“Crise industrial do Brasil vai completar 30 anos”, afirma economista

Em entrevista ao Vermelho, o economista Marco Rocha, da Unicamp, fala sobre o processo de desindustrialização brasileiro à luz do recente fechamento da Ford.

Complexo Industrial Ford em Camaçari (Foto: Alberto Coutinho/GovBA)

A semana começou com uma notícia difícil para um país com 14 milhões de desempregados. A Ford, primeira montadora a se instalar no Brasil, em 1919, anunciou o fim de suas operações em território brasileiro após mais de 100 anos. Serão fechadas as três fábricas em atividade no país, em Taubaté (SP), Camaçari (BA) e Horizonte (CE), com previsão de 5 mil demissões.

A notícia acendeu um sinal de alerta para um fenômeno que preocupa estudiosos da área econômica há alguns anos: a desindustrialização. No comunicado em que anunciou o fechamento das fábricas, a Ford atribuiu a decisão a perdas no contexto da pandemia da Covid-19, encarecimento da produção devido ao real desvalorizado e a um processo de reestruturação global da empresa.

Mas um olhar para o passado breve ajuda a perceber que é mais do que uma questão apenas conjuntural. A Ford, que em 2019 já havia fechado uma planta em São Bernardo do Campo, manterá suas fábricas abertas em dois outros países da América do Sul: Argentina e Uruguai.

O Brasil perdeu outras plantas industriais recentemente. Em dezembro, a Mercedes Benz anunciou o fechamento de sua única fábrica no Brasil, em Iracemópolis. Em setembro, a Sony, uma das maiores empresas de eletroeletrônicos do mundo, anunciou o fechamento de sua fábrica na Zona Franca de Manaus em março de 2021.

Certamente, a crise da Covid-19 trouxe consequências severas para a economia brasileira, agravadas pela transmissão sem controle do vírus facilitada por um governo negacionista. Mas esses são os sintomas mais agudos de uma crise que se arrasta há décadas. A indústria brasileira é pouco competitiva e nunca houve projeto consistente para fortalecê-la.

Em entrevista ao Portal Vermelho, o economista Marco Rocha, professor da Unicamp, falou sobre o processo de desindustrialização da economia brasileira à luz do recente fechamento da Ford.

O Brasil, de fato, vive uma situação de desindustrialização?

O Brasil passa por uma crise industrial que vai completar cerca de 30 anos, não é de hoje. A gente atingiu o ápice da participação da indústria no PIB [Produto Interno Bruto, soma dos bens e riquezas produzidos em um país] no final da década 1980. Daí em diante, teve redução. Não é um processo exclusivo do Brasil. Os serviços, de uma forma geral, cresceram muito no mundo todo. Mas o processo no Brasil tem características muito próprias. É resultado de uma perda de competitividade da indústria brasileira que é de longa duração.

O que geralmente você tem [para justificar] é um debate em torno do Custo Brasil. Isso vira uma espécie de resposta única. É óbvio que a perda de competitividade se revela em torno da questão do custo de uma indústria. É óbvio que você tem um problema de custo, mas, daí em diante, tem que ser caracterizado de forma mais apropriada.

Com o encerramento das operações da Ford, o Custo Brasil voltou a ser mencionado. A imprensa pede reforma tributária, reforma administrativa. Mas já houve a reforma trabalhista, da Previdência. Não era para ter melhorado? Ou o problema é mais profundo?

Com certeza, é muito mais profundo do que isso. O que não significa negar que é importante ter uma estrutura tributária mais organizada. É uma questão importante, mas está longe de ser a raiz do nosso problema. Assim como a questão trabalhista também não é. Essa agenda de microrreformas não vai ao cerne do problema. Primeiro, [a indústria brasileira] é uma indústria que carece de uma infraestrutura mais modernizada. Segundo, houve uma política na economia brasileira pós Plano Real de câmbio extremamente valorizado [ou seja, real mais forte] que induziu a indústria a usar cada vez mais insumos importados. Você tem cada vez mais uma redução dos investimentos em políticas de ciência e tecnologia, políticas de inovação, na própria política industrial. Um dos nossos problemas é a incapacidade de sustentar uma política industrial de longo prazo, com diretrizes claras, metas estabelecidas. É algo que não dá para pensar uma dimensão única do problema, muito menos em termos de uma dimensão ultra genérica como é o Custo Brasil.

É possível dizer que a indústria brasileira está centrada em produzir bens de baixo valor agregado? O Brasil ficou para trás em revoluções como a da Indústria 4.0?

