Cia. Pessoal do Faroeste faz vaquinha para evitar despejo do teatro

Grupo teatral sofre ação de despejo de sua sede na Luz, onde vem distribuindo cestas básicas durante a pandemia

Ação beneficente do Instituto Luz do Faroeste, de distribuição de cestas básicas e produtos de higiene para moradores de cortiços e sem teto da região conhecida como Cracolândia.

Durante toda a pandemia do coronavírus, a movimentação no teatro da Cia. Pessoal do Faroeste tem sido de famílias em busca de ajuda da campanha #FomeZeroLuz. Iniciada por Paulo Faria, diretor e fundador do espaço, a ação de solidariedade tem colocado alimento e itens de higiene nas casas do entorno da Cracolândia. No entanto, nesta quarta-feira (12), o espaço recebeu uma visita diferente: um oficial de justiça que tinha em mãos um aviso de despejo e o prazo de 15 dias para desocuparem o imóvel.

Com dívida de R$ 200 mil, a Cia. de Teatro Pessoal do Faroestebusca preservar a sua sede, por meio de vaquinha virtual (contribua neste link). A companhia espera contornar a situação por meio da campanha #FicaFaroeste, no site de arrecadação de doações Abacashi, em que pretende chegar a novo acordo com o proprietário do imóvel.

Com mais de duas décadas de atuação, a Cia. Pessoal do Faroeste passa por dificuldades para pagar o aluguel de seu espaço, conhecido como Sede Luz do Faroeste, diante da pandemia. As dívidas chegam a R$ 200 mil.

No início de junho, o diretor Paulo Faria fez uma live com o portal Vermelho (veja o vídeo abaixo), quando falou do trabalho beneficente que vem desenvolvendo há anos na região da Luz, no centro de São Paulo, tanto com o fluxo de usuários de drogas, quanto com os moradores de cortiços que vêm sendo despejados pela especulação imobiliária.

“Estão distribuindo cestas básicas no teatro”, correu a notícia por todo o entorno e, em pouco tempo, já são mais de mil famílias cadastradas, cerca de quatro a cinco mil pessoas, que estão colocando alimento em suas mesas graças a companhia. Para se ter algum controle de que as doações seguiriam realmente para o seu propósito, criou-se a regra de que apenas as mulheres poderiam retirar os mantimentos (com algumas exceções analisadas caso a caso). Moradoras de rua, prostitutas, travestis e viciadas que, antes de qualquer rótulo, são em sua grande maioria mães.

A campanha foi ganhando apoio enquanto Paulo divulgava cada passo da ação, e seus relatos quase como um diário, nas redes sociais. “Foi por meio da internet que as pessoas conheceram nosso trabalho, resolveram ajudar com suas doações e ajudando a divulgar a campanha. A situação atual em que nos encontramos também comprova como cada centavo que entrou como doação foi utilizado apenas na compra das cestas básicas”, conta Paulo.

Diversão e consciência social

Com 22 anos, a companhia teatral se inspira  na história da região onde situa sua sede (Rua do Triunfo, 305), que já foi a rua do samba e rua dos estúdios de cinema da Boca do Lixo, além de toda a história que cerca o bairro histórico. Foi assim, que o dramaturgo escreveu as peças O Assassinato do Presidente, Curare, Luz Negra, Homem não entra, Cine Camaleão: Boca do Lixo e os Crimes do Preto Amaral. 

“Em 2020, não tivemos nenhum apoio financeiro por meio do Fomento ao Teatro, que é o que mantém a companhia em atividade. Nosso espaço é pequeno e todos os espetáculos têm como bilheteria o sistema ‘pague quanto puder’. Em março estreamos a peça ‘O Assassinato do Presidente’ que, devido a recomendação de isolamento social, teve que ser interrompida depois de apenas duas apresentações”, diz Faria.

Devido a toda a intervenção cultural e beneficente na região, o grupo teatral se tornou o Instituto Luz do Faroeste, entidade de utilidade pública que também ajuda outras companhias teatrais e artistas com os poucos recursos que recebe. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, a campanha Fome Zero Luz, idealizada por Faria, tem promovido a doação de alimentos e itens de higiene a moradores do entorno. Segundo o diretor, já são mais de mil famílias cadastradas, moradores dos cortiços e da favela próxima, que eram trabalhadores autônomos e foram atingidos pela falta de trabalho.

A Cia Pessoal do Faroeste ganhou o Prêmio Shell em 2014, na categoria Inovação pelo trabalho de ocupação e intervenção social e artística que contribui para transformação urbana da região da Luz. Em 2019, o diretor Paulo Faria recebeu da ALESP O 23o Prêmio Santo Dias em Direitos Humanos.

Efeitos da pandemia

Neste ano, diante da paralisação da programação artística causada pela pandemia, a companhia não pôde contar com os recursos provenientes do Fomento ao Teatro, o que tem afetado os diversos grupos teatrais da cidade.

Companhias teatrais que já tinham dificuldades para se manter com recursos de bilheteria, agora sofrem o impacto da pandemia, em que profissionais, atores e técnicos, dependem do auxílio emergencial de R$ 600, numa cidade em que os alugueis e condomínios ultrapassam esse valor.

Dias antes da notificação recebida pela sede, o próprio Paulo Faria sofreu uma ação de despejo de seu apartamento, no mesmo bairro. A solução encontrada por ele foi adaptar um dos andares do teatro, que virou a sua moradia.

Logo no início da pandemia, Faria já havia passado dias isolados no local, quando, ao perceber a intensificação da situação de vulnerabilidade dos moradores do entorno, deu início à campanha de distribuição de cestas básicas.

“Eu vivo do teatro, e assim como a própria instituição Cia. Luz do Faroeste está sem recursos, o mesmo se reflete na minha situação. Tentei negociar com o proprietário de todas as formas mas não chegamos a um acordo que eu pudesse sustentar. Eu e meus cachorros nos mudamos para dentro do teatro, adaptei um dos andares para moradia”, conta.

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