Aldir Blanc, o cronista do Brasil na corda bamba

Escrevo essas mal traçadas linhas ainda sob o impacto da notícia da morte do Aldir, 73, hoje de manhã. Eu já desconfiava que ele não escaparia.

Ilustração: Mello Menezes

Há coisa de mês e meio, o Evandro, um projeto de concunhado, quis me mostrar seu gosto musical, e a primeira canção que botou pra tocar foi a Resposta ao Tempo do Aldir Blanc e Cristóvão Bastos, um hit de Hilda Furacão, minissérie da Globo. Lá pelas tantas, no verso “E o tempo se rói com inveja de mim”, cravei com certeza científica, quer dizer, cheio de dúvidas: Ahá! O Aldir se inspirou no poeta latino Horácio Flaco (65 a.C. – 8 a.C.)!

Nessa música, Aldir relata um diálogo do Eu lírico apaixonado com o Tempo, com letra maiúscula e tudo. O Tempo zomba do Eu que chora pelos amores perdidos, “porque sabe passar, / eu não sei…”. O Tempo se compara com o Eu, “pois não sabe ficar/ e eu também não sei…”. Quando o Tempo lhe “sussurra que apaga os caminhos/ que amores terminam no escuro, sozinhos”, o Eu responde que “ele aprisiona, eu liberto, / que ele adormece as paixões, eu desperto!”. É aqui que o Eu diz que “o Tempo se rói com inveja de mim, / me vigia querendo aprender/ como eu morro de amor/ pra tentar reviver”. Por fim, o Eu chega à conclusão de que, no fundo, o Tempo “é uma eterna criança/ que não soube amadurecer. / Eu posso e ele não vai poder me esquecer”.

O Aldir, psiquiatra, cronista e poeta cultíssimo, obviamente bebeu na fonte do Horácio Orelhão (Flaccus) para compor essa canção, mais exatamente nos dois versos finais de sua Ode 1.XI, aquela do Carpe diem. Ali, o Horácio exorta uma moça, Leucônoe, a se abster de adivinhar o futuro, aceitando o que a vida lhe oferece agora. Beba vinho, minha filha (como diria o Dráuzio!), e, já que a vida é breve, afaste as longas esperanças. A ode termina assim: dum loquimur, fugerit invida/ aetas: carpe diem quam minimum credula postero. Mais ou menos o seguinte:“A gente conversa e o tempo foge invejoso: goze o hoje, refugue o futuro”.

Impacto

Escrevo essas mal traçadas linhas ainda sob o impacto da notícia da morte do Aldir, 73, hoje de manhã. Eu já desconfiava que ele não escaparia. No dia em que foi internado, encomendei o belíssimo perfil Aldir Blanc – Resposta ao tempo, Vida e Letras, do Luiz Fernando Vianna (Casa da Palavra, 2013), que eu sempre quis ter, mas não tinha. A obra compila mais de 450 canções das mais de 600 que ele compôs.

Faço questão de convidar @s [email protected] [email protected] a ver no YouTube o retrato do Aldir em 14 minutos, gravado há poucos dias, a sangue quente, pelo excelente repórter Rodrigo Vianna.

Parte do que eu sou, devo ao Aldir, Henfil, Millôr, Jaguar, Ivan Lessa, Ziraldo, a turma do Pasquim. Como era legal ler as crônicas ferinas do Aldir, as reflexões do Penteado, no hebdomadário do Sig, e depois ouvir as rimas dele na voz da Elis. Assim de supetão, o que eu posso acrescentar?

Que a dupla Aldir Blanc e João Bosco compôs um dos mais verdadeiros hinos do Brasil, O Bêbado e o Equilibrista, com prenúncios de alvíssaras desconfiadas para depois da ditadura: “Não há de ser inutilmente, a esperança / Dança na corda bamba de sombrinha”.

Junto com João Bosco, Aldir cantou as mazelas do morro e do asfalto, do campo e das cidades com um fraseado perfeito Foto: Divulgação

Até hoje a gente continua a esperar, entre uma e outra nota de repúdio, tantas que fazem sombra ao Sol, contra os assassinos da liberdade que saíram dos túmulos da impunidade para nos espantar! 

Posso dizer também que essa dupla cantou as mazelas do morro e do asfalto, do campo e das cidades, com tal ênfase política que chegou a ser rejeitada pela turma chamada, na época, de “odara”.

Eis a letra de Patrulhando (Masmorra) de Aldir e Paulo Emílio:

Noites assim, de março ou abril,

noite febril, noite-inquisição, grilhão,

negra visão, negro capuz.

Noites assim e o sangue escorrer

por esse chão, poço-escuridão, sair

dessa masmorra nessa sangria,

andar por aí os mortos daqui,

medrar os jardins, corar os jasmins,

depois estancar.