O que aconteceu? Perdeu-se muita participação dos setores mais intensivos em termos de tecnologia. A brasileira é uma indústria que se especializa muito mais em produtos de tecnologia mais madura e bens intensivos em recursos naturais, onde o Brasil tem uma certa vantagem competitiva estabelecida, como é o caso da mineração, celulose. A indústria brasileira se posicionou muito mal já na mudança para a Terceira Revolução Industrial, para o paradigma da microeletrônica. São problemas estruturais, de longa data, relacionados à falta de orientação, à falta de política industrial pós anos 1990. Não se criam diretrizes claras, não conseguimos manter uma política sustentada. Houve muito pouco nos anos 1990, depois da crise cambial também houve alguns esforços. Depois, foram retomados no governo Dilma e governo Lula.

Você pode dar um exemplo de um momento em que o país tentou fazer política industrial? O Inovar Auto, do governo Dilma, é um exemplo?

O Inovar Auto estava dentro do Inova Brasil, que era o programa geral. Acho que foi o último programa do governo Dilma a ser lançado. Essas experiências acabam repetindo problemas recorrentes. Descontinuidade da política industrial, mudança em prazos muito curtos. Uma certa dificuldade em estabelecer e manter diretrizes estratégicas e setores prioritários. Acabam abrangendo outros setores, de forma muito mais relacionada a certas pressões políticas do que opção estratégica. Mas, mesmo assim, algumas deram alguns resultados interessantes. O Inova Brasil teve um prazo muito curto, durou basicamente uns dois anos, o que, para política industrial, é quase nada. Mas induziu certos investimentos no país. Há alguns indícios de que melhorou o tipo de investimento das empresas em inovação.

Após o fechamento da Ford, o Xico Graziano, ex-bolsonarista e representante do agronegócio, disse que era uma indicação de que o futuro do Brasil reside no agro. É possível ou saudável para uma economia prescindir de investir em um setor como a indústria?

Esse é um debate vencido na década de 1930, somente. A agricultura, o agronegócio é incapaz de dinamizar uma economia do tamanho da brasileira. Isso é um completo desconhecimento da complexidade que é o Brasil. [O agronegócio] é um setor que possui pouco encadeamento, exerce muito menos demanda em outros setores do que a indústria. Demanda defensivos agrícolas, maquinário agrícola, mas, se você olha, a indústria demanda toda uma cadeia de setores imensa. Não existe país que se desenvolveu sem ter uma estrutura produtiva complexa. A gente está falando de toda a parte de produção, manufatura e tudo que é atrelado a isso, transporte, logística. E quando você está debatendo agricultura, capacidade de inovação, geração de emprego, você está incluindo também atividades industriais como atividades agrícolas. A produção de tratores, por exemplo.

O governo tratou com certo desdém a saída da Ford do Brasil. O presidente Jair Bolsonaro disse que eles estavam indo embora porque queriam subsídios. Por outro lado, o governo federal atende muito ao agronegócio, concedendo tudo que eles querem …

Inclusive muito subsídio. Muito subsídio mesmo. A questão do pronunciamento do Bolsonaro a respeito dos subsídios, realmente não dá para manter as montadoras aqui dentro baseado só nisso. Como a gente tem um problema estrutural, a gente fica tentando manter na base de subsídios. Como mudar isso, como modernizar? Investindo na nossa infraestrutura logística, em inovação, investindo mais recursos na prática científica, tecnológica e de inovação. É com isso que você consegue reverter esse quadro. Como você não faz isso, acaba ficando refém de uma política de subsídios porque não quer perder aqueles postos de emprego.

A gente teve primeiro a saída da Mercedes Benz, Sony e agora Ford. Você acredita que isso pode se transformar em uma reação em cadeia?

Eu não diria uma reação em cadeia, mas acho que é um processo que vai continuar pelos próximos meses, sim. A gente vai ter uma reorganização das redes de comércio mundial e uma reorientação das grandes empresas nesse período pós-Covid. Nesse contexto, o Brasil está muito mal posicionado. Não apenas devido à baixa competitividade da indústria nacional, mas por não ter um mercado atrativo. É um mercado pouco dinâmico, estagnado, de alta incerteza. Do ponto de vista das multinacionais, eu acho que o Brasil vai ser um mercado muito pouco visado nos próximos anos. Acho que é um processo que vai para além do setor automotivo. A gente esquece, mas na década de 90 foi mais ou menos assim. As multinacionais de petroquímica, durante a privatização, venderam suas participações no Brasil. É um processo bem parecido, onde o mercado brasileiro se torna pouco dinâmico, além de um problema de competitividade sistêmica da nossa indústria.

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