Fome atinge 1,2 milhão de pessoas no Rio de Janeiro

Os mais afetados por este drama são os moradores de favelas e a população de rua. Os que passam fome no Rio de Janeiro encheriam quinze vezes o estádio do Maracanã.

ONG Ação da Cidadania distribui alimentos no Aterro do Flamengo, zona sul da capital fluminense . Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil Silva/Agência Brasil)

A fome é um problema grave de abrangência nacional, mas o Rio de Janeiro tem dados especialmente alarmantes. O número de pessoas que estão passando fome no segundo estado mais rico do Brasil cresceu muito nos últimos anos e atingiu um patamar impressionante.

Cerca de 1,2 milhão de cidadãos fluminenses não tem o que comer, o que representa 6,8% da população, de acordo com o projeto Mapa da Fome. Esse número equivale a quinze estádios do maracanã lotados de pessoas com fome hoje no Rio de Janeiro.

São cidadãos e cidadãs que atualmente dependem de doações para sobreviver. A situação dessa parcela da população do Rio de Janeiro é tão dramática que, segundo um professor da rede pública que atua na Baixada Fluminense e concedeu entrevista à rádio Band News, crianças tem consumido carne de gambá para se alimentar.

Imagem de pessoa separando ossos que são rejeitados pelos açougues, no RJ. Imagem do jornal Extra

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Os mais afetados por essa realidade são as pessoas em situação de rua e os moradores de favelas, que veem o problema se agravar a cada dia. De acordo José Bento Vidal, morador de 58 anos da Rocinha: “Eu não consigo me alimentar bem, vendo o almoço para comprar a janta. Às vezes, eu só como pão com mortadela. Já passei de dois a três dias sem ter nada para comer”, disse à Folha de S. Paulo.

A deputada estadual Enfermeira Rejane (PCdoB) vem chamando a atenção para esse crescimento da fome e da insegurança alimentar no Brasil e no Rio de Janeiro, lembrando que quem mais sofre com esse cenário são mulheres: “O Brasil voltou ao mapa da fome e as mulheres são as primeiras a serem demitidas, a terem uma piora na condição de vida e dificuldade para se alimentar. É preciso que a gente fale que as mulheres não têm o botijão de gás nem o alimento para cozinhar. Precisamos fazer com que essa reflexão chegue até as autoridades e que a gente mude esse quadro social que é muito perverso para nós mulheres, sobretudo, as negras”. 

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A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ), também reforça que são as mulheres – principalmente as negras – que mais sofrem com a fome e com a insegurança alimentar no Brasil e no estado. De acordo com a parlamentar comunista, “a fome tem endereço, gênero e cor. Atinge em maior parte os lares sustentados por mulheres e com mais força quando são mulheres negras. Ela é maior nas casas em que o responsável pelo sustento está desempregado(a). Ela é filha do desprezo dos governantes que viraram as costas para a maioria do povo. Como dizia Betinho, “a alma da fome é política”.

O aumento da fome no Brasil é consequência do governo Jair Bolsonaro e seus aliados. A quantidade de pessoas que vive hoje em situação de insegurança alimentar é gigantesca no país.

Manifestação contra a fome. Reprodução internet

Apenas entre os anos de 2020 e 2022, o Brasil amargou um retrocesso de três décadas e viu o número de pessoas com fome saltar de 19,1 milhões para 33,1 milhões, é o que retrata o Inquérito Nacional Sobre Insegurança Alimentar, pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAM).

Esses números mostram que o país retrocedeu ao patamar da década de 1990 no que diz respeito à fome e à insegurança alimentar. Hoje, a maior parte da população brasileira é assolada por algum nível de insegurança alimentar; de cada 10 famílias no país, apenas quatro tem acesso integral à alimentação.

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De acordo com o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o desmantelamento promovido por Jair Bolsonaro das iniciativas de combate à fome construídas nos governos Lula e Dilma está gerando consequências graves para milhões de brasileiros e brasileiras: “O Brasil contou com diversas estratégias de combate à fome. Nos governos Lula e Dilma o combate à fome era prioridade, com o aumento da renda dos mais pobres, incentivo a programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), fortalecimento da agricultura familiar e do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea). Todas essas estratégias foram desmanteladas pelo governo Bolsonaro”, afirmou Padilha em um artigo publicado pela Rede Brasil Atual.

A deputada federal Jandira Feghali ressalta que o trabalho de duas décadas foi destruído pela gestão Bolsonaro, o que, segundo a parlamentar do PCdoB/RJ, evidencia a necessidade de derrotar o bolsonarismo nas urnas em outubro deste ano: “O trabalho de quase duas décadas foi inteiramente abandonado e a democracia sendo permanentemente fragilizada. Este não é o país que queremos. Não é o Brasil que nosso povo merece. Estamos no limite do inaceitável. Não pode mais haver dúvida sobre a necessidade de mudança no Brasil. Não posso crer que a fome do outro não sensibilize as pessoas que tem refeição todos os dias. Que a desnutrição dos filhos de outras mulheres não toque o coração das mães brasileiras. O que falta para que a sociedade se movimente e impeça a consolidação da barbárie e nos devolva a possibilidade de construirmos uma civilização onde possamos olhar uns para os outros sem sentirmos vergonha da nossa omissão?”, pergunta Jandira.

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