os países contribuírem com seus funcionários, mas nada saiu do papel. Se confirmada a suspensão da contribuição financeira anunciada ontem (14) por Trump, será uma pancada na OMS, pois a participação desse recurso americano chega perto de um quarto de todo o orçamento da organização. E Trump o faz sob um falso argumento, uma “fake news” de que a OMS não teria alertado sobre os perigos do novo coronavírus. (Com infos da coluna de Jamil Chade). A China e vários países europeus reagiram ao anúncio dos EUA de cortar fundos da OMS.

A pandemia do coronavírus expôs os EUA a uma verdade inconveniente, especialmente para seu presidente. A importância dos trabalhadores imigrantes para a economia americana. Somente nas semanas entre março e abril cerca de 16 milhões de norte-americanos pediram o  subsídio de desemprego. Muitas dessas pessoas estavam em trabalhos essenciais, como as colheitas em vias de começar e preferem aderir ao seguro desemprego e esperar a crise passar. Quem então fará as colheitas? Imigrantes não documentados. Aqueles mesmo que Trump combate desde o início de seu governo. Sem eles, a cadeia produtiva de alimentos não vai andar. Uma medida adotada por grandes produtores para proteger seus funcionários não documentados de “batidas policiais” na quarentena (só trabalhadores de serviços essenciais podem sair às ruas) tem sido uma carta, com o nome do trabalhador, nome do seu chefe e o telefone deste. Se parados por policiais, mostram a carta. Cerca de 400 mil cartas já foram impressas segundo matéria de hoje do O Globo. Outro problema com os migrantes não documentados nos EUA e esse é o caso de muitos brasileiros que estão por lá, é o acesso aos serviços de saúde. As pessoas tem medo de ir a um médico e serem deportadas por falta de documentos.

O FMI divulgou um documento em que chama de “The Great Lockdown” o que considera a pior crise econômica mundial desde a grande depressão. O documento é assinado por Gita Gopinath, conselheira econômica e diretora do departamento de pesquisas do FMI. No texto se lê que “esta crise é como nenhuma outra e há uma incerteza substancial sobre seu impacto na vida das pessoas e das sociedades”. O mais complexo é a mistura das crises na saúde, nas finanças, o colapso dos preços das commodities, e sua interação. Ainda não é possível ver o horizonte a emergir quando todos sairmos deste confinamento, diz a autora. Para quem quiser ler, está aqui.

Na Argentina, uma pesquisa realizada pela consultoria Analogías, revelou que o presidente Alberto Fernández está com uma imagem positiva de 91%. Medindo o grau de atenção da população ao que é dito sobre a crise do coronavírus, verificou-se que 85% prestam atenção no que diz o presidente, 81% no que dizem os especialistas e também 81% no que diz a imprensa. A pesquisa também mediu o que as pessoas acham sobre a taxação de grandes propriedades e grandes empresas e 83% apoia medida. Entre as maiores preocupações está a do aumento dos preços de produtos, com 90% e com o papel dos bancos (68%). A pesquisa foi feita por telefone no dia 10 de abril em 24 províncias, com margem de erro de 2% para baixo ou para cima.

“Estou muito preocupado com as consequências socioeconômicas da crise de saúde covid19 para o povo palestino, particularmente nas comunidades vulneráveis em Gaza”, são as palavras de Nickolay Mladenov, coordenador especial da ONU para o processo de paz no Oriente Médio. Em seu relatório, ele alerta para a possibilidade de a crise inviabilizar o funcionamento da ANP – Autoridade Nacional Palestina.

O conselho editorial do jornal The Washington Post publicou um texto em que afirma que o presidente Bolsonaro está colocando vidas em risco ao minimizara pandemia do novo coronavírus. No texto, o conselho pede que Trump aconselhe seu amigo. O jornal cita ao afrouxamento do distanciamento social na cidade de São Paulo, com 50% na páscoa, como um dos exemplos dos efeitos da postura de Bolsonaro.

A União Europeia resolveu se mexer para impulsionar a produção de uma vacina que consiga conter o avanço do coronavírus. Será realizada no dia 4 de maio uma conferência de doadores para a arrecadação de um fundo de desenvolvimento da nova vacina.

Na Turquia, em um mês desde o primeiro caso de infectado por coronavírus, o país já passou dos 65 mil casos e 1400 óbitos. A posição de Erdogan tem sido semelhante à de Bolsonaro, contrário ao isolamento social. Segundo ele “a roda da economia não pode parar”. Pessoas entre 20 e 65 anos estão liberadas para circular com uso obrigatório de máscaras.

No Japão, a escassez de material de proteção nos hospitais fez com que o prefeito de Osaka mobilizasse uma campanha de doação de capas de chuva.

 Na Nova Zelândia, a primeira-ministra, Jacinda Ardern, ministros e membros do executivo resolveram cortar em 20% seus salários nos próximos seis meses.

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