Protocolo da cloroquina confunde política com medicina, diz Marcos Boulos

O infectologista Marcos Boulos explicou ao Vermelho porque a polêmica sobre a cloroquina é inócua. Para ele, o tema só serve para fazer política e oferecer uma esperança que não existe.

O Ministério da Saúde incluiu hoje (20) a cloroquina, e seu derivado hidroxicloroquina, no protocolo de tratamento para pacientes com sintomas leves de covid-19. De acordo com o documento divulgado pela pasta, cabe ao médico a decisão sobre prescrever ou não a substância, sendo necessária também a vontade declarada do paciente, com a assinatura do Termo de Ciência e Consentimento.

Em entrevista ao Vermelho, o infectologista Marcos Boulos reafirmou que não há nenhum dado que mostre que a cloroquina é eficaz para vírus. “Não tem dados que substanciem essa decisão do governo”.

O infectologista Marcos Boulos

Ele analisa que esse tratamento foi inserido por uma questão mais política, que técnica, especificamente. Ele se refere ao fato do presidente Bolsonaro insistir no uso deste remédio para tratamento de covid-19, desde que o presidente Donald Trump, dos EUA, fez o mesmo comentário, embora também não seja médico. Boulos lembra, no entanto, que as autoridades em saúde daquele país conseguiram fazer Trump recuar, enquanto aqui, o tema levou a muitas consequências críticas como o atual protocolo.

De acordo com o médico, as pessoas estão confundindo saúde com política. Na medicina, quando se usa um remédio é preciso haver uma base científica a partir de estudos sérios e aprofundados. “Estudos não são curtos. Nós temos uma doença de poucos meses e as pessoas já usam um medicamento como se fosse salvador”, explica.

Ele também observa que não existe nenhum remédio bom para vírus, porque o vírus se esconde dentro da célula. Então, independente do medicamento, não dá para tratar vírus, quando não há dados específicos para se fazer isso. “Agora, cada um faz o que quer. Nós tivemos etionamida [remédio para tuberculose] usada aqui uma época, que é uma coisa absurda, porque as pessoas achavam que beneficia”.

Delírios e irracionalidade

“Então, a questão política sobrepassa a questão técnica”. Para ele, o remédio está sendo protocolado para tratamentos, unicamente porque o presidente da República está mandando. “O presidente é autoritário, ignorante, não conhece o assunto, e falou que vai salvar vidas com cloroquina. Os bolsominions confundem a política com a questão de saúde pública e defendem essa posição. O que ele fala contra o isolamento é uma ignorância, tanto quanto o remédio”.

O infectologista que participa do grupo de trabalho contra o covid-19 do governo do estado de São Paulo, nem imagina qual seria o motivo do presidente para insistir nisso, “senão baseado em delírios”. “Não sei qual seria a motivação política dele, porque não é racional o que está acontecendo, então eu não gostaria de especular”, salientou.

Boulos acrescenta, ainda, que ver pessoas que não entendem absolutamente nada de saúde interferirem em decisões de saúde “é uma coisa muito estranha”. “O ministro atual é militar e segue as ordens do presidente sem nenhuma base”, afirmou.

Ele também destacou o fato de todas as entidades médicas do país, sem nenhuma exceção, falarem contra um protocolo para esse tratamento, assim como todas as universidades. “As pessoas que estão falando, falam em nome próprio. São pessoas que estão na universidade, têm sua clínica privada, mas não têm nenhuma autoridade científica pra isso”.

Placebo

É verdade que hospitais já vinham usando o remédio, admite ele. Mas Boulos relata que tudo não passa de um “telefone sem fio” da China. Alguns profissionais usam, porque, no início da epidemia, os chineses acharam que podia ser bom. Em seguida, eles desmentiram, viram que não era bom, que, quando aumentaram a casuística, o remédio não tinha o efeito que achavam que tinha.

A partir desse incidente remoto, este estudo foi replicado em vários lugares, e, em quase todos mostrou que o remédio não traz nenhum benefício, em alguns casos, uma toxicidade importante. “Então, o uso não foi consensuado, mas as pessoas ficaram com aquela primeira informação, embora já tenha sido desmentida há muito tempo”.

