Brasil tinha tempo, SUS e integração, ativos que Bolsonaro desperdiçou

Ex-ministra Tereza Campello diz que a crise no mundo do trabalho não é por causa da pandemia, mas por omissão do Governo Federal. Ela condena inação do governo na defesa dos trabalhadores formais, informais e das pequenas empresas. “Parece incompetência, mas não é.”

(Brasília - DF, 09/06/2020) Presidente Jair Bolsonaram é o único agente público sem máscara contra a covid-19. Foto: Marcos Corrêa/PR

Nesta terça-feira (9), foi transmitida ao vivo a conferência O Mundo do Trabalho e a Pandemia, como parte do ciclo Diálogos, Vida e Democracia, promovido pelo Observatório da Democracia. Sob a coordenação de Francisvaldo Souza, presidente da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco (FLC-MF do PSol), o evento ainda tem a participação de outras sete fundações partidárias Maurício Grabois (PCdoB), Perseu Abramo (PT), Leonel Brizola-Alberto Pasqualini (PDT), João Mangabeira (PSB), Ordem Social (PROS), Claudio Campos (PPL) e Astrojildo Pereira (PPS).

A ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome ministra Tereza Campello considerou que o mundo do trabalho é o que mais será afetado por essa “pandemia do Bolsonaro”, no médio e longo prazo. O mais dramático, para ela, é que, antes da pandemia, o Brasil tinha alguns ativos que, por conta desse governo, foram desperdiçamos.

Ela pontuou que havia tempo, porque a doença chegou dois meses depois de outros países; ao contrário de outros países em desenvolvimento, o Brasil contava com o Sistema Único de Saúde, que é “um ativo fundamental”; havia também uma rede gigantesca de assistência social com estados, municípios, bancos públicos e cadastro único, e a possiblidade de articular governo federal e estaduais e unificar a sociedade civil que vem atuando. “O governo Bolsonaro não só desperdiçou esses ativos, como atua permanentemente contra as medidas de isolamento social, num atentado contra a vida da população”, acusou.

Ela considera importante ressaltar esses fatores, para que as pessoas não digam que há uma crise no emprego e uma crise no mundo do trabalho “por conta do coronavírus”. “Não é isso. Temos uma crise por falta de ação do governo federal”, resumiu.

Ela mencionou os países que vivem uma situação dramática como a brasileira, do ponto de vista sanitário, também tiveram que fazer quarentena e fechar a economia, “mas não têm os índices de desemprego que vamos ter no Brasil, porque o governo tomou as medidas pra proteger a população”.

Aqui, explica ela, o governo não protegeu nem o trabalhador formal e informal, muito menos as empresas. “As grandes empresas e os bancos foram protegidos, mas o conjunto da economia ficou completamente desassistido”, observa.

Em sua opinião, tem três coisas fundamentais que o governo não fez, a começar pelas ações concretas para garantir o sustento de quem trabalham na informalidade. Tereza lembra que o governo demorou para tomar medidas em relação à renda básica emergencial, não lançou as medidas, depois anunciou R$ 200 reais que foram alterados para R$ 600 reais após organização da sociedade e dos partidos de oposição, atropelando o governo que teve que acatar. “Essas medidas do governo vieram atrasadas, ele não se organizou para implementá-las, com a população passando fome e indo para a rua”.

“A medida inicial absurda em relação ao trabalho formal foi de que os empresários podiam suspender os contratos sem pagar ninguém”, indignou-se a ex-ministra. Ele observou que este foi o oposto do que o mundo todo fez. “Em quase todo o mundo tomaram medidas para proteger os empregos, ou assumindo a folha de salários integralmente, ou tomando medidas para apoiar as empresas para que não demitissem. O governo Bolsonaro fez o oposto, houve uma crise enorme e ele teve que suspender essa medida e apresentar outra quase tão ruim quanto. Acabou com as empresas demitindo e uma redução da massa salarial muito grande”, afirmou.

A terceira medida não tomada, de acordo com Tereza, foi garantir que as empresas continuassem vivas, mesmo que estivessem com as portas fechadas. Algumas empresas conseguiram ter acesso a linhas de crédito, mas os micro, pequenos e médios empresários não tiveram. “Ao final da crise sanitária vamos ter uma taxa de desemprego gigantesca, uma parcela da população fora do mercado de trabalho, como revelam os dados assustadores da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), com quase seis milhões de trabalhadores que saíram do mercado de trabalho e da população economicamente ativa, porque não tem nem como procurar emprego”, prevê ela.

