A namoradinha porcina do Brasil

“O namoro de Regina Duarte com Bolsonaro, com aliança na mão para assumir a Secretaria de Cultura, acorda na gente estas linhas.”

De uns tempos pra cá, a carreira artística de Regina Duarte tem sido mais carreira que artística. Em 2002, foi usada na campanha eleitoral de José Serra, quando gravou em vídeo a frase que marcaria sua história: “Eu tenho medo”. O medo seria de que Lula fosse eleito — o que acabou acontecendo. Mas não aconteceu o retrocesso da economia brasileira, do qual ela possuía “medo”. De lá até hoje, a sua arte vem caindo, caindo, enquanto ela pensa que vai subindo, subindo, como na clássica música Conceição, na voz de Cauby Peixoto:

“Se subiu
Ninguém sabe, ninguém viu
Pois hoje o seu nome mudou
E estranhos caminhos pisou”

Em estranhos caminhos ela seguiu para a direita, para a negação de valores democráticos, dos atores e atrizes brasileiros. Eu me lembro, nós lembramos muito bem: Regina Duarte apoiou publicamente os ruralistas na questão da demarcação de terras indígenas e quilombolas no Estado de São Paulo. Falam e provam que ela e o marido, Eduardo Lippincott, são criadores de gado da raça Brahman, em Barretos, na região de Ribeirão Preto, no norte de São Paulo.

E mais lembramos, desta vez mais perto. Em outubro de 2018 apoiou Jair Bolsonaro na campanha para presidente do Brasil. Dessa vez, venceu para perda do povo e da arte. Com a saída do nazista da Cultura, Bolsonaro lhe ofereceu o posto vago. Quanto riso, quanta alegria vaga. Chegamos a ter uma esperança tática em algumas áreas de cultura. Mas agora, contra qualquer ilusão, Regina Duarte convida a pastora Jane Silva para o cargo de adjunta da Cultura.

Quando olhamos o passado dessa pastora, notamos que a escolha de Regina é profética. A ilustre adjunta da Cultura, já nas eleições de 2014, fez campanha contra Dilma Rousseff, a favor do então candidato Aécio Neves. Em 2015, ela militou pela prisão do ex-presidente Lula e pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Ou seja, trata-se de uma pastora evangélica de interesses bem terrenos, no campo da extrema-direita. Faz claro sentido.

Em vídeo, numa entrevista em que arremeda mais uma vez o papel da Viúva Porcina, Regina Duarte responde sobre política brasileira. Não se sabe se por deficiência de saúde ou de tosca representação, ela fala com voz de bêbada:

“É uma tragédia. E a gente tem que ser esperto. E escolher o melhor caminho pra escapar da morte trágica”.

Mas devo corrigir o que me pareceu antes ser voz de bêbada. Na sua sofisticação cultural, essa é a representação de Regina Duarte para uma mulher do interior do Nordeste. Compreendemos. Para ela, nordestinos do interior devem falar tão mal, que falam com voz de bêbado.

E olhem só que estranha coincidência. Para a telenovela Roque Santeiro, para o papel da Viúva Porcina, a TV Globo fez testes com a imensa Fernanda Montenegro, que não se adequou à caricatura da Porcina. Sobrou para Regina Duarte, que se excedeu de modo caricato, aos gritos histéricos de bordão, ridícula, que a grossura nacional interpretou como ações de comediante.

Que maravilhosa lição, que voltas dá a vida. Hoje, na altura dos 90 anos, Fernanda Montenegro nos fala na autobiografia Prólogo, Ato, Epílogo:

“Por mais longa que seja a vida de um ator, ele não tem como declarar: ‘Estou pronto’. E se fizer, não é do ramo, Embora no teatro se repita, dia após dia, o mesmo gesto, a mesma intenção, o mesmo texto, dentro da mesma encenação, repentinamente uma ‘faísca inesperada de percepção’ revela outra zona a seguir – que depende de sua inquietação, Em Reflexões de um comediante, de Jacques Copeau, lê-se sobre essa ‘anomalia’: ‘Nisto consiste o mistério – que um ser humano possa pensar e tratar a si próprio como matéria de sua arte. Ao mesmo tempo agir e ser o que é manobrado. Homem natural e marionete’”. E vai adiante Fernanda Montenegro:

“Pela vida afora, acumulei algumas observações. São intuições. Quando temos muitas certezas sobre o nosso modo de agir, em cena ou na vida, corremos o risco de ficarmos circunscritos a uma técnica que nos imobiliza naquele processo domado, dominado, que nos congela. É a ponte com o imprevisto, o improvável, o absurdo que, muitas vezes, nos leva a renascer. No palco, atingir o impensável é fundamental. Essa é a batalha”

Linda, não é? E mais aqui, ao fim do livro, ela nos deixa estas linhas para todo artista no mundo:

“Os atores têm uma herança oficiosa, subliminar, de transferência na aprendizagem que nos liga através dos tempos – um ator que viu outro ator, que trabalhou com outro ator, que antecedeu a outro ator, que foi discípulo de mais outro e, antes, de muitos outros e outros. Trago em mim e conservo gestos, entonações, sentimentos de atores que vi pela vida.”

Salve, Fernanda Montenegro! Salve, Bibi Ferreira, salve, Paulo Autran, salve, Procópio Ferreira, salve, Grande Otelo, salve todo artista no seu digno ofício. Só não se salva Regina Duarte. O que vale dizer: quem nasceu para Porcina, jamais chegará a Fernanda Montenegro. Pode chegar à Cultura de Bolsonaro, a representar a canção na voz de Cauby Peixoto: tentando a subida, desceu. Regina Duarte bem que podia ser chamada de Conceição de Cauby. Com o devido perdão ao inesquecível cantor.

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