Mas ele diz que, quem quer usar, pode usar. Em doses baixas, o remédio é inócuo, como já é usado em doenças reumatoides, por exemplo. “O que não pode é dizer que salva vidas, pois não tem nenhuma eficácia comprovada”. Do mesmo modo, ele diz que o protocolo também não tem importância nenhuma.

Protocolo

Acompanhando o protocolo, o Ministério da Saúde também publicou um termo de consentimento a ser assinado pelo paciente sobre os riscos dos medicamentos. Segundo a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, o termo deixa a responsabilidade sobre possíveis efeitos colaterais nas mãos do paciente. A medida tenta evitar que um paciente processe a União em caso de fortes efeitos colaterais por causa da cloroquina.

O próprio governo alerta que não há resultados de “ensaios clínicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da covid-19”.

Ainda assim, ao atualizar as orientações para o uso dos medicamentos, o Ministério da Saúde considerou o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de outras doenças infecciosas e de doenças crônicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A droga é, originalmente, indicada para doenças como malária, lúpus e artrite.

De acordo com a pasta, como também não existe, até o momento, outro tratamento eficaz disponível ou terapia farmacológica específica para covid-19, as novas orientações buscam uniformizar as informações para os profissionais da saúde no âmbito do SUS e orientar o uso de fármacos no tratamento precoce da doença.

No Twitter, o presidente Jair Bolsonaro comentou o novo protocolo: “Ainda não existe comprovação científica, mas [a cloroquina está] sendo monitorada e usada no Brasil e no mundo. Contudo, estamos em Guerra: ‘Pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado'”, escreveu.

Gravidade média e alta

No final de março, o Ministério da Saúde incluiu nos seus protocolos a sugestão de uso da cloroquina em pacientes hospitalizados com gravidade média e alta. A pasta também distribuiu ao menos 3,4 milhões de doses do medicamento para os sistemas de saúde dos estados.

Já o Conselho Federal de Medicina (CFM) não recomenda o uso da droga. Mesmo assim, o Governo chegou a zerar o imposto de importação do medicamento. Por não concordarem com esse protocolo, entre outros fatores, os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich acabaram deixando o governo.

Estudos e óbitos

Estudos no mundo todo refutam a eficácia da cloroquina. As pesquisas são mais claras quanto aos efeitos colaterais do que quanto aos supostos benefícios. O maior estudo feito até hoje é da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que contou com a participação de mais de 1,3 mil pessoas em Nova York. O artigo publicado aponta que pacientes da covid-19 que foram tratados com hidroxicloroquina não apresentaram resultados melhores do que os que não receberam o medicamento.

Pior, os cientistas notaram “uma associação de aumento de mortalidade geral” em pacientes tratados apenas com a cloroquina. No Brasil, um estudo sobre cloroquina precisou ser interrompido em Manaus por questões de segurança após 11 pacientes morrerem. A pesquisa da Fiocruz Amazônia e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) notou em apenas três dias, que pacientes que tomavam a dose mais alta da cloroquina apresentavam arritmias cardíacas como efeito colateral.

Durante coletiva de hoje do Ministério da Saúde para atualização sobre a situação do novo coronavírus, o secretário-executivo, Élcio Franco, garantiu que a decisão da pasta tem respaldo científico, apesar dos diversos estudos que contestam a eficácia do medicamento e apontam diversos efeitos colaterais. “Esse trabalho vem sendo feito já há algum tempo e em momento algum, algum princípio ético ou científico foi negligenciado ou foi conduzido somente por determinação de alguma autoridade”, disse.

A secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do ministério, Mayra Pinheiro, ainda acrescentou que “nós não podemos esperar evidências” [sobre a eficácia do medicamento], em nome de uma “equidade no acesso à saúde”. “Não podemos permitir que o Brasil seja dividido entre pessoas que podem ter acesso em hospitais privados e brasileiros que não terão acesso no âmbito do serviço de saúde”, concluiu.

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