“Temos que deixar claro que a crise no mundo do trabalho é resultado da falta de ação desse governo”, enfatiza. Essa falta de ação, diz ela, impacta diferentemente os trabalhadores. Se uma parte dos trabalhadores estão protegidos trabalhando de casa, tem uma enorme parcela que está desprotegida em todos os sentidos: da renda, da segurança, demitidos e ameaçados.

“Parece incompetência, mas não é. Isso é fundamental a gente entender”, salienta Tereza. Ela avalia que o governo está sabotando as medidas de isolamento porque isso serve ao discurso de que a pandemia é responsável pela crise econômica. Ele é contra o fechamento da economia.

Ela destaca que o que se vê no mundo todo é que, quem tomou medidas de isolamento para salvar vidas está sofrendo impactos econômicos. Mas os países que não tomaram medidas e não isolaram a população e não salvaram vidas, como é o caso do Brasil, estão sofrendo impactos do mesmo nível. “Não existe a opção salvar vidas ou salvar a economia. O que existe é a opção de salvar vidas e salvar a economia. Mas lutamos e resistimos num ambiente absolutamente adverso”, lamentou.

Tereza também se questionou a que trabalhador as lives da esquerda têm falado. Para ela, trata-se de um percentual pequeno de trabalhadores protegidos da doença e da falta de renda. Ela também percebe uma parcela de trabalhadores de delivery exposto à doença e com renda achatada, e uma parcela grande de trabalhadores totalmente desassistida. Esses vários níveis de exposição se revelaram na morte da criança que caiu do prédio, porque a mãe não foi dispensada pela patroa dos trabalhos domésticos. “Essas desigualdades estão postas na mesa pela pandemia e precisamos aproveitar para discuti-las”, disse.

Tereza também menciona o fato de ter lidado com a percepção, mesmo das pessoas pobres, de que pobreza é só para quem não trabalha. “Portanto, as pessoas eram contra o bolsa família para uma população que trabalha desde os cinco anos de idade, trabalha a vida inteira e nunca teve condições mínimas de renda para viver com dignidade”, disse ela, salientando que, a realidade de gente que recebe renda mínima e não trabalha, pode até existir em alguns países, mas não no Brasil. Em sua opinião, a pandemia traz esse debate de milhões de trabalhadores que são obrigados a viver com renda mínima devido ao nível de vulnerabilidade enorme.

“A pandemia chacoalhou na frente de todo mundo o papel do estado. De repente, existe o fenômeno espiritual de gente vendo Keynes na goiabeira”, acrescenta Tereza, mencionando ainda a valorização dos sistemas de saúde públicos e a manutenção dos empregos nas pequenas empresas, assim como a proteção trabalhista que precisa avançar.

No entanto, ela percebe que, se não houver resistência, Paulo Guedes vai avançar na agenda neoliberal e das reformas. “Ele disse que vai mudar o nome pra tirar a digital do presidente Lula do Bolsa Família, e unificar os programas sociais para simplificar, indo embora abono salarial, aposentadoria rural, direitos protetivos do trabalhador, seguro defeso para pescador… Vão embolar o conjunto do pouco que sobrou da proteção e dar de baciada aproveitando a desorganização”, disse.

Neste sábado, 13/06, às 14h30 continuam as conferências do Ciclo Diálogos, Vida e Democracia, com a mesa Centrais Sindicais e a Crise Brasileira, A mesa será coordenada por Nilson Araújo, da Fundação Claudio Campos e participam o presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Adilson Araújo, o presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antônio Neto, o secretário-geral da Intersindical Central da Classe Trabalhadora, Edson Carneiro Índio, o presidente da Nova Central José Calixto Ramos, o presidente da Força Sindical, Miguel Torres, o vice-presidente da União Geral dosTrabalhadores (UGT) Davi Zaia, a secretária-geral da CONTAG, Thaísa da Silva, o presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Ubiraci Dantas Oliveira e o vice-presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas.

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