Doações e transplantes de órgãos foram reduzidos pela pandemia

Débora Terrabuio diz que houve queda de cerca de 8,4% nas doações e que esse declínio começou a partir da segunda quinzena de março, quando a pandemia de fato chegou ao País

Campanha de doação de órgãos durante jogo do Grêmio e Corinthians. FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Débora Terrabuio, hepatologista do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP, relatou a dimensão do impacto da pandemia sobre as doações de órgãos. Segundo Débora, a pandemia impactou tanto as doações de órgãos como também os transplantes realizados no primeiro semestre do ano.

O medo da contaminação, assim como a dedicação emergencial dos hospitais ao atendimento da Covid-19 teriam contribuído para a redução desses números.

“Até junho de 2020, nós tínhamos cerca de 40 mil pessoas à espera de um transplante de órgão ou tecido. Houve uma queda nas doações, que atingiram em torno de 8,4% [de pessoas], e essa queda começou a partir da segunda quinzena de março, quando a pandemia de fato chegou ao País. No período de janeiro a julho de 2019, foram realizados 15.827 transplantes, enquanto este ano, no mesmo período, foram realizados apenas 9.952 transplantes”.

Assim como a pandemia impactou de forma diferente estados e municípios, a doação de órgãos, também. Houve aumento no Sudeste e Centro-Oeste nos transplantes de fígado e diminuição no Sul e principalmente no Nordeste do País. Com a flexibilização do isolamento social na pandemia, verificou-se também um aumento das doações.

No que se trata de transplante de fígado, o terceiro órgão mais demandado no Brasil , Débora compartilha que não foi afetado de forma significativa, mantendo uma média mensal de cerca de 12 a 15 procedimentos por mês no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP.

Cerca de 26 mil das 40 mil pessoas na fila do transplante estão à espera de um rim. O segundo transplante mais solicitado é de córnea, também o mais afetado pela pandemia, devido ao risco de contágio nesse tipo de cirurgia. No segundo semestre, os números desse tipo de cirurgia devem melhorar.

Transplante hepático

Para evitar a necessidade de transplante, Débora compartilha que a forma mais eficaz é trabalhar na prevenção, já que a maioria das doenças de fígado são silenciosas, “então, na maioria das vezes, a pessoa descobre [a doença] quando ela tem água na barriga, quando o abdômen aumenta de volume, quando os olhos amarelam, quando ela tem uma hemorragia e vomita sangue ou quando ela tem uma alteração mental de confusão que chamamos de encefalopatia”.

A especialista compartilha que o diagnóstico das doenças hepáticas pode ser suspeitado por médicos generalistas da rede básica de saúde, tal como clínicos e ginecologistas, que devem encaminhar o paciente para atenção especializada. Ela diz que a gordura no fígado é a doença mais comum de risco hepático e atingem principalmente pessoas com sobrepeso, obesas, diabéticas ou com colesterol alto. Ela diz que quando a cirrose avança, há quase nada de alternativa de tratamento, senão o transplante.

Débora acrescenta ainda que exames de rotina deveriam incluir também as enzimas hepáticas, já que isso permitiria que o diagnóstico fosse feito precocemente, quando os especialistas ainda poderiam atuar sobre a doença de base e diminuir a demanda para transplante. Ela ressalta, também, que a pandemia dificultou a realização de atividades físicas, levando muitos a engordar e ao sedentarismo, o que deve ter reflexos nas doenças hepáticas.

Diferentemente de outros órgãos, Débora compartilha que a função do fígado não pode ser substituída por uma máquina, tal como a hemodiálise para o rim. Dessa forma, “muitos desses pacientes acabam morrendo durante a espera desse órgão. Para o transplante de fígado, nós temos uma mortalidade em fila que pode chegar a até 30%”.

Ainda assim, Débora compartilha que houve avanço na sobrevida de transplantados: “Hoje em dia, a gente costuma ver a rejeição nos primeiros três meses depois do transplante e as drogas que a gente tem são bastante potentes, elas conseguem acabar com essa rejeição, a gente ajusta as doses das medicações e, na maioria das vezes, o paciente fica bem”.

Edição de entrevista à Rádio USP

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