Médicos alertam para apagão logístico e pós-vacinação da Covid-19
Redução de profissionais de saúde na atenção básica é considerado grave problema logístico para a vacinação, assim como da vigilância de eventuais problemas da pós-vacinação. Descarte de bilhões de materiais vacinais também é um problema logístico.
Publicado 15/12/2020 21:32

Em encontro multidisciplinar sobre vacinas contra a covid-19, ocorrido nesta segunda (14), cientistas deram um panorama da situação, esclarecem dúvidas e discutem principais desafios; live transmitida no Canal USP teve uma das maiores audiências do ano. O evento foi organizado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, pelo Instituto de Estudos Avançados e pela Superintendência de Comunicação Social.
Fornecendo informações básicas sobre como funciona a incorporação de novas vacinas e seus parâmetros do ponto de vista da saúde pública, o professor da FMUSP Expedito Luna chamou a atenção para problemas como a diminuição do número de profissionais na atenção básica, força de trabalho que também deve ser considerada dentro da logística vacinal; a capacidade já excedida da nossa rede de frio, para conservação de imunizantes; e a necessidade de aumentar a capacidade de investigação em um sistema de vigilância de eventos adversos pós-vacinação, também chamada de “fase 4”.

Luna abordou também a seleção de populações-alvo para a vacinação, ou seja, a prioridade dada aos diferentes grupos, que tem critérios já listados pela Organização Mundial da Saúde baseados em princípios e valores como bem-estar humano, respeito, equidade, reciprocidade e legitimidade. Neste sentido, a OMS elenca idosos; portadores de condições que os coloquem em maior risco de adoecer e morrer; trabalhadores de serviços essenciais; trabalhadores de serviços que não podem cumprir o distanciamento; grupos etários com maior risco de transmitir a doença; trabalhadores dos serviços de proteção às fronteiras; e viajantes. O professor mostrou como estas recomendações estão se traduzindo nos diferentes países, como Reino Unido e EUA, que colocaram como primeiro grupo residentes e trabalhadores de instituições de longa permanência para idosos.
No Brasil, Luna informou que os óbitos ocorrem principalmente a partir dos 60 anos, nos pacientes que têm cardiopatias e diabete como comorbidade e, no recorte por raça, na população negra. O professor, que trabalhou no grupo chamado para elaborar o plano de vacinação nacional, mostrou os grupos que foram elencados nas discussões, e contou sobre sua surpresa, no último sábado, ao ver que o plano havia sido entregue, por exigência judicial, mas sem algumas recomendações, como foi o caso da exclusão da população do sistema prisional.
Logística

Logística para a vacinação no Brasil também foi tema de uma mesa específica com Claudio Barbieri da Cunha, professor da Escola Politécnica (Poli) da USP, Paulo Gonçalves, da Universidade de Lugano e Hugo Yoshizaki, professor da Poli.
Nesta sessão eles abordaram outros desafios de uma operação complexa, que exige instalações, pessoas, veículos, equipamentos fixos e móveis e as vacinas.
“É importante enxergar tudo de maneira integrada: não é só a vacina que precisa estar disponível: seringas, agulhas, frascos, diluentes, EPIs, embalagens. E vivemos no Brasil um apagão de alguns desses materiais”, disse Claudio da Cunha.
Os palestrantes também destacaram a importância de pensar no descarte desses resíduos, e da gestão de uma cadeia de suprimentos que precisa estar bem integrada.