Ações internacionais se unem às vozes por justiça no caso Marielle

Neste domingo (14), completa-se 3 anos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Ações no Brasil e no mundo pressionam por respostas.

Marielle Franco em agosto de 2016 | Foto: Wikimedia Commons

No dia 14 de março de 2018, por volta das 21h, Marielle Franco e Anderson Gomes foram vítimas de um crime político. Os assassinos, que puxaram o gatilho da arma e fugiram noite adentro, foram presos 1 ano após o crime e aguardam julgamento por júri popular. Os mandantes, entretanto, gozam de liberdade e anonimato até hoje. O ato de violência para silenciar Marielle repercutiu no mundo e a falta de respostas levanta velhos questionamentos.

Em março de 2019, após as prisões de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, a organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional entregou 800 mil assinaturas cobrando uma solução completa do crime. Dois anos depois, a exigência por justiça levou 1 milhão de pessoas a assinarem a petição. A Anistia Internacional Brasil vai entregar o documento ao governador em exercício do Rio, Cláudio Castro, e ao procurador-geral da Justiça do Rio, Luciano Mattos.

As informações sobre a petição foram compartilhadas na manhã desta sexta-feira (12), em entrevista coletiva virtual organizada por Instituto Marielle Franco e a Anistia Internacional Brasil. Familiares das vítimas e a Diretora Executiva da Anistia Internacional Brasil cobraram mais transparência na investigação e medidas contra a impunidade. Um dossiê com as principais informações, linha do tempo e questionamentos da investigação foi apresentado, além das ações por justiça e em defesa da memória de Marielle e seu legado.

Criado pela sua família de Marielle com a missão de “inspirar, conectar e potencializar milhares de jovens, negras, LGBTQIA+ e periféricas a seguirem movendo as estruturas da sociedade”, o Instituto Marielle Franco organizou, produziu e incentivou pesquisas, ações sociais e debates ao longo desses 3 anos. Neste mês simbólico, o Instituto Marielle Franco criou a campanha “Março por Marielle e Anderson”.

O intuito é motivar manifestações contra a violência política que levou à morte de Marielle. As ações podem ser individuais ou coletivas para celebrar a vida de Marielle e cobrar respostas por sua morte. Os organizadores reforçam para o cumprimento das medidas de restrição em todas as manifestações. Estão previstas ações virtuais (lives, posts, vídeos, fotos, animações, músicas, poemas etc) e expressões em ambientes físicos (faixas, grafites pinturas de rua, placas na janela, discursos em parlamentos etc).

“O Instituto Marielle Franco convida organizações e indivíduos a promoverem ações no Brasil e no mundo durante todo o mês de março, em uma agenda colaborativa, construída coletivamente. A ação faz parte do ‘Março por Marielle e Anderson’, que conta com diversas atividades em defesa do legado da vereadora e pela punição dos responsáveis pelo crime”, afirma documento divulgado pelo instituto.

Ações no exterior

Com a projeção internacional do caso, as ações por justiça também se espalham pelo mundo. É o caso da Frente Internacional Brasileira (Fibra), que organizou três lives no seu canal de Youtube para o final de semana: “Marielle Franco: Sementes pelo Mundo”, “Sarau Internacional Sementes” e “Microfone Aberto: Marielles pelo Mundo”.

A Fibra foi criada em 2016, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, com a participação de diversos grupos ativistas ao redor do mundo. Hoje, já são mais de 90 coletivos que integram a Frente em 26 países. De maneira voluntária, os coletivos têm liberdade para se organizar e endossar movimentos e manifestações de acordo com suas bandeiras.

Em conversa por e-mail, os integrantes afirmam que “o grande desafio é combater o pessimismo, a desesperança. Essa é batalha diária interna dos coletivos para que ninguém esmoreça ante os revezes que se tem que enfrentar como consequência do desgoverno do Brasil pós golpe.”

Mesmo com o longo período sem resposta dos mandantes do crime contra Marielle e Anderson, o movimento mantém-se empenhado em angariar cada vez mais aliados em busca de Justiça. “O assassinato brutal de Marielle causou impacto profundo em praticamente a totalidade dos movimentos e militantes internacionais por direitos humanos, justiça social e liberdade”.

