Por um currículo pandêmico

Nosso currículo pandêmico é multidisciplinar, é plural pois não respeita as barreiras impostas pela divisão das “disciplinas”.

Enquanto a pandemia de Covid-19 segue deixando um rastro de morte, há os que insistem na balela das aulas online e na suposição de que seja possível transferir a escola e a sala de aula para o ambiente virtual. Quando isso ocorre, alimentamos a ideia de que a escola serve apenas como um imenso armazém de conteúdos e fórmulas, tratamos estudantes como corpos vazios a espera de um recheio “valioso”. Esquecemos que no cruzar de corpos, gestos, cheiros, andares apressados ou descompromissados, aprendemos muito mais sobre a vida e sobre nós mesmos. Nesse sentido, transformar a casa numa puxadinho da escola e achar que está tudo resolvido é desumanizar as relações de aprendizagem, é transformar estudantes e professores em objetos de um jogo mentiroso. Quem aí lembra das fórmulas do período escolar? Mais fácil lembrar das tretas, das primeiras paixões e desse autoconhecimento que o vivenciar a escola nos proporciona.

O que então nos ensina esse currículo pandêmico? A lavar as mãos com mais frequência, a usar máscara ao sair de casa, a desviar das pessoas na rua e manter uma distância segura, a dialogar com mais frequência com quem convivemos, a cuidar do outro e ampliar nossa capacidade de compreensão sobre os nossos problemas e os da coletividade, a perceber que não adianta apenas uma parcela se comprometer, nem também julgar o outro por não ter condições de esperar. Nos ensina a buscar uma história, um livro, uma narrativa, a se sensibilizar com as dores alheias e também a ajudar mais em casa, pois o que se faz ainda é muito pouco. Nos dá também a possibilidade de experimentar um outro tempo, uma outra relação com esse valor tão fugaz e que marca nossa breve passagem pela terra. O que faríamos se tivéssemos mais tempo? Para os que têm filhos pequenos em casa como eu, certamente brincaríamos muito mais com as crianças ao invés de manda-los para a creche todos os dias. Mesmo sabendo dos milhares de compromissos, das escritas atrasadas, das leituras ainda por fazer, da pesquisa ainda por concluir – como resistir ao “papai vem brincar comigo”? – A promessa é de que amanhã as lojas estarão abertas e que o futuro será o mesmo de sempre. No meio disso tudo, a pandemia nos ensinou a “ralentar”, termo usado na música quando a gente diminui gradativamente a velocidade do andamento. Nesse ralentar, outras paisagens se tornaram visíveis, outros gostos e outras vivências também nos ensinaram a enxergar o que a velocidade absurda imposta pelo capitalismo selvagem tapou. Aquele borrão de cores que não identificamos devido a velocidade, se tornou visível e apreciável, certamente nos tornamos outros.

Em contrapartida, as mais de 50.000 mortes trouxeram muita dor e expuseram a fragilidade dos sistemas de saúde, não só daqui mas de todo o planeta. A ciência como “verdade absoluta” também tem seu tempo e, como nós, também não sabe a cura. Famílias devastadas, amigos doentes internados, pedidos de oração e força. Aprendemos a ser mais solidários, a olhar menos para nosso umbigo. Quanta gente na rua em ações de doações, quantas histórias de vida vamos conhecendo que não conhecíamos pois estão silenciadas, sufocadas pela lógica meritocrática que castiga principalmente os corpos pretos. E assim, a pandemia nos fez sofrer com Floyd, com o menino João Pedro e tantas outras vozes silenciadas pelo Estado. Nem a pandemia sensibilizou as forças do Estado a frearem o ímpeto assassino, a humanidade não reside ali.

Nosso currículo pandêmico é multidisciplinar, é plural pois não respeita as barreiras impostas pela divisão das “disciplinas”. Aprendemos a ler os gráficos, a analisar a curva e a perceber a relação entre o descaso com políticas públicas e a precarização da vida de uma população. Aprendemos também que um programa de governo construído pelo ódio não será exitoso, que quem apoia tortura é criminoso e que no fundo a mulher sempre esteve certa. A mamadeira falocêntrica, o kit gay e todos essas baboseiras foram só cortina de fumaça para elevar ao poder gente que está ali para “defender o seu” ou “os seus” lembrando que a família é grande.

E como não poderia deixar de ser, o currículo pandêmico, mesmo sabendo que as escolas seriam foco de contaminação, coloca na conta dos professores as fragilidades que cada família tem em educar e dialogar com os próprios filhos. O botão que se apertava para desmaterializar aquele sujeito em formação e jogá-lo na escola todos os dias está emperrado. As direções escolares não tardaram a cobrar os vídeos editados, o domínio das ferramentas digitais, as máquinas com super processadores e os pacotes de dados gigabayteanos nas casas de cada professor. O produto escola só tem sentido se ela puder dar conta de tudo pois ao contrário da ciência, a escola não pode dizer “desculpa, nós não temos a cura”.

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