A fome e a Reforma Agrária

Um fato que outros deverão lembrar nos obituários do Aldir foi a violenta crítica que a dupla sofreu de alguns defensores da reforma agrária quando lançaram O Rancho da Goiabada, no álbum Galos de Briga (1976), arranjada pelo maestro Ramadés Gnatalli, cuja primeira estrofe diz o seguinte:

Os boias-frias quando tomam

Umas biritas espantando a tristeza

Sonham com bife a cavalo, batata frita

E a sobremesa

É goiabada cascão

Com muito queijo

Depois café, cigarro e um beijo de uma mulata

Chamada Leonor

Ou Dagmar!

Mas qual foi a crítica? O fato de Aldir ter escolhido a fome como o problema mais imediato dos trabalhadores rurais em vez da luta pela terra!

Tinhorão

Outro episódio engraçado envolvendo a dupla começou em meados de janeiro de 1978, quando o mais rabugento (nem por isso menos genial) crítico da MPB, José Ramos Tinhorão, tascou o João Bosco num artigo publicado pelo Jornal do Brasil intitulado “Tiro de Misericórdia mata João Bosco. Pois viva Aldir Blanc!”.

Ao avaliar o quarto álbum da dupla, Tiro de Misericórdia, Tinhorão escreveu que “o grande artista da dupla é o autor das letras, Aldir Blanc”. “O que nos mostram os versos de Aldir Blanc? Mostram não apenas um poeta moderno, armado em nível de mestre no artesanato das palavras, mas um observador profundo e fino das realidades brasileira e carioca, que sabe jogar com a linguagem popular para atingir ao refinado e preciso humor de um jogral especialista em escárnios e sirventes. A mesma linha de humor social que, passando por Gil Vicente, viria até a nossa linhagem de satiristas iniciada em Gregório de Matos Guerra e continuada em Martins Pena, em Manuel Antônio de Almeida e em França Júnior”.

Fazendo um exercício de premonição sobre a separação da dupla, que só aconteceria quatro depois, após o lançamento do álbum Comissão de Frente, Tinhorão terminou o artigo assim: “Em conclusão – e considerando que o divórcio já foi aprovado – a melhor coisa que poderia acontecer em benefício da família da música popular brasileira mais respeitável seria a separação amigável entre João Bosco e Aldir Blanc. Afinal, como João Bosco há de concordar, fazer letras para boleros, samba-canções americanizados ou sambinhas com plec-plec de acompanhamento de violão bossa nova qualquer um faz. Por que gastar o imenso talento, sentido poético, de humor e de compreensão humana de Aldir Blanc com tão pouco?”

Três meses depois, Aldir Blanc daria o troco, vingando o João, com a canção Querelas do Brasil, composta em parceria com Maurício Tapajós, e gravada ao vivo por Elis Regina para o álbum Transversal do Tempo. Em dois versos, ele opõe opondo três coisas consideradas negativas, mas genuinamente nacionais, como disse o próprio Tinhorão, a três coisas, também brasileiríssimas, muito apreciadas no País: “Tinhorão, urutu, sucuri / O Jobim, sabiá, bem-te-vi”.

Diz Alexandre Felipe Fiúza em sua dissertação de mestrado em Educação pela Unicamp (2001), que “mais do que uma provocação, (o versinho contra Tinhorão) é também uma justa homenagem”.

Querelas do Brasil é um hino nacional a mais, dessa vez contrastando o Brasil com esse ao Brazil com zê, aquele colonizado, que não reconhece os valores próprios do nosso País:

O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil

Tapir, jabuti, liana, alamanda, alialaúde

Piau, ururau, aqui, ataúde

Piá-carioca, porecramecrã

Jobim akarore, Jobim-açu

Oh, oh, oh

Pererê, camará, tororó, olererê

Piriri, ratatá, karatê, olará

O Brazil não merece o Brasil

O Brazil tá matando o Brasil

Jereba, saci, caandrades,

Cunhãs, ariranha, aranha

Sertões, Guimarães, bachianas, águas

E Marionaíma, ariraribóia

Na aura das mãos de Jobim-açu

Oh, oh, oh

Jererê, sarará, cururu, olerê

Blá-blá-blá, bafafá, sururu, olará

Jererê, sarará, cururu, olerê

Blá-blá-blá, bafafá, sururu, olará

Do Brasil, SoS ao Brasil

Do Brasil, SoS ao Brasil

Do Brasil, SoS ao Brasil

Tinhorão, urutu, sucuri

O Jobim, sabiá, bem-te-vi

Cabuçu, Cordovil, Caxambi, olerê

Madureira, Olaria e Bangu, Olará

Cascadura, Água Santa, Acari, Olerê

Ipanema e Nova Iguaçu, Olará

Do Brasil, SoS ao Brasil

Do Brasil, SoS ao Brasil

É o que posso dizer por enquanto, minha gente, enquanto tiro a poeira das reminiscências, com simplicidade, lamento jamais. ACQ, me diz, por que choras? Porque o Aldir Blanc morreu e eu acabo de saber que o Flávio Migliaccio também. Se a segunda-feira começou assim, tenho medo do que será a semana. Vade retro, futuro!

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