A agenda defendida por Marielle encontrou reconhecimento no exterior. Direitos humanos, justiça social e liberdade são questões postas ao redor do mundo e casos de silenciamento causam uma reação negativa na comunidade internacional. As crises sanitária, social e econômica contribuem ainda mais para uma visão de um Brasil em colapso.

“Como imigrantes, isso nos torna ainda mais vulneráveis a todo o tipo de preconceitos, discriminações e violências, nos torna alvo de piadas cotidianas como se fôssemos exemplo ambulante da incompetência e desonestidade do grupo que hoje comanda o Brasil”, afirmam os integrantes ao analisar o momento atual do país.

Na Itália, o assassinato de Marielle e Anderson chamou a atenção da Associação Taiapaia, em Borgo Valsugana, que está situada em uma área montanhosa no norte da Itália, na província de Trento, com população próxima a 7 mil habitantes. A associação atua há um ano e meio por meio da educação popular em busca da conscientização e transformação da sociedade, com 50 associados e outras 40 pessoas que eventualmente participam das atividades do grupo.

A integrante do conselho diretor da Associação Taiapaia, Paola Comin, em conversa por e-mail, explicou um pouco mais sobre os princípios que norteiam a associação. Os tópicos principais trabalhados por meio de diálogo e ações sociais são: economia, meio ambiente, crise climática, preservação da natureza e direitos humanos.

A criação recente de uma horta comunitária é citada por Comin como um exemplo dessa transformação local com origem em discussões sociais. No lugar do lucro como prioridade, a associação prega o “cuidado” como elemento necessário nas relações da sociedade.

Marielle era um exemplo de cuidado. Os debates sobre a vida na periferia carioca incentivados por ela colocaram agentes sociais em movimento e provocaram um levante de vozes ignoradas. A vereadora iniciou um processo de transformação estrutural no Rio de Janeiro, mas a trajetória foi interrompida há 3 anos. Paola Comin e a Associação Tapaia reconheceram no caso Marielle problemas que assombram o mundo.

“O caso da Marielle se relaciona com todas as pessoas silenciadas, marginalizadas, empobrecidas e oprimidas pelo capitalismo patriarcal e predatório e enfim assassinadas por ter lutado contra isso, por ter incomodado as elites, por não ter a pele branca, por não se reconhecer no sistema binário, por ser indígena, ou simplesmente pelo fato de existir”, analisou.

A associação organizou uma reunião virtual, na qual uma palestrante pesquisadora em temas de gênero e feminismo irá promover o debate acerca do caso Marielle. A convidada morou no Rio de Janeiro e possui em sua formação um estágio no Centro de Teatro do Oprimido.

“Ela já se encontrava no Brasil quando aconteceu o assassinato de Marielle, então os assuntos básicos do patriarcado, gênero, feminismo e interseccionalidade serão atualizados no trabalho político e nas lutas que a Marielle conduzia, nos sentimentos vivenciados com a sua morte, no seu legado e nos movimentos que daí estão crescendo.”, afirmou Comin.

Há três anos, o Brasil ocupou a imprensa internacional com o assassinato de Marielle e Anderson. Hoje, a imagem do país continua a sofrer reveses diante da comunidade internacional. Paola Comin cita a crise sanitária e os discursos contra a proteção ambiental como exemplos, mas frisa também a preocupação com os direitos das mulheres, especificamente na luta pela revogação da Lei de Alienação Parental (LAP).

“Nós sempre olhamos com grande inspiração a riqueza e capacidade de atuação e articulação dos movimentos políticos e populares do Brasil, as suas lutas por presidir a democracia, a riqueza e qualidade da produção acadêmica e da pesquisa no campo. Mas estamos de olho nos muitos retrocessos em todos os setores da sociedade brasileira”.

Todas as iniciativas podem ser cadastradas na plataforma da campanha. No portal eletrônico, é possível consultar um mapa com manifestações ao redor do mundo.

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